31 janeiro 2010
29 janeiro 2010
vida
a vida. não sabemos o que é. de onde veio. como chegou. mas sabemos o que é a morte, não porque a sintamos no nosso corpo, porque quando tomar conta dele já nós não estaremos lá. conhecemo-la pela dor que nos provoca, quando nos leva alguém que fez parte de nós. pode ser um ser humano ou animal, que vem a dar no mesmo. há seres humanos que são animais, no sentido em que os consideramos irracionais, pela ausência de sentimentos humanos e há animais com sentimentos tão humanos que chegamos a duvidar que não sejam da nossa espécie. a vida, há uma altura em que deixa de fazer sentido. é quando o sofrimento provocado pela doença se torna tão insuportável, tanto para quem o sente no seu corpo, como para quem assiste a ele que, aí, é que uma parte de nós pensa que a vida já não é vida. e então devia haver um mecanismo que se desligasse, automaticamente, para nos poupar. mas não, não existe. e a vida continua a ser vida, o sol nasce todos os dias e todas as noites há estrelas no céu, mesmo quando não as vemos.
27 janeiro 2010
mais 17 mil americanos vão para o Haiti. fazer o quê?
foi a notícia que ouvi. estão mais 17 mil!!! americanos preparados, com toda a parafernália de guerra que lhe é useira, para seguir para o haiti, além dos tantos que já lá estão. mas o que é que vai acontecer no haiti, além do que já aconteceu? estará o haiti entre os países "perigosos"? será o haiti um perigo terrorista para a segurança dos usa? não é essa a justificação para todas as invasões, guerras e violências, com que os usa pretendem calar as vozes que ousam protestar contra o seu poderio? será o medo de uns singelos "che's" pintados nas paredes, ou nos bonés dos sobreviventes? o que pode legitimar tamanha sanha de ocupação/invasão? ou será apenas uma ilha, pequena, corpo de jacaré, resistente e revolucionária desde que eu nasci? porque é que não se fala disto? em portugal, ou no mundo? porquê um silêncio tal? que encobre este império de mal?
http://octopedia.blogspot.com/2010/01/ocupacao-americana-do-haiti
http://octopedia.blogspot.com/2010/01/ocupacao-americana-do-haiti
25 janeiro 2010
gripe a, b, ou sei lá... ou c
pois estou retida! em minha própria casa. cativa de uma gripe que nem sei qual é, não me mandaram fazer análises. deve ser para poupar, gastaram o dinheiro todo nas vacinas e agora não chega para o resto. como a médica não tinha a certeza, não faz mal! fica em casa na mesma! 7 dias. no primeiro dia ainda andei mascarada, literalmente, mas agora resolvi que ainda é cedo para o entrudo. "tem de se isolar! não pode contactar com ninguém!" e o marido? vai dormir fora de casa? ele se calhar, até nem se importava. agora já podes fazer uma ode!!! á gripe a, dizia a filha. uma grande mascarada! isto da gripe a!
os jornalistas e o haiti
ontem estava a ver as notícias sobre o Haiti, mas como já não posso ouvir, vezes sem conta, as mesmas coisas tinha a televisão na opção muda. quando liguei o som estava uma jornalista da rtp1, rosário não sei quantas, a dizer que o povo haitiano tinha sido atingido, nos últimos anos, por muitas catástrofes, revoluções e outras tragédias. perguntei-me se uma revolução será uma tragédia para um povo. e cheguei à conclusão que não. se um povo faz uma revolução é porque a deseja e portanto um povo não deseja uma tragédia para si. quando um povo faz uma revolução é uma festa, para esse povo. admito que possa ser uma tragédia para alguns, os tiranos, os que são apeados do poder, mas nunca para a grande maioria do povo que fez a revolução. por vezes, infelizmente muitas, certos jornalistas não parecem conhecer o real sentido das palavras que dizem, ou então têm o pensamento tão formatado para determinadas direcções que são incapazes de ver o que lhes está mesmo à frente. também não explicam porque tendo sido o Haiti um dos primeiros países da américa a fazer uma revolução de escravos, vitoriosa, logo no início do século XX é hoje "um estado falhado". não dizem que isso aconteceu porque desde então os USA ocupam o Haiti a seu belo prazer, e ainda mais depois da revolução cubana. a certos jornalistas, não lhe fará confusão, porque é que num país totalmente devastado, onde as pessoas continuam a não ter comida e água para sobreviver, cheguem milhares de marines americanos carregados de metralhadoras e do arsenal que já lhes conhecemos no irão e afeganistão? só falta que em vez de largarem sacos com comida larguem bombas, assim resolviam a questão de vez e davam escoamento àquilo que mais produzem: armas de guerra. cada vez detesto mais uma certa américa. e nem vejo onde está a diferença actual.
23 janeiro 2010
casa vazia
a casa está vazia
fria
a lareira apagada
inchada
de silêncio
as cadeiras junto às paredes
encostadas
oferecem memórias vagas
numa gaveta
alguns objectos usados
uma carteira
uns brincos
sóis de trazer nas orelhas
pendurados
ali
a pequena navalha
preto o cabo
sempre a trazia
consigo
cortava vida
aos pedacinhos
pão e chouriço
pequenos os copos de vinho
sobre os móveis
molduras
felizes os rostos
a sorrir
o pó do tempo
tudo começa a cobrir
agora
quando volto
a casa
lugar que me viu nascer
é sempre assim
ninguém me espera
não há braços
para me receber
só o silêncio
lembranças
um certo jeito
de olhar
finissima agulha
no peito
a espetar
20 janeiro 2010
19 janeiro 2010
cotas máximas
desculpem a insistência no tema. é que como vi alqueva à cota máxima de 152, agora vejo cotas máximas em tudo. ele é a cota máxima da saudade (a saudade é de diverso tipo, cada um tem a sua e á sua medida). de vez em quando abre-se a comporta, descarrega-se um pouco e fica-se mais aliviado. mas ela volta logo a subir, é muito teimosa. enfim, essa coisa da saudade tem muito que se lhe diga. passemos à frente. ele é a cota máxima da tristeza, às vezes basta que um pisco mate a sede no lago e pronto! é o suficiente para que voltem os níveis de segurança. também há a cota máxima do sofrimento, essa é das mais perigosas, nunca sabemos bem se nos vamos afogar. e também é muito oportunista, quando menos se espera, pumba! além do mais tem várias caras, em bom português do PREC dir-se-ia uma vira casacas. aqui mostra uma face, ali mostra outra. uma autêntica cara de feijão frade. quem não souber o que isto significa que pergunte! se possível aos revolucionários a tempo inteiro, que muito sofreram com tais casos. também há a cota máxima do amor (do amor ou da amizade. não será a mesma escrita com caracteres diferentes?) ou não haverá esta?, o amor nunca é demais, então não deve ser fácil, ou será mesmo impossível que atinja os 152. portanto não é preciso descarregá-la e logo essa questão não se põe. adiante, que prá frente é que é o caminho. existe também a cota máxima da rotina, do quotidiano cinzento. vemos o perigo que constitui mas ás vezes o mecanismo falha, não faz a descarga e é a tragédia. por fim, há a cota máxima do desejo. quando atinge os tais 152, é sair da frente. é um tal dilúvio que não escapa nada. parece o leito de cheias do guadiana. e já chega de cotas! se outras houver cada qual que diga das suas. que as minhas já aí vão por esse rio abaixo.
15 janeiro 2010
alqueva na cota máxima
finalmente alqueva atingiu o máximo. é um espectáculo impressionante de ver, o duplo jacto projectando-se a grande altura e caindo no vasto leito do guadiana, em milhões de gotículas de fina poalha branca. é esse espectáculo que leva ali dezenas, ou centenas? de lisboetas-alentejanos, aos fins de semana, sempre dispostos a espantarem-se com a imensidão daquele lago, tão desejado e com tão pouca serventia. mas mesmo durante a semana a freguesia não falta. confirmei-o hoje mesmo quando lá passei, a caminho de pias. imagino o assombro que sentiriam os habitantes daquela cidade, da idade do bronze, no alto do cabeço fronteiro ao paredão (± 3000 anos, hoje conhecida como “castro dos ratinhos”) se pudessem olhar em seu redor e vissem tão assustadora visão. sobretudo se nos lembramos que tudo aquilo está construído em cima de uma falha geológica activa. mas o alentejo está mais belo que nunca, no seu manto de verde musgo e as chuvas deste ano, que levam alqueva à cota máxima engrossaram regatos e barranquinhos e vão fazer rebentar os poejos, os agriões e a hortelã da ribeira.
14 janeiro 2010
na próxima vez
na próxima vez
quero abraçar-te
beijar-te
encontrar o teu peito
no meu
na próxima vez
abrir-te
as mãos
descobrir
como encaixam
nas minhas
sentir
as linhas
que a vida nos fez
afagar-te o rosto
o cabelo
guardar o teu cheiro
no cofre
do meu peito
enchê-lo
na próxima vez
10 janeiro 2010
filosofias à volta do lume
a chuva desceu como cortina de pingos grossos. caem no telhado como música, que só oiço noalentejo. o lume que arde à minha frente e as rabanadas de vento que fustigam as oliveiras do quintal e as laranjeiras da rua, fazem-me perguntas. questionam-me acerca de quem inventou as telhas que cobrem o telhado. quem descobriu que, colocadas de certa maneira, ligeiramente sobrepostas e em plano inclinado, aos pares, de modelo romano (planas) ou em canudo (mouriscas), impedem que a àgua da chuva penetre em casa e nos molhe. de quem terá sido a ideia e quando e como descobriu que funcionava. o lume reclama a minha atenção. acabo com a filosofia e coloco mais um madeiro.
07 janeiro 2010
tristeza
a tristeza
é um rio
seco
de margens requeimadas
vencidas
pelo abandono.
este rio
já foi
ribeira fresca
rumorejante.
agora
apenas transborda
angústia.
04 janeiro 2010
despedidas
ontem foi dia de despedidas. primeiro fomos ao aeroporto levar a rita. lá abalou aquele pedacinho de nós para longe, outra vez. ela de coração apertado, pressentindo a saudade que começou logo ali a alagar-nos o peito e vai sempre subindo, até á cota estabelecida de, pelo menos, uns dois longos meses mais. e eu, que havia preparado tantos sorrisos e palavras, ali fiquei com elas sufocadas, presas, recusando-se a sair e uma dor aguda na garganta, que não me deixava falar. e lá foi ela para delémont, aquela cidadezinha pequena da bela e montanhosa suíça, com a prima patrícia. e então dei-me conta que se fosse mensurável e pudesse ser multiplicada, a minha angústia e a dos que me rodeavam, aumentava duas, quatro, seis, sete vezes. a de meu irmão e de sua mulher contavam a dobrar porque além daquela filha, haviam-se despedido, há poucos dias, do seu outro filho emigrante também, mas em áfrica. se juntasse a das outras pessoas que estavam no aeroporto para se despedirem, dos seus filhos, maridos, amantes, namorados, amigos e uma infinidade de outros laços que nem posso imaginar, daria uma equação infinita de sofrimento que só é derrotada pelo amor e pela esperança. mais de 2 mil quilómetros de distância já a separar-nos e nós cá ficámos na pátria que não é a de jorge de sena («Nem é ditosa, porque o não merece./ Nem minha amada, porque é só madrasta./ Nem pátria minha, porque eu não mereço/ a pouca sorte de ter nascido nela.») que expulsa os seus filhos de casa mas que, nem assim mesmo, deixamos de amar.
e enquanto a easy jet pousava as nossas emigrantes queridas em Basileia, cidade amada de louis aragon, nós chegávamos ao alentejo, para uma outra despedida, um adeus definitivo. fomos entregar a tia chica àquele cantinho da terra onde nasceu. ali ficou, acompanhada por outros tantos dos nossos mortos queridos. com ela partiu também um pouco da nossa história e da nossa família. apesar de tudo foi um momento de reencontro, que os funerais também servem para isso, com rostos e braços onde corre o meu sangue. ali me despedi das nossas viagens de comboio e lá ficou uma parte das memórias da minha infância. mais uma.
e enquanto a easy jet pousava as nossas emigrantes queridas em Basileia, cidade amada de louis aragon, nós chegávamos ao alentejo, para uma outra despedida, um adeus definitivo. fomos entregar a tia chica àquele cantinho da terra onde nasceu. ali ficou, acompanhada por outros tantos dos nossos mortos queridos. com ela partiu também um pouco da nossa história e da nossa família. apesar de tudo foi um momento de reencontro, que os funerais também servem para isso, com rostos e braços onde corre o meu sangue. ali me despedi das nossas viagens de comboio e lá ficou uma parte das memórias da minha infância. mais uma.
02 janeiro 2010
capitalismo uma história de amor
vale a pena ver o filme de Michael Moore. pena é que seja visto por tão pouca gente. basta dizer que não conseguimos vê-lo no Barreiro e tivemos de ir a Almada e connosco apenas havia 12 pessoas na sala! o documentário é um acto de coragem e denúncia, quase individual de Michael Moore, onde o activista cívico nos surge, qual D. Quixote, lutando contra moinhos de vento na mais poderosa nação do mundo capitalista. por esse facto Moore merece o nosso respeito e solidariedade. Michael Moore apresenta ao mundo, com factos e documentos, a verdadeira essência do sistema capitalista, vigente na tão proclamada “maior democracia do mundo”. mostra como gigantescas companhias financeiras dominam o sistema político colocando os seus privados interesses à frente do país e dos cidadãos. como a corrupção domina o esteio da sociedade e como tudo isto conduziu á profunda crise económica que dilacera a América e o mundo ocidental. é esta nação que permite que milhões!!! de cidadãos sejam expulsos de suas casas, percam todos os seus haveres e sejam lançados na mendicidade, que se arroga o direito de dar lições de democracia e de direitos humanos ao mundo. o que vimos no documentário seria impensável acontecer na Europa, sem que se gerassem revoltas, como as que estão a suceder na Grécia actualmente. porque uma das coisas que mais impressiona no documentário é a passividade com que os americanos - tão guerreiros e combatentes no Iraque e no Afeganistão! - aceitam o que lhes está a acontecer. o que sucedeu ao espírito da nação americana que protagonizou o amplo movimento popular, precursor da Revolução Francesa, que conduziu à declaração da Independência dos USA? a mim revolta-me que os americanos aceitem, e ainda agradeçam, às financeiras e imobiliárias, que tudo lhes roubam, pequenas esmolas que lhe atiram. e sobretudo, choca-me a falta de cultura democrática em contestar as leis vigentes.
27 dezembro 2009
os amigos
como são importantes os amigos
só há pouco tempo descobri como andei distraída sem perceber que tinha tantos
cada um com a sua história, o seu mundo que em alguma parte encaixa no meu
isso faz com que eu me sinta especial
por causa desses tantos amigos e amigas, que eu não sabia que tinha, desconfio que sou uma pessoa melhor e isso faz-me sentir muito bem.
só há pouco tempo descobri como andei distraída sem perceber que tinha tantos
cada um com a sua história, o seu mundo que em alguma parte encaixa no meu
isso faz com que eu me sinta especial
por causa desses tantos amigos e amigas, que eu não sabia que tinha, desconfio que sou uma pessoa melhor e isso faz-me sentir muito bem.
25 dezembro 2009
19 dezembro 2009
16 dezembro 2009
história de natal. fuga para a cidade
quando avistaram a ponte sobre o Tejo já a madrugada adormecia e uma claridade difusa desenhava os contornos de Lisboa. era quase véspera de natal de 1972. para trás ficava uma noite em claro, na camioneta, mais de seis horas de caminho. na cabine quatro pessoas: o motorista que espantava o sono com a própria voz, ela, apertada ao lado da mãe e o mais novo ao colo. lá atrás a mobília, coisa pouca, uma mesa de cozinha, um pequeno fogão a gás, algumas cadeiras, as camas de ferro e os colchões de lã, uma arca com cobertores e pouco mais. no meio de tudo aquilo o pai e o outro irmão. deixaram a aldeia já noite fechada, evitando discretamente a vizinhança. tomaram o caminho do castelo velho, passaram Vale de Lagarinhos e entraram na estrada. avistaram Serpa e logo depois deixaram o seu querido Guadiana e a margem esquerda. a camioneta velha e ronceira não deixava o sono pousar.
havia algum tempo que o pai não falava de outra coisa, que deviam deixar a aldeia! a ver se a pide o largava e lhe perdia o rasto de uma vez. já outros camaradas o tinham feito e dera resultado. e foi assim que abalaram para Alverca. a tia já alugara uma casa, pequena para tanta gente - já lá viviam os dois irmãos mais velhos - num pátio acanhado onde todos os vizinhos eram alentejanos. esse natal, naquela terra desconhecida em que todos se conheciam, passou e não deixou grandes lembranças. apenas foi o primeiro natal iluminado com luz eléctrica mas a ausência da lareira fazia a noite ainda mais fria e longa. talvez as noites do pai agora tivessem madrugadas serenas…
13 dezembro 2009
Família Ferroviária por Manuela Fonseca
Nasci em 30 e Novembro de 1949 – a família alargada, ferroviária, a que pertencia, entre a António José de Almeida e os becos, travessas, ruas e avenidas limítrofes, rejubilou: tinha esperado dez longos anos por mim. E, paradoxo: cheguei tarde e cheguei cedo para ver, ouvir e sentir os comboios: os números das viagens e os percursos sabidos de cor, ditos pelo meu pai e o avô Fonseca (não conheci, infelizmente, o avô Horta ou teriam sido três a referi-los).
Fui educada – criada, como então se dizia – para além do campo do Barreirense e do Ginásio-Sede, quando passou, majestoso, a existir, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições.
Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários enquanto a minha mãe, cognominada Rabicha 3, corria, corria por uma impecável logística do nosso Cristiano da Fonseca Júnior.
(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição da entrega da comida confeccionada: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)
Fui educada – criada, como então se dizia – para além do campo do Barreirense e do Ginásio-Sede, quando passou, majestoso, a existir, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições.
Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários enquanto a minha mãe, cognominada Rabicha 3, corria, corria por uma impecável logística do nosso Cristiano da Fonseca Júnior.
(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição da entrega da comida confeccionada: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)
08 dezembro 2009
inquietação
caminhos velhos
antigas veredas
que vidas
passaram
por vós
que olhares
afagaram
as vossas pedras
redondas
que mãos
colocaram
as pedras
nos valados
quem sussurrou
na curva do monte
que palavras
foram ditas
certo dia
que humanos
passos
me antecederam
de quem são
estas memórias
chegando
do fim
do tempo
perpassando
o meu ser
o que sou eu
quem
sou eu
é sempre a mesma
inquietação
Vimieiro, Março 2006
07 dezembro 2009
gente povo todo o dia
Conheci o Filipe Jorge quando ele andava a escrever este livro. Eu não sabia, é claro. (nem sei se ele imaginava que algum dia viria a editá-lo). Isto foi aí nos anos de 77/78 a 80. Eu tinha 18 ou 19 e ele tinha 22 ou 23 anos. (passaram entretanto 30 anos!) Já tinha terminado o Processo Revolucionário em Curso, o famoso PREC. Mas, no Alentejo a Reforma Agrária resistia, às investidas da lei Barreto que roubava a terra àqueles que sempre a trabalharam, aos ataques diários, espancamentos e prisões, praticadas pela GNR. Nessa altura alguns, MUITOS, de nós (aqui nesta sala estão alguns) fomos revolucionários a tempo inteiro, como ele muito poeticamente escreve no seu livro. Eu acrescento ao tempo inteiro o corpo inteiro. Foi um tempo único nas vidas de todos nós, esse tempo de REVOLUÇÃO. O nosso país já foi palco de algumas revoluções, (e revoltas também) ao longo da sua história, mas há algumas que são especiais (pelo menos para mim) como 1383-85, 1640, 1910 e a nossa: 1974. Foram revoluções em que o POVO ou as mãos do povo, empurrou o carro da história, como se escreve neste livro. E nós temos a sorte de estar vivos e poder dizer que fizemos parte desse povo que, em 1974, transformou o mundo, ao transformar Portugal.
E é desse povo que nos fala Filipe Chinita. É nesse povo que nos reconhecemos, quando o poeta no poema "proposição" fala de abrir portas ao mundo, um mundo novo a ser conquistado por esse povo. Um mundo com ruas e «salas a abarrotar de gente», onde o poeta lê os anos e as vidas nos rostos marcados, nas mãos cheias de nada e de dores antigas. Mãos de trabalho ali à disposição de todos, abertas e francas, «as mãos que tudo fazem». É esta gente povo todo o dia, a quem o poeta lança as suas palavras, no poema "sou convosco". E as palavras, essas «guerrilheiras» rimam com risos e têm «sabor a pão e a revolução».
Neste livro as ideias surgem depuradas, simples de tão claras e profundas. As palavras são apenas as necessárias para dizer. Não precisam de ornamentos. (Ele próprio, o livro, é quase um objecto estético na forma como as e se apresenta).
As palavras podem ser doces cheias de «ternura alegria» e festa, ou podem ser, simplesmente pintura(s) luminosa(s) onde «o céu é de um todo azul».
São palavras feitas acções e convicções, como a preparação do «encontro de amanhã» ou a «assembleia geral» ou «essa coisa da vida e do comunismo».
Podem ser também, como a vida por vezes, muito duras e dolorosas e são-no, nos poemas "traição" e "intermediários". Aqui é a náusea perante aqueles que «cospem para o chão o asco em que vivem».
Nesta escrita, quase uma crónica do quotidiano da revolução, o poeta cresceu com ela, a Revolução, e como pessoa, quando sente que abre «pequenos mundos que sejam» e encontra-se com a poesia. E é extraordinário como a encontra, imagine-se! num «barracão de paredes rebocadas nuas» numa «lâmpada florescente, electricidade de há pouco» ou no «tecto novo coberto de esferovite».
O poeta encontra-se com a poesia na sua «vida de revolucionário(s) humaníssimo(s) de peito aberto».
Sim, tenho de o dizer, reconheci-me, muitas vezes, nestes poemas.
Obrigado ao Filipe Chinita, por este livro e pelo outro que também já saiu este ano: Cantata Pranto e Louvor em memória de Caravela e Casquinha, em co-autoria com Manuel Gusmão.
(para terminar gostava de apenas vos dizer que perdi o contacto com Filipe Jorge em 1980 e apenas voltamos a reencontra-nos este ano, na festa do avante.)
E é desse povo que nos fala Filipe Chinita. É nesse povo que nos reconhecemos, quando o poeta no poema "proposição" fala de abrir portas ao mundo, um mundo novo a ser conquistado por esse povo. Um mundo com ruas e «salas a abarrotar de gente», onde o poeta lê os anos e as vidas nos rostos marcados, nas mãos cheias de nada e de dores antigas. Mãos de trabalho ali à disposição de todos, abertas e francas, «as mãos que tudo fazem». É esta gente povo todo o dia, a quem o poeta lança as suas palavras, no poema "sou convosco". E as palavras, essas «guerrilheiras» rimam com risos e têm «sabor a pão e a revolução».
Neste livro as ideias surgem depuradas, simples de tão claras e profundas. As palavras são apenas as necessárias para dizer. Não precisam de ornamentos. (Ele próprio, o livro, é quase um objecto estético na forma como as e se apresenta).
As palavras podem ser doces cheias de «ternura alegria» e festa, ou podem ser, simplesmente pintura(s) luminosa(s) onde «o céu é de um todo azul».
São palavras feitas acções e convicções, como a preparação do «encontro de amanhã» ou a «assembleia geral» ou «essa coisa da vida e do comunismo».
Podem ser também, como a vida por vezes, muito duras e dolorosas e são-no, nos poemas "traição" e "intermediários". Aqui é a náusea perante aqueles que «cospem para o chão o asco em que vivem».
Nesta escrita, quase uma crónica do quotidiano da revolução, o poeta cresceu com ela, a Revolução, e como pessoa, quando sente que abre «pequenos mundos que sejam» e encontra-se com a poesia. E é extraordinário como a encontra, imagine-se! num «barracão de paredes rebocadas nuas» numa «lâmpada florescente, electricidade de há pouco» ou no «tecto novo coberto de esferovite».
O poeta encontra-se com a poesia na sua «vida de revolucionário(s) humaníssimo(s) de peito aberto».
Sim, tenho de o dizer, reconheci-me, muitas vezes, nestes poemas.
Obrigado ao Filipe Chinita, por este livro e pelo outro que também já saiu este ano: Cantata Pranto e Louvor em memória de Caravela e Casquinha, em co-autoria com Manuel Gusmão.
(para terminar gostava de apenas vos dizer que perdi o contacto com Filipe Jorge em 1980 e apenas voltamos a reencontra-nos este ano, na festa do avante.)
04 dezembro 2009
viver é estar aqui
[...]
. aqui
a
jantar
palavras
a
jorrarem
vinho
noite
de
aproximar
os
homens
coisa
maior
a
escrever
o
dia
a
dia
a
cantar
o
meu
povo
as
horas
duras
a
solidão
acompanhada
a
dar-mo-nos
por
inteiro
sem
esperarmos
nada
em
troca
senão
o
prazer
dessa dádiva
na
irredutível
diferença
de
cada
um
(de
nós)
sermos
um
mais
entre
os
tantos
iguais.
CHINITA, Filipe, gente povo todo o dia, edições avante, 2009, pp.178-182
. aqui
a
jantar
palavras
a
jorrarem
vinho
noite
de
aproximar
os
homens
coisa
maior
a
escrever
o
dia
a
dia
a
cantar
o
meu
povo
as
horas
duras
a
solidão
acompanhada
a
dar-mo-nos
por
inteiro
sem
esperarmos
nada
em
troca
senão
o
prazer
dessa dádiva
na
irredutível
diferença
de
cada
um
(de
nós)
sermos
um
mais
entre
os
tantos
iguais.
CHINITA, Filipe, gente povo todo o dia, edições avante, 2009, pp.178-182
02 dezembro 2009
histórias de comboios. passeio a Caxias
outra vez de comboio. os dois irmãos protestaram, revoltados, só ela é que anda de comboio! mas a mãe não podia deixá-la, era a mais nova. recordava-se ainda da última viagem, com a tia, quando o comboio passou junto à trincheira, na rua do castelo, a mãe a acenar. agora não havia ninguém. a mãe ia ali a seu lado, sentada, envolta no xaile preto. iam visitar o pai. estava a trabalhar muito longe, responderam-lhe quando perguntou porque não aparecia. e os lírios do campo, que sempre lhe trazia na alcofa, à noite. estava à sua espera, há tantos dias. o comboio deslizava veloz, deixando um rasto de nuvens de fumo que tudo cobriam. ninguém para lhe explicar que terra era esta ,ou que estação era aquela. mas reconheceu a casa enflorada, quando ouviu o revisor a anunciar: casa branca. a mãe silenciosa, a viagem aborrecida e longa. por fim, o barreiro e aquele nevoeiro mal cheiroso, que lhe picava os olhos e fazia tosse. à saída do barco, lá estava a tia chica a dar pressa. senão não chegamos a horas da visita. recordava-se vagamente de passar por um bonito jardim, onde queria apanhar flores, mas puxavam-na, sem tempo. vamos não queres ver o pai. quero. chegaram a um portão alto e escuro, um guarda de cada lado. deteve-se assustada. não vou tenho medo. e o choro, alto, ouviu-se. lá seguiram, a puxá-la por um corredor escuro e interminável. quando se deu conta estavam junto do pai, mas não podia subir para o seu colo. os bracitos, desesperadamente, tentavam afastar as grades para passar entre os ferros, como ouvira contar tantas vezes a um dos irmãos, quando fora ver o pai a serpa, mas não conseguia. não se recorda como terminou o passeio a caxias. apenas sabe que foi triste. no regresso, quando chegou ao pé dos irmãos contou-lhe que tinham passado ao tejo, ao ribatejo e ao alentejo.
30 novembro 2009
o poeta Al Mutamid
castelo de aljezur
um apelo chega do fundo do tempo.
cavalga na brisa
faz ondular
o verde das searas
das azinheiras
redondas e rasas
que ficam mais doces.
é o poeta al mutamid.
no seu corcel
do pensamento
transporta mil anos de história.
os mesmos campos
os mesmos homens
as mesmas guerras.
ah! meu poeta
continuamos crianças
não aprendemos nada.
27 novembro 2009
A velha ermida
subimos o monte
ao encontro do passado
não do nosso
que ainda nos não dá saudade.
o passado de outros
anónimo e distante
as azinheiras
redondas
estão em flor.
eis-nos no cimo do monte
as ruínas de uma velha ermida
aqui estão
que preces terão recebido?
que mulheres aqui se curvaram?
que desejos alcançaram?
porque pedem, tanto, as mulheres?
no alto do monte, que preces farei?
não faço preces
desço o monte
alentejo 26 março 2006
histórias de comboios. a primeira viagem
a primeira viagem foi com a tia mais nova, Benta de seu nome. gostava muito dela e o sentimento era mútuo. ainda não tinha 7 anos feitos. por causa da pouca idade e porque tinha passe do caminho de ferro, só pagava um quarto de bilhete. mas foi a tia quem pagou. o comboio partiu. deixou para trás a Caseta, passou na Zurreira, fez a curva na Trincheira e lá estava a mãe no Castelo, a acenar. não se importou. tudo era novidade. à janela a paisagem desfilava, rápida. ó tia o que é aquilo, não sei já passou. e agora? o comboio parou, já chegámos tia, ainda não. que terra é esta tia, é Beja. fica quietinha e dorme, não tenho sono. e agora o que é? é Alvito e Viana do Alentejo. e aquilo o que é tia? é uma cegonha, não é “ti” Benta! as cegonhas são aqueles pássaros que fazem ninhos no Torre do Relógio, mas esta é de tirar água. olhe tia, que estação tão bonita, é Casa Branca, não é a casa enflorada. deve ter sido a última estação que viu.
24 novembro 2009
as actas
nas actas
transparece
o discurso fascista
fala da pátria
de moral
de ginástica e canto coral
de fervor nacionalista.
fina capa de verniz
onde
pressinto-o,
o ódio
se esconde
e a vingança
bruta
e cruel
explode.
23 novembro 2009
liberdade livre
estiveste sempre
aqui
à minha espera
desde que nasci
e assim que cheguei
lancei
raízes em ti.
tomei-te todo
primeiro a alma
depois o corpo.
em ti cresci
fui Primavera
flori.
de meu livre ventre
pari
a semente
da Liberdade livre
livre como o vento
e o pensamento.
nasceu
e é nosso o fruto
só nosso
meu e teu.
rotina
a caminho do trabalho
saio de casa já em cima das 9, um leve nevoeiro envolve a cidade.
abro a porta da rua e uma senhora, velhota simpática que não conheço, diz-me bom dia. sorrio e retribuo o cumprimento e quase caio, para me desviar dos dejectos de cão, em cima do passeio. olho para o mercado 1º de maio e noto a azáfama do costume. desço pela alfredo da silva em passo apressado. o tico-tico está a abarrotar de gulosos.
viro para a miguel bombarda e o trânsito está um caos, rebentou um cano. uma equipa das águas e saneamento tenta consertar a ruptura. logo a seguir, na telha do pão, algumas colegas tomam o pequeno almoço. olá, olá, estás bem, como vais. em frente à câmara a gracinda, a cristina, o sérgio, bom dia, olá, adeus. mais à frente as oficinas da emef e a exposição (e a rita há quantas horas já se levantou e está na sua bancada de trabalho). desço as escadas para o túnel, agora verdinho e limpinho, mais seguro (eu também o torno mais seguro quando passo lá). ao dobrar a esquina afasto-me, por precaução, e aparece-me pela frente um d. sebastião no seu cavalo branco, que é como quem diz, um rapaz (mais ou menos da minha idade), figura alta e espadaúda, cabelo cor do meu, se o meu não fosse ruivo (não é para rir! nunca viram uma alentejana ruiva? pois fiquem sabendo que as há e muitas! e de muitas outras cores).
20 novembro 2009
a saudade o que é
a saudade
não sei o que é
sei que está
cá dentro
bem no fundo
escondida
quietinha
adormecida.
quando acorda
salta
para fora
como se fora
animal selvagem
à solta
ataca
à traição.
sou caçada
desfeita
devorada.
depois
sorrateiramente
lambe os restos
limpa as garras
volta ao covil.
adormece
serenamente
como um bebé.
a saudade
não sei o que é
19 novembro 2009
rotina
hoje não vou à reunião
hoje não vou à reunião de serviço.
voz masculina pergunta porquê.
ora, edifícios municipais!
pra quê, já tantas sugestões têm na gaveta e não servem para nada.
voz masculina de novo mas vai, não fiques fechada na tua concha, assim não ouves ninguém e as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar, ouvindo os outros aprende-se sempre alguma coisa.
pronto, pronto está bem (as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar! tocou no ponto. meto a arrogância na gaveta).
está bem, vou à reunião.
está bem, vou à reunião.
e fui.
e ouvi.
e disse.
e até foi interessante.e ouvi.
e disse.
18 novembro 2009
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