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25 outubro 2012

as mulheres não sabem




na planície ondulante

sopra um vento escaldante

o vento suão

e as mulheres não sabem

que nome dar

ao sentimento vago

que veio do mar

que lhe vagueia

na alma

e as almareia

as mulheres não sabem

os afagos

que guardam nas mãos

os mil sossegos

que lhe bailam nos dedos

com que alisam os medos

as mulheres não sabem

que os seus olhos cintilam

em lagos de mansidão

quando fundas

nas noites escuras

se dão


as mulheres só sabem

que esse quente vento

sufocante

suão

tem outros nomes

só elas sabem

as mulheres

que nomes

são

07 setembro 2012

onde está a poesia




hoje a poesia 
está apenas no meu olhar

e naquele recanto do jardim
nas raízes daquela árvore exótica

nos olhos do cão vadio

naquele grupo de operários
que chegam do velho porto da cuf
para o seu café de camaradas

nos guindastes
nas altas chaminés
nos castelos de betão

castelos industriais
esses são
os verdadeiros castelos do barreiro

nos barcos dos pescadores

na névoa que envolve o rio

nas velas brancas de um veleiro

naquela velha mulher
do barreiro
que como se no alentejo
ainda
varre a rua à sua porta
todos os dias

naquele grafiti
que incita
questiona tudo

nas velhas casas
ora alegres
do bairro operário

na saudação do jardineiro

no relógio
que da sua torre
me diz
são horas do almoço

no meu olhar
e no teu olhar

afinal
a poesia 
anda no ar
livre
nas asas de uma gaivota

21 março 2012

no dia da poesia e dos poetas




o poema original

original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema 
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.

o que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
original é o poeta 
que de todos for só um.

original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender 
o que é choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
original é o poeta 
que é gato de sete vozes.

original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor

esse que despe a poesia
como se fosse mulher 
e nela emprenha a legria
de ser um homem qualquer.

ary dos santos

um dos poetas da minha vida











07 dezembro 2011

josé régio, soneto (quase) inédito








Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos – só! – por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.



soneto de José Régio, 1969


24 maio 2010

poema de sidónio muralha




parar. parar não paro.
esquecer. esquecer não esqueço.
se carácter custa caro
pago o preço

pago embora seja raro.
mas o homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso

um rio, só se for claro.
correr, sim, mas sem tropeço.
mas se tropeças não paro
- não paro nem mereço.

e que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

sidónio muralha
poemas de abril, prelo, 1974



19 maio 2010

inteireza




não sei não ser sincero,
nem o quero.
se o não fosse,
o que eu dissesse,
o que eu fizesse,
poderia ser mais belo, seria mais prudente,
dar-me-ia um mais doce sossego do que tenho,
mas o que não teria, com certeza,
era esta singeleza,
era esta inteireza,
que mantenho,
em manter-me comigo intransigente.

Armindo Rodrigues
O Poeta Perguntador



29 março 2010

(im)perfeição





humana condição
o saber
que é (im)perfeição
que em si
existe

mas resiste
e
insiste

na utopia
de fazer
a noite clara
perfeito
o dia

vã e duvidosa ciência

consciência
que nos empurra
em permanência
nesta procura
infinda
da inocência

25 março 2010

resposta da associação griot ao poema primavera com poesia




Rosalina
Em continuidade ao seu poema e porque tb foi uma honra para nós,
aqui fica a nossa contribuição para complementar o seu poema;

como pombos abraçamos
 braviamente a partilha
Como rodopios traçamos
a alegria da maravilha

Se num arco-íris seduzimos
mais de mil cores reunimos
e somos um, 
abraço quente,
primavera luminosa
ou partilha esperançosa


Beijinho
Griot


obrigado
à
Anaína Lourenço
Daniel Martinho
Miguel Sermão
Matamba Joaquim
Ângelo Torres

22 março 2010

poesia com primavera

auditório municipal augusto cabrita
barreiro

os bravos pombos
chegam aos bandos

estorninhos em rodopio
traçam no ar
desafios

gente que é campo
em mil cores
arco-íris
sedutores

arco-íris de gente
primavera luminosa

abraço quente

21 março 2010

21 março dia mundial da poesia


VIVAM OS POETAS
VIVA A POESIA

Saúdo todos os Poetas de Portugal e Mundiais, todos os Poetas da Lusofonia,e meus colegas Universais da PAZ, os "Poetas del Mundo" aqui deixo o convite para que neste 21 de Março Dia Mundial da Poesia os Poetas de Portugal adiram a Poetas del Mundo sediado no Chile, com o site do mesmo nome

Marília Gonçalves

16 março 2010

dia mundial da poesia



depois deste fim de semana de férias na suiça - onde fizemos uma colheita de saudades e logo lançámos a semente das próximas e como diz marília gonçalves as saudades não se matam porque logo outras nascem - de regresso ao trabalho e ao blog, agora é tempo de dar tudo para o dia mundial da poesia. para que filipe chinita e manuel gusmão tenham um dia da poesia digno da sua cantata, no barreiro. todas e todos são bem vindos se vierem por bem, e trouxerem outro amigo também! como cantou o poeta zeca afonso.

07 dezembro 2009

gente povo todo o dia

Conheci o Filipe Jorge quando ele andava a escrever este livro. Eu não sabia, é claro. (nem sei se ele imaginava que algum dia viria a editá-lo). Isto foi aí nos anos de 77/78 a 80. Eu tinha 18 ou 19 e ele tinha 22 ou 23 anos. (passaram entretanto 30 anos!) Já tinha terminado o Processo Revolucionário em Curso, o famoso PREC. Mas, no Alentejo a Reforma Agrária resistia, às investidas da lei Barreto que roubava a terra àqueles que sempre a trabalharam, aos ataques diários, espancamentos e prisões, praticadas pela GNR. Nessa altura alguns, MUITOS, de nós (aqui nesta sala estão alguns) fomos revolucionários a tempo inteiro, como ele muito poeticamente escreve no seu livro. Eu acrescento ao tempo inteiro o corpo inteiro. Foi um tempo único nas vidas de todos nós, esse tempo de REVOLUÇÃO. O nosso país já foi palco de algumas revoluções, (e revoltas também) ao longo da sua história, mas há algumas que são especiais (pelo menos para mim) como 1383-85, 1640, 1910 e a nossa: 1974. Foram revoluções em que o POVO ou as mãos do povo, empurrou o carro da história, como se escreve neste livro. E nós temos a sorte de estar vivos e poder dizer que fizemos parte desse povo que, em 1974, transformou o mundo, ao transformar Portugal.
E é desse povo que nos fala Filipe Chinita. É nesse povo que nos reconhecemos, quando o poeta no poema "proposição" fala de abrir portas ao mundo, um mundo novo a ser conquistado por esse povo. Um mundo com ruas e «salas a abarrotar de gente», onde o poeta lê os anos e as vidas nos rostos marcados, nas mãos cheias de nada e de dores antigas. Mãos de trabalho ali à disposição de todos, abertas e francas, «as mãos que tudo fazem». É esta gente povo todo o dia, a quem o poeta lança as suas palavras, no poema "sou convosco". E as palavras, essas «guerrilheiras» rimam com risos e têm «sabor a pão e a revolução».
Neste livro as ideias surgem depuradas, simples de tão claras e profundas. As palavras são apenas as necessárias para dizer. Não precisam de ornamentos. (Ele próprio, o livro, é quase um objecto estético na forma como as e se apresenta).
As palavras podem ser doces cheias de «ternura alegria» e festa, ou podem ser, simplesmente pintura(s) luminosa(s) onde «o céu é de um todo azul».
São palavras feitas acções e convicções, como a preparação do «encontro de amanhã» ou a «assembleia geral» ou «essa coisa da vida e do comunismo».
Podem ser também, como a vida por vezes, muito duras e dolorosas e são-no, nos poemas "traição" e "intermediários". Aqui é a náusea perante aqueles que «cospem para o chão o asco em que vivem».

Nesta escrita, quase uma crónica do quotidiano da revolução, o poeta cresceu com ela, a Revolução, e como pessoa, quando sente que abre «pequenos mundos que sejam» e encontra-se com a poesia. E é extraordinário como a encontra, imagine-se! num «barracão de paredes rebocadas nuas» numa «lâmpada florescente, electricidade de há pouco» ou no «tecto novo coberto de esferovite».
O poeta encontra-se com a poesia na sua «vida de revolucionário(s) humaníssimo(s) de peito aberto».

Sim, tenho de o dizer, reconheci-me, muitas vezes, nestes poemas.

Obrigado ao Filipe Chinita, por este livro e pelo outro que também já saiu este ano: Cantata Pranto e Louvor em memória de Caravela e Casquinha, em co-autoria com Manuel Gusmão.

(para terminar gostava de apenas vos dizer que perdi o contacto com Filipe Jorge em 1980 e apenas voltamos a reencontra-nos este ano, na festa do avante.)