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22 abril 2010

naquele bêco triste. carta de Dinis Miranda, preso político na cadeia do porto, a sua filha Eulália

Lálinha está á janela de dia vê o sol de Noite vê a Lua


Querida Lálinha

Muitos Beijinhos meus para ti e para a Mãezinha. O Carlos e o Fernando tambem te mandam muitos beijinhos. Aí tens o conto que eu te prometi mandar. Desculpa a demora. Manda-me dizer se gostas ou não. Gostava de saber a tua opinião. Gostas deste " tipo"ou preferes outro 'género' aguardo a tua resposta.

Conto Infantil
Naquele Bêco Triste

Debruçada na sua janela triste, a menina sonhava. Os seus cabelos eram cor do Sol, daquele Sol que ela amava mas que nunca penetrava naquele Beco escuro e sujo; os olhos eram cor do mar sem fim, que ela nunca vira...
Ela não via a sua rua estreita e feia, via-a larga e bela, via uma rua onde o Sol entrava todas as manhãs para lhes dar os bons dias e onde a Lua a visitava já tarde para lhes dar as boas noites.......E os seus lábios abriam-se num sorriso vago e mal definido.....
E a menina sonhava......É tão agradável sonhar!E tão consolador poder fazêlo sem contrangimento!
Os seus olhos como dois pardais errantes, andavam de telhado em telhado e perdiam-se para lá dessa rua estreita. O seu olhar de intensa luminosidade revelava uma secreta esperança de um futuro melhor um Futuro de Paz e de Tolerância.......
Menina dos olhos cor do mar, que sonhaste tu para assim sorrires?
Para além do teu Beco escuro e sujo, que viste tu, menina dos olhos cor de Esperança?»


O original deste conto infantil tem o carimbo da censura da pide! Foi enviado da cadeia do Porto em 30/08/1960, por Dinis Miranda para a sua filha Eulália Miranda ( Lála).
Dinis Miranda saiu em liberdade do forte de Peniche no dia 25 de Abril de 1974.

31 janeiro 2010

chão


chão

deste chão

levantam-se vozes

que

eu

não sei

de quem são

são vozes de homens

mulheres

crianças

sem pão

vozes de fome

terror

solidão

este negro chão

cor de sofrimento

está escondido

no coração

da planície

na superfície

do pensamento



16 dezembro 2009

história de natal. fuga para a cidade











quando avistaram a ponte sobre o Tejo já a madrugada adormecia e uma claridade difusa desenhava os contornos de Lisboa. era quase véspera de natal de 1972. para trás ficava uma noite em claro, na camioneta, mais de seis horas de caminho. na cabine quatro pessoas: o motorista que espantava o sono com a própria voz, ela, apertada ao lado da mãe e o mais novo ao colo. lá atrás a mobília, coisa pouca, uma mesa de cozinha, um pequeno fogão a gás, algumas cadeiras, as camas de ferro e os colchões de lã, uma arca com cobertores e pouco mais. no meio de tudo aquilo o pai e o outro irmão. deixaram a aldeia já noite fechada, evitando discretamente a vizinhança. tomaram o caminho do castelo velho, passaram Vale de Lagarinhos e entraram na estrada. avistaram Serpa e logo depois deixaram o seu querido Guadiana e a margem esquerda. a camioneta velha e ronceira não deixava o sono pousar.
havia algum tempo que o pai não falava de outra coisa, que deviam deixar a aldeia! a ver se a pide o largava e lhe perdia o rasto de uma vez. já outros camaradas o tinham feito e dera resultado. e foi assim que abalaram para Alverca. a tia já alugara uma casa, pequena para tanta gente - já lá viviam os dois irmãos mais velhos - num pátio acanhado onde todos os vizinhos eram alentejanos. esse natal, naquela terra desconhecida em que todos se conheciam, passou e não deixou grandes lembranças. apenas foi o primeiro natal iluminado com luz eléctrica mas a ausência da lareira fazia a noite ainda mais fria e longa. talvez as noites do pai agora tivessem madrugadas serenas…

02 dezembro 2009

histórias de comboios. passeio a Caxias





outra vez de comboio. os dois irmãos protestaram, revoltados, só ela é que anda de comboio! mas a mãe não podia deixá-la, era a mais nova. recordava-se ainda da última viagem, com a tia, quando o comboio passou junto à trincheira, na rua do castelo, a mãe a acenar. agora não havia ninguém. a mãe ia ali a seu lado, sentada, envolta no xaile preto. iam visitar o pai. estava a trabalhar muito longe, responderam-lhe quando perguntou porque não aparecia. e os lírios do campo, que sempre lhe trazia na alcofa, à noite. estava à sua espera, há tantos dias. o comboio deslizava veloz, deixando um rasto de nuvens de fumo que tudo cobriam. ninguém para lhe explicar que terra era esta ,ou que estação era aquela. mas reconheceu a casa enflorada, quando ouviu o revisor a anunciar: casa branca. a mãe silenciosa, a viagem aborrecida e longa. por fim, o barreiro e aquele nevoeiro mal cheiroso, que lhe picava os olhos e fazia tosse. à saída do barco, lá estava a tia chica a dar pressa. senão não chegamos a horas da visita. recordava-se vagamente de passar por um bonito jardim, onde queria apanhar flores, mas puxavam-na, sem tempo. vamos não queres ver o pai. quero. chegaram a um portão alto e escuro, um guarda de cada lado. deteve-se assustada. não vou tenho medo. e o choro, alto, ouviu-se. lá seguiram, a puxá-la por um corredor escuro e interminável. quando se deu conta estavam junto do pai, mas não podia subir para o seu colo. os bracitos, desesperadamente, tentavam afastar as grades para passar entre os ferros, como ouvira contar tantas vezes a um dos irmãos, quando fora ver o pai a serpa, mas não conseguia. não se recorda como terminou o passeio a caxias. apenas sabe que foi triste. no regresso, quando chegou ao pé dos irmãos contou-lhe que tinham passado ao tejo, ao ribatejo e ao alentejo.

24 novembro 2009

as actas


nas actas
transparece
o discurso fascista

fala da pátria
de moral
de ginástica e canto coral

de fervor nacionalista.

fina capa de verniz

onde

pressinto-o,

o ódio

se esconde

e a vingança
 bruta
e cruel
explode.