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30 abril 2011

nas ondas verdes do campo



ocupação de terras na herdade dos machados, moura, 1975




nas ondas verdes do campo

no vento que sopra

leve

bailando

nas abas das azinheiras

espalhando

o  perfume dos favais


sonho

com cantos alegres


vozes 

de mondadeiras

como papoilas

vermelhas

pelos campos

ondulando

no

verde

dos

trigais

18 fevereiro 2010

a terra devia ser de quem a trabalha

foi há 35 anos o início da reforma agrária. talvez a transformação revolucionária mais profunda de abril. primeira conferência dos trabalhadores agrícolas do sul. o avanço para as terras incultas. cumprindo-se um sonho antigo de séculos. inesperadamente real. a terra foi, por pouco tempo, de quem a trabalha. a terra devia ser sempre de quem a trabalha. se assim fosse o alentejo não teria donos, hoje. como deixou de ter há 35 anos. hoje o alentejo está igual ao que era antes da reforma agrária. quase todos tinham de lá fugido, daquelas terras amadas, ou malsoadas, que não davam trabalho nem pão. uns fugiram para um subúrbio, outros fugiram para uma frança qualquer. quem fará a nova reforma agrária que o alentejo tanto precisa. inexplicavelmente, ou não, a utopia resiste. não morreu. está viva nos corações que porfiam na luta contra a mentira, a injustiça, a miséria, a exploração. está viva nos rostos talhados na alegria do reencontro de hoje, em montemor-o-novo. de reencontros próximos. viva a reforma agrária!

03 fevereiro 2010

resposta de um capitão de abril Andrade da Silva


Cara Amiga

Obrigado. Andei por muitas terras, naturalmente estive perto de si, mas o problema das terras era comum a Pias e a outros lugares, mas o que me deu água pela barba foram os problemas dos lagares.

Amei Pias, como todo a Alentejo, as pessoas mexiam-se e as coisas aconteciam. Construia-se o Futuro e da minha parte nunca ao de leve passou qualquer divisão de partidos, para mim era a aliança pura do Movimento das Forças Armadas e o Povo, era a justiça em marcha, era a construção do Futuro, nunca pratiquei violência contra ninguém, mas nunca aceitei que alguém se pudesse deitar sem pão, só porque o lagar não funcionava, ou a terra não produzia, isto, nunca devia ter acontecido, e, então, depois de Abril era impensável e nunca comigo isso poderia ser tolerável.

Honro-me de ter evitado a violência, mas ter ajudado a crescer a alegria, e a fazer com que se pagasse milhares de contos em salários em atraso. Todos os latifundiários denunciados por essa prática cobarde, depois de muita resistência lá arranjaram os trocos para pagarem

Ao povo de Pias um grande abraço e para si.

01 fevereiro 2010

carta a um capitão de Abril












estimado capitão
Andrade da Silva

essas Pias que tão bem recorda e fala https://www.blogger.com/comment.g?blogID=4042488865759147347&postID=2782610039332118942 e aonde ainda é recordado por alguns, são as “minhas”. e as de Francisca, como disse o nosso amigo Carlos Domingos poeta do mundo, que tal como ela Francisca, foi um militante clandestino contra o fascismo de então e o de agora. essas Pias pertencem ao concelho de Serpa, mas já pertenceram ao de Moura antigamente. por isso aquela moda, natural de Pias: lá vai serpa, lá vai moura, e as pias ficam no meio, em chegando à minha terra, não há que ter “arreceio”. isto em boa pronúncia pieira, que é como deve ser cantado. pois eu recordo-me bem, quando o capitão, então alferes, Andrade da Silva lá andou. se não estou em erro, até esteve na ocupação da herdade da ínsua, perto da herdade do alvarrão. a ínsua fica na margem esquerda do Guadiana, já para os lados de Moura. eu também lá estava nesse dia, trabalhando. recordo-me de quando nos reunimos todos, sob a copa da azinheira, onde todos os dias descansávamos ao almoço. os militares, então muitos bonitos nas suas fardas, que já não representavam tristeza, barba escura e cerrada, negros e compridos os cabelos. soldados de arma ao ombro e revolução em riste! imagem mítica de guerrilheiros da Sierra Maestra, transposta para o Alentejo, vermelho de esperança. a esperança estava em todos os olhares e rostos e peitos e corações. e saía para o ar provocando explosões, de alegria. eu, rapariga nova (não o são todas as raparigas?) 16 anos! assistia a tudo, um pouco afastada, tal como as minhas companheiras, que ali estávamos todas juntas, separadas dos homens como era o hábito. não porque não quiséssemos estar lá junto deles, a ouvir todas as palavras e a guardá-las em nós. mas é que os homens, tão revolucionários eram e não nos queriam lá, perto deles. não nos deixavam chegar a certos sítios que julgam só deles, ainda hoje. mas nós é que já não somos raparigas novas, já nos passaram pela pele 35 anos. já não estamos para isso, apesar das tentativas que ainda hoje alguns fazem. são pequenas revoluções que temos de travar, todos os dias. mas essa seria outra conversa e não é chamada agora para aqui. pois eu e as minhas camaradas não ouvíamos todas as palavras. chegavam-nos algumas: revolução, exploração, a terra a quem a trabalha, viva a reforma agrária. mas no final ouvimos distintamente: viva o 25 de Abril! e todos e todas respondemos unissonamente: o povo unido jamais será vencido! esta é uma recordação, que eu não sei se é também do capitão, apesar de ser alferes então, se realmente lá esteve nesse dia ou não, mas ficou para sempre, guardada em meu coração.

25 de Abril sempre! fascismo é que nunca mais!