23 janeiro 2010

casa vazia
















a casa está vazia
fria
a lareira apagada
inchada
de silêncio
as cadeiras junto às paredes
encostadas
oferecem memórias vagas

numa gaveta
alguns objectos usados
uma carteira
uns brincos
sóis de trazer nas orelhas
pendurados

ali
a pequena navalha
preto o cabo
sempre a trazia
consigo
cortava vida
aos pedacinhos
pão e chouriço
pequenos os copos de vinho

sobre os móveis
molduras
felizes os rostos
a sorrir

o pó do tempo
tudo começa a cobrir

agora
quando volto
a casa
lugar que me viu nascer
é sempre assim
ninguém me espera
não há braços
para me receber

só o silêncio
lembranças
um certo jeito
de olhar
finissima agulha
no peito
a espetar

6 comentários:

Anónimo disse...

Quando os vemos partir, e regressamos aos seus sítios,constatamos que a sua ausência é definitiva,e sentimos que a sua partida é um passo em frente para a nossa própria partida, e que de cada vez que perdemos alguém, morremos também, um bocadinho.
Dulce

Carlos Domingos disse...

SOBRE O POEMA "CASA VAZIA"
Coloco-o entre os poemas mais belos e sentidos que tenho lido ultimamente.
Li-o em conjunto com a Francisca. Ela chorou.
Um grande beijo
Carlos

sou azinheira disse...

à dulce
eles partem mas nós, que cá ficamos, temos de prosseguir. são as suas memórias que em certos dias nos dão a força, para continuar

ao carlos
obrigado pela generosidade
à francisca obrigado também pelas lágrimas

Marília Gonçalves disse...

Amigas, Amigos

As partidas são sempre dolorosas, principalmente se definitivas.
Outras hà, a dos que partiram em busca de mais vida, de ar e futuro.
Malditos sejam os que nos desgovernaram e desgovernam Portugal, obrigando-os a partir, entre prantos dos que ficam e dos que partem.
Sem deixar de referir todos os que durante o salazarismo/caetanismo para fugirem ou negarem a guerra colonial, deixaram levando os seus atrás para as terras estranhas, esvaziando aldeias, populações, e destruindo a alegria dum povo no seu solo e na língua em que nasceu!
com o meu abraço de Abril
Marília Gonçalves

sou azinheira disse...

abraço solidário Marília

Marília Gonçalves disse...

Anda sozinha
quem o diria
a avózinha pelo meio-dia
vai para a horta
vai ou não vai
curvada e torta
como seu pai...
tomou-lhe o jeito
a posição
vergou-lhe o peito
de arar o chão...


Marília Gonçalves

é a paisagem
do trigo- pão.