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24 novembro 2012
11 julho 2012
eu nasci num castelo
monte da bolarina, pias
eu nasci num castelo
mas não sou uma princesa
amo o meu castelo
para mim é sempre belo
castelo de noites estreladas
calmosas
onde eu menina
sonhava
quando sobre a manta
me estendia
nas pedras mornas da rua
olhando os astros
e o espaço
e pedia
"ó pai conte lá
outra vez
o conto do homem na lua"
eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo
castelo de noites estreladas
calmosas
onde eu menina
sonhava
quando sobre a manta
me estendia
nas pedras mornas da rua
olhando os astros
e o espaço
e pedia
"ó pai conte lá
outra vez
o conto do homem na lua"
eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo
na rua do meu castelo
não há palácios nem princesas
e as pedras e as casas não têm idade
mas falam comigo
sinto-as macias
perderam a aspereza
ficaram lisas
doces
sabem
o meu castelo...
como fica longe
mas para mim
está sempre perto
mas para mim
está sempre perto
estou sempre a vê-lo
e o que digo é tão certo
que não tenho pena em dizê-lo
eu
não sendo uma princesa
querendo
podia sê-lo
pois
eu
eu
nasci num castelo
24 maio 2012
quando eu nasci
"quando eu nasci,
ficou tudo como estava..."
sebastião da gama
quase nasci debaixo de uma azinheira
numa segunda feira
quente como fornalha
quase em cama de palha
que minha mãe
ceifeira de trigo
cortava
na herdade de belmeque
junto à serra da preguiça
em alentejo largo
de sol a sol
e castigo
no campo do latifúndio
abri os olhos
espantei-me com o mundo
levaram minha mãe
num burro
e
nasci em casa
num burro
e
nasci em casa
na rua do castelo
hoje nº 12,
então não tinha número
naquela aldeia de pias
da vila de serpa
longe de tudo
era grande o mundo
eu nasci e o meu pai estava preso
em caxias
por causa de maio
por causa de maio
antes daquele dia
o
primeiro,
vieram
muitas vezes
buscá-lo
à noite
atrás de grades
o meu pai
trazia
no peito a dor
de um país sem liberdade
ainda nem me conhecia
e as saudades já
que sentia
escrevia-as
nas cartas que alguém lia
e minha mãe escutava
e chorava
quando os seus olhos me viram
eu
sorria
e já tinha meses
herdei de meu pai
essa dor
e
ao longo da minha vida
a tenho sentido
ainda a sinto
muitas vezes
nasci a 25 de maio de 1959
30 abril 2011
29 julho 2010
25 junho 2010
o rio da minha infância
o rio que corre na minha aldeia já não é o mesmo. mas tem o mesmo nome, segue o mesmo curso e vai desaguar no mesmo exacto ponto da margem esquerda do guadiana. as suas águas antes corriam livres e hoje perdem-se no caminho, presas como ovelhas em apriscos, a que chamamos barragens. o nome do rio deram-lho os habitantes da minha aldeia. há tantos séculos que ninguém se lembra já do seu significado. vá-se lá saber o quer dizer enxoé. nas margens deste rio sonhavam os pescadores de ribeiras apanhar pardelhas nas suas nassas, aparelhos de pesca tão antigos como os homens, da minha aldeia. mas a minha aldeia também já não é a mesma. hoje a minha aldeia é uma vila e as ruas onde brinquei e corri, cheias de gente rumorosa, estão agora povoadas de fantasmas, mulheres velhas e gastas pela ausência de maridos, filhos e netos. as suas mãos vazias agitam lenços brancos, molhados de lembranças. a minha aldeia já viu partir tanta gente! acho que também o rio partiu. apenas a ponte persiste em ficar, presa ao tempo dos homens. talvez ela sonhe também em partir, em busca do rio da minha infância.
09 março 2010
o fim de semana... que passou
lindo! assim está o alentejo muito verdinho, como escreveu camões e cantou zeca afonso. os campos rebinchando de água. é só regatinhos e ribeiras, tudo a correr, em fugas pequeninas, rápidas. águas clárinhas (uma outra entoação de cristalinas). o guerreiro almansor, rio rei maior de montemor, a transbordar. sempre mais largas as margens da constante mutação. ano de todas as águas. tanta chuva! até a estrada se torna perigosa. no mercado de évora já quase ninguém. o homem da água-mel já tinha tudo arrecadado, mas lá vendeu uma garrafinha. rábanos para comer com pão e azeitonas. com uma açorda é indispensável. tôrtas e popias. queijinhos do cano, oriola e até um de serpa de nome almocreva(!). no caminho o xarrama, ainda junto à nascente já leva tudo à frente. toma caminho na senhora dos aflitos e segue solitário até se encontrar com o sado. a barragem do divor quase cheia.será desta!? à beira da estrada a primavera faz sorrisos em caternotas e pátinhas amarelas, entremeadas de saramagos brancos, mais umas cor-de-rosa, as cadeirinhas. ainda não há lírios por aqui. felizmente não havia água em casa. os telhados portaram-se bem. nem uma goteira. enquanto o almoço é preparado faz-se o lume, que a casa está fria. o quintal começa a ficar bonito. os bolbos nasceram todos. há muitos botões. aos primeiros raios de sol vão abrir em perfumes, goivos, jarros, jacintos, cravos. as leiras de coentros e espinafres aguentaram-se, não houve muitas geadas. espigos de couve com fartura. as roseiras, podadas em janeiro, rebentam com força. já o lume crepita e o cheiro do caldo de peixe com poejos inunda toda a casa. estava uma maravilha! especialidades do cozinheiro da casa.
27 novembro 2009
histórias de comboios. a primeira viagem
a primeira viagem foi com a tia mais nova, Benta de seu nome. gostava muito dela e o sentimento era mútuo. ainda não tinha 7 anos feitos. por causa da pouca idade e porque tinha passe do caminho de ferro, só pagava um quarto de bilhete. mas foi a tia quem pagou. o comboio partiu. deixou para trás a Caseta, passou na Zurreira, fez a curva na Trincheira e lá estava a mãe no Castelo, a acenar. não se importou. tudo era novidade. à janela a paisagem desfilava, rápida. ó tia o que é aquilo, não sei já passou. e agora? o comboio parou, já chegámos tia, ainda não. que terra é esta tia, é Beja. fica quietinha e dorme, não tenho sono. e agora o que é? é Alvito e Viana do Alentejo. e aquilo o que é tia? é uma cegonha, não é “ti” Benta! as cegonhas são aqueles pássaros que fazem ninhos no Torre do Relógio, mas esta é de tirar água. olhe tia, que estação tão bonita, é Casa Branca, não é a casa enflorada. deve ter sido a última estação que viu.
19 novembro 2009
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