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07 novembro 2012

rio de brisas azuis


rio de brisas
azuis
corres nas minhas veias

fluis
em palavras 
emprestadas
ditas por outros
antes de mim

rio
o teu nome
tejo

eu te reconheço
como se foras meu berço

nomes,
outros,
te deram

seres que
já humanos
assim
se alevantaram

e um dia
em seu olhar
te abarcaram

abraçaram

na voragem destes dias
de raiva
contida

rio
 da minha vida

só tu me dás paz 

04 outubro 2012

segredos que digo ao tejo



tejo meu
em ti 
eu sou mais eu

sou água
pão e planície

tejo
rio
em que a toda a hora
me vou
me deslumbro
sinto
e descubro

rio
da minha vida
sempre novo
rio
sem idade

tejo
é como se eu
pressentisse
um segredo
que
nunca te disse

és minha líquida planície

minha livre liberdade


tejo
em ti 
eu sou
mais eu

sou
mais alentejo

07 setembro 2012

onde está a poesia




hoje a poesia 
está apenas no meu olhar

e naquele recanto do jardim
nas raízes daquela árvore exótica

nos olhos do cão vadio

naquele grupo de operários
que chegam do velho porto da cuf
para o seu café de camaradas

nos guindastes
nas altas chaminés
nos castelos de betão

castelos industriais
esses são
os verdadeiros castelos do barreiro

nos barcos dos pescadores

na névoa que envolve o rio

nas velas brancas de um veleiro

naquela velha mulher
do barreiro
que como se no alentejo
ainda
varre a rua à sua porta
todos os dias

naquele grafiti
que incita
questiona tudo

nas velhas casas
ora alegres
do bairro operário

na saudação do jardineiro

no relógio
que da sua torre
me diz
são horas do almoço

no meu olhar
e no teu olhar

afinal
a poesia 
anda no ar
livre
nas asas de uma gaivota

03 setembro 2012

crónica de uma manhã



de saída para o trabalho. hoje vai estar mais um dia de grande calor. lá terei de levar o meu chapéu branco...
antes passo pela avenida da praia.
que belo dia! que bela, a vida. e este rio que não me cansa, hoje um tudo nada agitado, em cintilações de aragem fresca, que me arrepiam os braços. a serra de sintra, no seu azul de lonjura. não há mariscadores hoje. ainda há dias eram às dezenas, na apanha da amêijoa que, ressurge com fartura. cópia de mariscos e toda a sorte de peixe, como escreviam no século xvi, a propósito da grande riqueza deste este rio.  parece que teima em recuperar a sua saúde, este rio milenar. a natureza faz tudo por nós. e veja-se como lhe retribuímos…
nesta alameda, belíssima alameda! que recorda bento gonçalves, líder comunista a quem foi tirada a vida no campo de concentração do tarrafal, admiro eu lisboa e a vida. que privilégio poder aqui estar, viva!



sobre lisboa levantam e aterram aviões, num constante vai-e-vem. lá vai a easy jet, é a que passa mais vezes, consigo vislumbrar-lhe as cores e logo o pensamento voa,  à velocidade da luz, um dia destes lá vamos, outra vez. a caminho de lausanne.
pela alameda  caminheiros matinais,   homens e mulheres. tudo malta de meia idade, já. desfrutando, enquanto podem. 
um bando de gaivotas mais à frente, em disputa. e eu tenho de me desviar, ou apertar o nariz. porra! porque é que a estação de tratamento, já construída! nunca mais entra em funcionamento?! porque é que continua a despejar a merda todos os dias, em dois sítios! da muralha!? quando isto acabar acho que merece fogo de artifício. isso sim é um benefício. isso é que será qualidade de vida. lá tinha que vir esta referência comezinha, estragar esta minha crónica tão bonita, do quotidiano. mas já deixei a merda pra trás e aqui vou, fazendo mais umas fotos do rio, já lhe perdi a conta. eu devia era ter sido fotógrafa. 
pela avenida encontro muitos jovens, de exótica beleza! estes rapazes e raparigas angolanos, na frescura da mocidade com que enchem as ruas do barreiro de algazarra alegre
(ó pá tu toma cuidado com elas. elas são gatunas di homens! dizia um deles).



já conquistaram todo o bairro operário e continuam a tomar as tantas casas vazias que aí estão, por esse barreiro. muitos dos seus filhos têm de o deixar, por força da desgraça em que este país se vai afundando.
e chego ao bairro. e aqui está, à minha espera josé antónio marques e os seus mil caderninhos, manuscritos. hei-de me reformar e não acabo a leitura de tudo o que este homem escreveu. escrevia em todos os pedacinhos de papel que apanhava à mão. impressionante! e ainda os passava a limpo. ele queria mesmo que alguém lesse, tomasse conhecimento do que ele deixou, viveu. que grande cronista, ignorado que foi este operário, homem ferroviário, poeta do quotidiano, escritor, jornalista. que riqueza de informação nos deixou. não me cansarei de o divulgar em todos os forúns científicos.
cheguei ao arquivo. talvez à hora de almoço passe tudo para o computador, se não me esquecer de metade...

27 junho 2012

lisboa de ponte a ponte




da serra do louro
quanto pode a vista alcançar...
entre o sado e o tejo
todo o mundo é meu


à bolina no mar da palha,
aproveitando, o vento e a maré
vogam velas do barreiro


apenas em dias escuros
a luz incide, directa
na silhueta da ponte


eu, aqui de longe, tento capturá-la
e sem querer, a este pombo,
 ligeiro,
que aqui ficou prisioneiro


dias e dias de calmaria
lisboa de cores mil
hoje o tejo é de prata


na colina do castelo...
será que apenas eu consigo vê-lo?


mais belo, ainda, ao entardecer



na baixa-mar o tejo desvenda-se
em "ilhas afortunadas"


terreiro dos  passos  mil


tejo de seda
tejo veloz
deslizando
a caminho da foz


"o que importa é partir"


uma ponte no coração
com nome de revolução

vista daqui, lisboa começa em almada
e o tejo
é um pego largo
de águas mansas



a ponte espreita
sobre a língua de areia, estreita
na maré cheia de alburrica

10 janeiro 2012

anoitecer





é sempre bela

e única

a luz do anoitecer


seja em alqueva,




monsaraz,





alcochete,





no cabo espichel,





na bela arrábida,






 nos confins

do alentejo

em lucefecit,






no barreiro,




ou num outro sítio 

qualquer



03 dezembro 2011

finisterra


  fim de tarde

de um tempo qualquer


 finos véus

leves
suaves

quase

ocultam a cidade

desvenda-se o rio

em largo oceano

no olhar que se perde

quase melancolia

quase saudade



a  noite

 vem chegando

adejando

nas asas de uma gaivota


perde-se o dia

e em sombras e luz

a noite erra

aqui

onde estou

(apenas eu sei)

é finisterra

26 fevereiro 2011

hoje o rio é uma brisa azul



hoje


o rio é uma brisa

azul






como um olhar



que fosse uma praia
que se espraia


na maré cheia







ou no vento


que sopra do sul





mas
a calma no rio
é apenas aparente




permanente
é o ir e vir
das ondas sobre a areia

agitando as águas
levemente




o rio


como a vida

passa veloz

por nós

como os pensamentos


ou o vento




registo a frase

escrita na muralha

por mão grafiter

tudo o que vem, vai

mas nem tudo o que vai, volta