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27 março 2013

tempo de grândolas


com o céu a querer desabar-nos em cima, escondendo a serra d'ossa atrás de espessas cortinas de água, olhávamos, ao fundo, a vila do redondo, enquanto esperávamos que o tempo e a chuva se afastassem para longe, pela planície amiga. talvez a caminho das terras dos sacaios, que fazem uns paios com excelente sabor, à antiga.  

deixámos a estrada e ali, debaixo daquela azinheira, companheira solidária de mais uma jornada, pensámos neste tempo de grândolas. pensámos em chipre. e no mais que se segue. e quem se segue agora. agora que perderam o rebuço e mostraram mais uma vez, a face. e chipre é apenas o início.
esta é a face de uma certa europa, capitalista, pró fascista, que começa a agigantar-se sobre os povos mais fracos e a preparar a bota nazi.

por muito menos se fizeram revoluções. 
porque não se unem os povos explorados para acabar com o sistema capitalista?
porque é que continuamos à espera que a solução exista dentro deste sistema, se ele está contaminado pelo poder do capitalismo internacional?
quando é que surge um novo lénine, para guiar os povos, rumo a tempos novos?

11 março 2013

uma luz que se apagou



quando os campos  começam a tingir-se de cores, atapetados por uma erva vermelha, que cresce rasteira nos montados...

quando afago o tronco, rude, das azinheiras e o sinto macio, coberto de musgo

quando uma brisa que busco, me transporta pelo campo aberto
à planície dos odores  intensos da tremocilha...

quando oiço o cuco cantar e é já primavera... ainda que o calendário diga o contrário...

quando por todo o lado a vida fervilha....

ainda assim, a morte me surpreende.
consegue sempre surpreender-nos, a morte,  levando aqueles que,  mesmo já o sabendo nós,  partiriam antes...  nunca a esperamos.
e é sempre surpeendente.
apanha-nos inocentes e desprevenidos.

e pensamos
um dia também o meu corpo partirá
e o meu ser deixará
de ser
e deixarei de saber
que a primavera chegou
qual o cheiro da terra lavrada
porque cantam as rolas em revoada
um certo voar da arvéola, ao fazer o ninho
como corre, assim ligeiro, aquele barranquinho
que uma trovoada súbita inundou

e o meu corpo será nada
nem já pó restará dele

talvez apenas, e tão só, uma lembrança
que trago colada à pele
do que fui
do que ainda sou

mas depois e depois...
nada

que sei eu, de quem, há mil anos por aqui andou

talvez reste de mim
uma luz que se apagou

24 janeiro 2013

o tempo. revisitado


sob a terra húmida
no recorte
em camadas de tempo
as marcas

breves
fugidias
à espera de ser encontradas

quem as deixou não sonhava
ou sequer imaginou
o que elas representavam
para quem as encontrou

pedras
muros
casas
oficinas

que histórias abrigam essas paredes
quantos abraços 
mãos que se tocaram

os carinhos e os afagos
trocados
entre o dono e o pequeno cão
sepultado com cuidado

marcas
civilização
distantes

tempo terrível
(e hoje não é?)

mais de dois mil anos
naquele pedacinho de terra
lavrada
semeada
onde já cresceram searas

nesse bocado de terra
sucessivamente ocupado
vivido
por eles
por nós
homens
mulheres

diferentes os tempos
quase o mesmo modo de pensar

ainda agora
será a terra que o condiciona, ao modo de pensar?

quem o saberá?
aqui neste presente passado
encontrei-me com essas marcas
ou elas encontraram-se em mim

28 novembro 2012

lembrança




fui essa que nas ruas esmolou 
e fui a que habitou paços reais; 
no mármore de curvas ogivais 

fui essa que as mãos pálidas poisou..



tanto poeta em versos me cantou! 
fiei o linho à porta dos casais... 
fui descobrir a índia e nunca mais 
voltei! fui essa nau que não voltou... 

tenho o perfil moreno, lusitano, 
e os olhos verdes, cor do verde oceano, 
sereia que nasceu de navegantes... 

tudo em cinzentas brumas se dilui... 
ah, quem me dera ser essas que eu fui, 
as que me lembro de ter sido... dantes!... 

florbela espanca, 
"charneca em flor"

25 outubro 2012

as mulheres não sabem




na planície ondulante

sopra um vento escaldante

o vento suão

e as mulheres não sabem

que nome dar

ao sentimento vago

que veio do mar

que lhe vagueia

na alma

e as almareia

as mulheres não sabem

os afagos

que guardam nas mãos

os mil sossegos

que lhe bailam nos dedos

com que alisam os medos

as mulheres não sabem

que os seus olhos cintilam

em lagos de mansidão

quando fundas

nas noites escuras

se dão


as mulheres só sabem

que esse quente vento

sufocante

suão

tem outros nomes

só elas sabem

as mulheres

que nomes

são

08 outubro 2012

espero as águas e a semente



lado a lado
deitados
os nossos corpos 
alados

nús
sobre a terra
somos
 quase nada

entre nós apenas o desejo
erra

ficamos aqui
à espera

da noite estrelada

sou terra
lavras o meu ventre

espero as águas
e a semente

04 outubro 2012

segredos que digo ao tejo



tejo meu
em ti 
eu sou mais eu

sou água
pão e planície

tejo
rio
em que a toda a hora
me vou
me deslumbro
sinto
e descubro

rio
da minha vida
sempre novo
rio
sem idade

tejo
é como se eu
pressentisse
um segredo
que
nunca te disse

és minha líquida planície

minha livre liberdade


tejo
em ti 
eu sou
mais eu

sou
mais alentejo

24 agosto 2012

estórias do latifúndio. pias, baixo alentejo


como era difícil a vida nas aldeias do latifúndio! tudo era difícil. para as crianças ainda mais. tinhamos de crescer depressa. e crescíamos.  a aprendizagem da vida começava muito cedo. ficava-se adulto, independentemente da idade, quando se começava a trabalhar. e nunca mais se parava.

recordo-me agora,  nem sei porquê, quando ía-mos ao poço, buscar "água de beber", em cântaros de barro e enfusas, à cabeça.  como custava, e pesava! um cântaro cheio de àgua.
ao fim da tarde, no verão, pela fresquinha lá íamos, mulheres, mães e raparigas, pela linha do comboio, ao poço do estrela. ficava a mais de um quilómetro de distância, mas a água era muito azul e fresca. custava 7 tostões, o cântaro, se não estou em erro. depois era ver,  e aprender, a arte e a elegância de colocar sobre a cabeça a enfusa, de modo a não  cair e partir-se.  autênticos malabarismos e «fenezas», que é outra maneira de dizer proezas.

equilíbrios de mulheres e meninas
bailarinas
jogos e movimentos
flutuantes
balançados

as pernas elevam o corpo
nas ancas o jeito cadenciado
articulado
com a firme haste
do pescoço

na cabeça
coroada
das raparigas
bem levantadas
vão ideias difusas
em barro fresco
no vermelho das enfusas
águas e vida
vidas

direitas que nem um fuso, assim deveríamos chegar à rua do castelo, ao chiadinho, ou ao caganito, cabeças e pescoços dormentes. 
já a "água de gastar" ía-se buscar ao poço do comboio. chamava-se assim porque era junto à linha férrea, local onde os comboios a vapor paravam para tomar água. íamos às escondidas, sob a cumplicidade da velha georgina, guarda da passagem de nível. a cp não permitia. a água deste poço não prestava para beber, apesar de ser das mais frescas. servia apenas para os usos da casa. já de lá tinham tirado alguns afogados. lembro-me do caso de uma rapariga de 20 anos, "deixada" do namorado.

até parece que foi há séculos... e no entanto... isto eram os anos 60.

as estórias do latifúndio são assim, não têm fim. surgem,  sem quê nem porquê... 

19 agosto 2012

estórias do latifúndio. torre vã



por alentejos ignorados e desconhecidos chega-se à aldeia de torre vã, concelho de ourique. que nome  estranho. como se pode erguer uma torre vã!? será o vento que a sustenta? será o esforço humano que a suporta? esta herdade/aldeia, quem sabe com origem medieval, dado o topónimo torre (defesa), parece ter tido origem numa grande propriedade senhorial mas, o que lê o nosso olhar é, que esta aldeia do latifúndio foi criada para servir, a uma grande casa agrária que vivia alcandorada no seu trabalho e  na exploração de gerações e gerações de famílias rurais.


um grande palácio, domina tudo em redor, e apesar do abandono em que parece estar, e várias dependências, sugere que naquela propriedade viviam os senhores do privilégio. junto a uma ribeira, de que não consegui saber o nome, havia uma casa de fresco, de azul pintada, por dentro e por fora anilada, rodeada de arvoredo. nas margens dessa ribeira crescem, faias e freixos. dentro da casa, adivinha-se, viviam os senhores como altos seres marinhos, claros e arrogantes.




nas cercanias do palácio, em pequenos casebres habitavam homens e mulheres, de pele escura, negros de tanto trabalho. como formigas em carreiro, regavam com gotas do próprio rosto, os canteiros do jardim, a horta, o pomar, as searas, o olival. trabalhavam no sol a sol, de dia. de noite a aldeia velava. assim, que nada faltava aos senhores do privilégio. a aldeia trabalhava, trabalhava, mas o trabalho nunca chegava. a aldeia vivia aprisionada nos muros do latifúndio. 


até que um dia rebentou a revolução. e os homens e as mulheres e as crianças e os jovens da aldeia vestiram-se dos sentimentos mais puros, rasgaram os muros e a servidão e ergueram a bandeira da coragem e firmes, e rijos, mudaram o mundo e criaram futuros. e os senhores do privilégio rastejaram, para o brasil e para a suiça e outros esconderijos. por uns tempos acabou o mal e reinou a festa universal, a fraternidade e a liberdade. mas o sonho na aldeia durou pouco - duram pouco os sonhos dos pobres - foi breve, deu em nada. e pouco a pouco os senhores do privilégio voltaram. e lá estão de novo, no palácio. hoje a aldeia voltou a ser murada.

rc

11 julho 2012

eu nasci num castelo



monte da bolarina, pias


eu nasci num castelo

mas não sou uma princesa

amo o meu castelo

para mim é sempre belo


castelo de noites estreladas

calmosas

onde eu menina

sonhava

quando sobre a manta

me estendia

nas pedras mornas da rua

olhando os astros

e o espaço

e pedia

"ó pai conte lá

outra vez

o conto do homem na lua"

eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo


na rua do meu castelo

não há palácios nem princesas

e as pedras e as casas não têm idade

mas falam comigo

sinto-as macias

perderam a aspereza

ficaram lisas

doces


sabem

a saudade


o meu castelo...

como fica longe

mas para mim

está sempre perto

estou sempre a vê-lo



e o que digo é tão certo

que não tenho pena em dizê-lo

eu

 não sendo uma princesa

querendo

podia sê-lo

pois

eu

nasci num castelo

02 julho 2012

muito à frente no tempo


ontem, quando passava na autoestrada do sul a caminho do barreiro, avistei ao longe a igreja de messejana. 

do alto do seu cabeço, dominando várias légua em redor brilhava, branca de cal, recortada na paisagem
ondulante e azul do calor.

lembrei-me daquela história antiiiiga!, que se contava e muito arreliava os amigos de messejana. era o caso 

da praia. os de messejana desejavam fazer da sua ribeira uma praia.

pudera! com os calores que ali fazem, esturricando tudo....mas não os sonhos. 

com a história da praia tornaram-se alvo de chacota durante várias gerações.

actualmente é coisa comum fazerem-se praias aqui ou ali e hoje ninguém acharia disparatada a ideia.

a verdade é que esta história só demonstra como o povo de messejana estava muito à frente do seu tempo.

ainda hoje não têm praia, mas aquilo que eles sonharam, outros o fizeram.

diz miguel torga que o que importa é partir. pois neste caso o que importa mesmo, é o sonho. e não desistir dele. 

quem sabe um dia ...

enquanto não têm a sua praia eu ofereço-lhes esta, que trouxe especialmente do algarve para eles.


20 junho 2012

alentejanos em extinção


mondadeiras, dórdio gomes, 1932


o passos coelho quer acabar com as maternidades das cidades de beja, évora e portalegre

... que não nascem crianças suficientes para as manter em funcionamento!!!

mas agora até as maternidades  têm que dar lucro!!

... e as escolas!?

e os serviços de saúde!?...

e os correios!?...

 e as juntas de freguesia!?...

etc., etc., etc.,

se já são poucas as crianças que nascem no alentejo

 cada vez serão ainda menos

pois têm de ir nascer... 

sabe-se lá aonde...


por este andar,
 os alentejanos vão desaparecer do mapa

24 maio 2012

quando eu nasci






"quando eu nasci,
ficou tudo como estava..."
sebastião da gama


quase nasci debaixo de uma azinheira
numa segunda feira
quente como fornalha

quase em cama de palha

que  minha mãe
ceifeira de trigo
cortava
na herdade de belmeque
junto à serra da preguiça

em alentejo largo
de sol a sol
e castigo

no campo do latifúndio
abri os olhos

espantei-me com o mundo

levaram minha mãe
num burro
e
nasci em casa
na rua do castelo
hoje nº 12,
então não tinha número

naquela aldeia de pias
da vila de serpa
longe de tudo
era grande o mundo


eu nasci  e o meu pai estava preso
em caxias
por causa de maio

por causa de maio
antes daquele dia
o
primeiro,
vieram
muitas vezes 
buscá-lo

à noite 
atrás de grades
o meu pai 
trazia
no peito a dor
de um país sem liberdade



ainda nem me conhecia
e as saudades já 
que sentia

escrevia-as
nas cartas que alguém lia
e minha mãe  escutava 

e chorava


quando os seus olhos me viram
eu  sorria 
e já tinha meses


herdei de meu pai
essa dor 
e
ao longo da minha vida
a tenho sentido

ainda a  sinto 
muitas vezes 


nasci a 25 de maio de 1959

30 março 2012

gente do sul




hoje
o vento sopra
do sul

com ele chegam brados
cantados

as nuvens andam no ar
arrastadas pelo vento
foram buscar água ao mar
pra regar em todo o tempo

este vento
não é o suão

quente
fornalha
de verão

este vento
sopra
no pensamento

baloiça
nas altas
esguias
árvores
 magoadas

sem folhas

vazias

o vento
que sopra do sul
não consegue calar
o tempo


nas altas
esguias
magoadas
árvores
de folhas
vazias
pousam
vozes

como aves

falas antigas
 suaves

contam histórias de fadigas

falam de gente

gente chegando
do sul

de passo lento
cadente
cantado
às vezes contente

gente que chegou
sem nada

gente
só com braços de gente


gente

deixou a planície
com a claridade no olhar
com a cidade na mente

esta gente
veio
e fez-se à cidade

fez-se ao barreiro

esta gente
 rima
com saudade


rio de gente
mar de gente 
gente na margem
sul
do tempo

gente do sul
gente do vento
gente que se sente
 ser boa-gente

gente boa
partiu pra lisboa

e com a sua voz dolente
canta

uma saudade de quem  se sente
ausente
do seu chão
da sua gente


gente que tem na alma
a calma

e o vento
que sempre sopra do sul
urgente

do sul

04 fevereiro 2012

minha terra, de florbela espanca










ó minha terra na planície rasa,
branca de sol e cal e de luar,
minha terra que nunca viu o mar
onde tenho o meu pão e a minha casa...


minha terra de tardes sem uma aza
sem um bater de folha... a dormitar...
meu anel de rubis a flamejar,
minha terra mourisca a arder em brasa!

minha terra onde meu irmão nasceu...
aonde a mãe que eu tive e que morreu,
foi moça e loira, amou e foi amada...

truz...truz...truz... eu não tenho onde me acoite,
sou um pobre de longe, é quasi noite...
terra, quero dormir...dá-me pousada!



soneto de florbela espanca, manuscrito de que vi uma cópia,
não sei se editado, dedicado a um seu amigo do barreiro

10 janeiro 2012

anoitecer





é sempre bela

e única

a luz do anoitecer


seja em alqueva,




monsaraz,





alcochete,





no cabo espichel,





na bela arrábida,






 nos confins

do alentejo

em lucefecit,






no barreiro,




ou num outro sítio 

qualquer



15 dezembro 2011

olivais velhos de moura


olivais velhos de moura

velhas oliveiras que alumiaram moura

com mil candeias


oliveiras de paz

árvores de luz

encontrei-vos

na poesia de um pátio andaluz


pelos olivais

que cercam moura

salúquia

ainda vagueia


e o seu olhar

doce como o azeite

é o de tantas
mouras

de negros olhos

como a negra noite


noites e noites a fio


em desafio

ou deleite

assomadas

em seu castelo

das ameias soltam sonhos

feitos estrelas


que brilham no céu

tão imenso

ou tão belo

como elas


e quando raiam as madrugadas

ei-las

que sem pressas

abalam


embaladas

num apelo


e não sei se elas

ou eu

05 setembro 2011

retratos de portugal



monte da capela, pias, baixo alentejo, 2011


cada vez mais actual o texto de saramago


Privado

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e

o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa,

privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E

finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os

Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas

privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação

do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»


José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148

20 julho 2011

manhã quase




na manhã quente

o cheiro da palha

quase se toca

e sente

entra pelas narinas


não é o restolho

as hastes 

de  sementes

é apenas erva
seca


a seara

  ausente

     faz ondular a campina


na manhã quente

quase a empurrar a porta

a entrar na casa

escura


quase

a sentir 

as paredes caiadas

a exalar frescura

o salitre
 
a desfazer-se

numa  lembrança

quase morta


se abrisse a porta

 fechada

sentia

a casa vazia

lá dentro o nada


mas fico à entrada


busco na parede anilada

a luz que ilumina o dia


o presságio voa

na brisa

quase me arrepia


poema a partir da leitura do livro de josé luis peixoto uma casa na escuridão