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11 julho 2012

eu nasci num castelo



monte da bolarina, pias


eu nasci num castelo

mas não sou uma princesa

amo o meu castelo

para mim é sempre belo


castelo de noites estreladas

calmosas

onde eu menina

sonhava

quando sobre a manta

me estendia

nas pedras mornas da rua

olhando os astros

e o espaço

e pedia

"ó pai conte lá

outra vez

o conto do homem na lua"

eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo


na rua do meu castelo

não há palácios nem princesas

e as pedras e as casas não têm idade

mas falam comigo

sinto-as macias

perderam a aspereza

ficaram lisas

doces


sabem

a saudade


o meu castelo...

como fica longe

mas para mim

está sempre perto

estou sempre a vê-lo



e o que digo é tão certo

que não tenho pena em dizê-lo

eu

 não sendo uma princesa

querendo

podia sê-lo

pois

eu

nasci num castelo

24 maio 2012

quando eu nasci






"quando eu nasci,
ficou tudo como estava..."
sebastião da gama


quase nasci debaixo de uma azinheira
numa segunda feira
quente como fornalha

quase em cama de palha

que  minha mãe
ceifeira de trigo
cortava
na herdade de belmeque
junto à serra da preguiça

em alentejo largo
de sol a sol
e castigo

no campo do latifúndio
abri os olhos

espantei-me com o mundo

levaram minha mãe
num burro
e
nasci em casa
na rua do castelo
hoje nº 12,
então não tinha número

naquela aldeia de pias
da vila de serpa
longe de tudo
era grande o mundo


eu nasci  e o meu pai estava preso
em caxias
por causa de maio

por causa de maio
antes daquele dia
o
primeiro,
vieram
muitas vezes 
buscá-lo

à noite 
atrás de grades
o meu pai 
trazia
no peito a dor
de um país sem liberdade



ainda nem me conhecia
e as saudades já 
que sentia

escrevia-as
nas cartas que alguém lia
e minha mãe  escutava 

e chorava


quando os seus olhos me viram
eu  sorria 
e já tinha meses


herdei de meu pai
essa dor 
e
ao longo da minha vida
a tenho sentido

ainda a  sinto 
muitas vezes 


nasci a 25 de maio de 1959

30 abril 2011

nas ondas verdes do campo



ocupação de terras na herdade dos machados, moura, 1975




nas ondas verdes do campo

no vento que sopra

leve

bailando

nas abas das azinheiras

espalhando

o  perfume dos favais


sonho

com cantos alegres


vozes 

de mondadeiras

como papoilas

vermelhas

pelos campos

ondulando

no

verde

dos

trigais

29 julho 2010

hoje a solidão


hoje a solidão

é branca

como a cal


rasa

como campa


é uma estrada aberta

na planície deserta

sem fim à vista


infinita


amanhã

sabe-se lá

a cor que terá

25 junho 2010

o rio da minha infância




























o rio que corre na minha aldeia já não é o mesmo. mas tem o mesmo nome, segue o mesmo curso e vai desaguar no mesmo exacto ponto da margem esquerda do guadiana. as suas águas antes corriam livres e hoje perdem-se no caminho, presas como ovelhas em apriscos, a que chamamos barragens. o nome do rio deram-lho os habitantes da minha aldeia. há tantos séculos que ninguém se lembra já do seu significado. vá-se lá saber o quer dizer enxoé. nas margens deste rio sonhavam os pescadores de ribeiras apanhar pardelhas nas suas nassas, aparelhos de pesca tão antigos como os homens, da minha aldeia. mas a minha aldeia também já não é a mesma. hoje a minha aldeia é uma vila e as ruas onde brinquei e corri,  cheias de gente rumorosa, estão agora povoadas de fantasmas, mulheres velhas e gastas pela ausência de maridos,  filhos e netos. as suas mãos vazias agitam lenços brancos, molhados de lembranças. a minha aldeia já viu partir tanta gente! acho que também o rio partiu. apenas a ponte persiste em ficar, presa ao tempo dos homens. talvez ela sonhe também em partir, em busca do rio da minha infância.

09 março 2010

o fim de semana... que passou


lindo! assim está o alentejo muito verdinho, como escreveu camões e cantou zeca afonso.  os campos rebinchando de água. é só regatinhos e ribeiras, tudo a correr, em fugas pequeninas, rápidas. águas clárinhas (uma outra entoação de cristalinas). o  guerreiro almansor, rio rei  maior de montemor, a transbordar. sempre mais largas as margens da constante mutação. ano de todas as águas. tanta chuva! até a estrada se torna perigosa. no mercado de évora já quase ninguém. o homem da água-mel já tinha tudo arrecadado, mas lá vendeu uma garrafinha. rábanos para comer com pão e azeitonas. com uma açorda é indispensável. tôrtas e popias. queijinhos do cano, oriola e até um de serpa de nome almocreva(!). no caminho o xarrama,  ainda junto à nascente já leva tudo à frente. toma caminho na senhora dos aflitos e segue solitário até se encontrar com o sado. a barragem do divor quase cheia.será desta!? à beira da estrada a primavera faz sorrisos em caternotas e pátinhas amarelas, entremeadas de saramagos brancos, mais umas cor-de-rosa, as cadeirinhas. ainda não há lírios por aqui. felizmente não havia água em casa. os telhados portaram-se bem. nem uma goteira. enquanto o almoço é preparado faz-se o lume, que a casa está fria. o quintal começa a ficar bonito. os bolbos nasceram todos. há muitos botões. aos primeiros raios de sol vão abrir em perfumes, goivos, jarros, jacintos, cravos. as leiras de coentros e espinafres aguentaram-se, não houve muitas geadas. espigos de couve com fartura. as roseiras, podadas em janeiro, rebentam com força. já o lume crepita e o cheiro do caldo de peixe com poejos inunda toda a casa. estava uma maravilha! especialidades do cozinheiro da casa.

27 novembro 2009

histórias de comboios. a primeira viagem


a primeira viagem foi com a tia mais nova, Benta de seu nome. gostava muito dela e o sentimento era mútuo. ainda não tinha 7 anos feitos. por causa da pouca idade e porque tinha passe do caminho de ferro, só pagava um quarto de bilhete. mas foi a tia quem pagou. o comboio partiu. deixou para trás a Caseta, passou na Zurreira, fez a curva na Trincheira e lá estava a mãe no Castelo, a acenar. não se importou. tudo era novidade. à janela a paisagem desfilava, rápida. ó tia o que é aquilo, não sei já passou. e agora? o comboio parou, já chegámos tia, ainda não. que terra é esta tia, é Beja. fica quietinha e dorme, não tenho sono. e agora o que é? é Alvito e Viana do Alentejo. e aquilo o que é tia? é uma cegonha, não é “ti” Benta! as cegonhas são aqueles pássaros que fazem ninhos no Torre do Relógio, mas esta é de tirar água. olhe tia, que estação tão bonita, é Casa Branca, não é a casa enflorada. deve ter sido a última estação que viu.

19 novembro 2009

retrato de família






nesta família faltam algumas pessoas

falta a mãe, não quis ficar sem o pai

o pai está preso, em caxias, e não dorme. não o deixam

falta o irmão mais velho, teve de ir trabalhar para bombel,

muito longe de casa, perto de vendas novas

e falta o mais novo.

só há-de nascer no ano seguinte.