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18 abril 2012

Imensidão no Silêncio





Rasgar a luz até ao infinito
Ir além de cada nevoeiro
Trepar a dor constante
Atravessar o grito
Na persistência de cada criador
Erguer-se em deus senhor.
Libertar em cada Prometeu
A luz dele mesmo ignorada
Desafiar os deuses que se calam
Diante da Humanidade abandonada.
Arremessar o gesto libertário
Para além de todas as fronteiras
No movimento contrário
Ás leis malquistas financeiras.
Dilacerar espelhos falsários
Uivar esta dor que trago em mim
De tantos aniversários
De funesto festim
O silêncio é a música da festa
da sinistra noitada
os poetas vão escorrendo versos
mas são palavras soltas
não servem a mais nada
Não erguem corações a palpitar
como estrelas furando a imensidão
atravessam o tempo o espaço o mar
sem chegarem a ser pão
o pão que se reparte
um pão que seja natural
como é a poesia e a Arte.
E nem Apolo acode, nem as Musas
Hipocrene secou
E do sangue de todas as medusas
um ser de pedra e pó nos povoou.
Trazemos no rosto um olhar cego
Uma boca sem voz
E assistimos no maior sossego
Ao sacrifício de cada um de nós.
E esta dor que cresce e que me rasga
Contrária à indiferença
É feita do espanto acumulado
Do absurdo da letal presença.
Um mundo repleto do fantasma
Como se transparente
Não fosse mais que o plasma
Da lei inexistente...

Aonde o ser humano que esfacela
A história que velhinha
Extravasa da estrela que revela
A estrada onde caminha!

Marília Gonçalves




03 agosto 2010











alta vai
a águia
que voa acima do castelo

uma leve aragem
ainda fresca
sopra no pasto
e faz subir pela encosta
o latir dos cães
e o cantar dos galos

na aldeia de baixo
o calor
derrete as vozes
das mulheres

o sino da torre acorda o silêncio
é meio dia

ao lado alguém pergunta
it's closed?
refere-se ao posto de turismo
yes, i think so
é a resposta

o vazio enche as ruas
no castelo de évora monte

são horas do almoço

29 julho 2010

hoje a solidão


hoje a solidão

é branca

como a cal


rasa

como campa


é uma estrada aberta

na planície deserta

sem fim à vista


infinita


amanhã

sabe-se lá

a cor que terá

23 janeiro 2010

casa vazia
















a casa está vazia
fria
a lareira apagada
inchada
de silêncio
as cadeiras junto às paredes
encostadas
oferecem memórias vagas

numa gaveta
alguns objectos usados
uma carteira
uns brincos
sóis de trazer nas orelhas
pendurados

ali
a pequena navalha
preto o cabo
sempre a trazia
consigo
cortava vida
aos pedacinhos
pão e chouriço
pequenos os copos de vinho

sobre os móveis
molduras
felizes os rostos
a sorrir

o pó do tempo
tudo começa a cobrir

agora
quando volto
a casa
lugar que me viu nascer
é sempre assim
ninguém me espera
não há braços
para me receber

só o silêncio
lembranças
um certo jeito
de olhar
finissima agulha
no peito
a espetar

18 novembro 2009

só planície


planície

só planura

longínqua

infinita

onde só a tristeza cresce

rasteira.


uma ou outra azinheira

redonda

rasa

a custo ergue-se

do chão

logo vergada

 pelo vento

mágoa

 solidão.


esta é a paisagem

este é o mo(n)te.