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29 janeiro 2010

vida



a vida. não sabemos o que é. de onde veio. como chegou. mas sabemos o que é a morte, não porque a sintamos no nosso corpo, porque quando tomar conta dele já nós não estaremos lá. conhecemo-la pela dor que nos provoca, quando nos leva alguém que fez parte de nós. pode ser um ser humano ou animal, que vem a dar no mesmo. há seres humanos que são animais, no sentido em que os consideramos irracionais, pela ausência de sentimentos humanos e há animais com sentimentos tão humanos que chegamos a duvidar que não sejam da nossa espécie. a vida, há uma altura em que deixa de fazer sentido. é quando o sofrimento provocado pela doença se torna tão insuportável, tanto para quem o sente no seu corpo, como para quem assiste a ele que, aí, é que uma parte de nós pensa que a vida já não é vida. e então devia haver um mecanismo que se desligasse, automaticamente, para nos poupar. mas não, não existe. e a vida continua a ser vida, o sol nasce todos os dias e todas as noites há estrelas no céu, mesmo quando não as vemos.

23 janeiro 2010

casa vazia
















a casa está vazia
fria
a lareira apagada
inchada
de silêncio
as cadeiras junto às paredes
encostadas
oferecem memórias vagas

numa gaveta
alguns objectos usados
uma carteira
uns brincos
sóis de trazer nas orelhas
pendurados

ali
a pequena navalha
preto o cabo
sempre a trazia
consigo
cortava vida
aos pedacinhos
pão e chouriço
pequenos os copos de vinho

sobre os móveis
molduras
felizes os rostos
a sorrir

o pó do tempo
tudo começa a cobrir

agora
quando volto
a casa
lugar que me viu nascer
é sempre assim
ninguém me espera
não há braços
para me receber

só o silêncio
lembranças
um certo jeito
de olhar
finissima agulha
no peito
a espetar