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16 julho 2010

aquela cidade II












































é estranha aquela cidade

ali correm rios de petróleo
petróleo nos táxis amarelos, aos milhares
petróleo nos camiões ruidosos, dia e noite, percorrendo a cidade
petróleo nas ruas de alcatrão
petróleo nas pastilhas elásticas pisadas nos passeios
petróleo nos plásticos dos talheres e nos pratos dos restaurantes de fast food
petróleo no ar condicionado do quarto de hotel
petróleo nas lojas para onde fugimos dos 42 graus celsius que abrasam a cidade
petróleo em milhões de luzes de janelas, nos escritórios vazios à noite

naquela cidade respira-se petróleo

aquela cidade quase sucumbe às toneladas de lixo em sacos de plástico preto
e ao fedor que deles emana aescorrer pelos passeios

aquela cidade é mesmo estranha

naquela cidade busquei a poesia
e não descobri gaivotas

os arquitectos daquela cidade esqueceram-se das praças
da arte pública
das fontes
dos jardins
e dos canteiros com flores

naquela cidade não há gaivotas

naquela cidade estranha eu não poderia viver

aquela cidade é nova york

10 julho 2010

aquela cidade























naquela cidade as casas nasceram da terra
como as árvores


e subiram no céu




aquela cidade é uma floresta
selvagem
mas sem árvores
apenas casas

casas gigantes
ferozes
hostis
ocupando a floresta antiga



aquelas casas expulsaram os homens
e agora vivem ali
como se fossem homens

casas
que na noite
parecem vazias
com milhões olhos
luzes
vigiando os homens
e o mundo

os índios
habitantes daquela cidade
foram expulsos

chegaram outros
homens
construiram um muro
naquela rua
e naquela lingua
chamaram-lhe wall street

dali
da rua do muro
daquela cidade
as casas
belas
e desumanas
governam o mundo
dos homens

como se fossem homens

aquela cidade é nova york