18 junho 2010

José Saramago para sempre Levantado do Chão



neste dia em que José Saramago interrompeu para sempre a escrita, recordo da sua vasta obra uma passagem de Levantado do Chão, para mim a mais significativa de todas as histórias que escreveu. respigo justamente um trecho em que o nobel da literatura portuguesa  se refere à passagem dos presos políticos alentejanos pela estação ferroviária do barreiro, quando chegavam aqui de comboio escoltados pelos guardas da gnr ou pelos agentes da pide, a caminho das prisões fascistas. na subtileza da sua escrita temperada de fino humor, Saramago descreve os sentimentos de João Mau-Tempo, personagem principal desta história do latifúndio, trabalhador rural alentejano preso na década de 50 por ter participado num levantamento de rancho.
«Passemos agora sobre a viagem, uma vez que não é capítulo admitido na história dos caminhos de ferro em Portugal. É o corpo tão soberano senhor que João Mau-Tempo chegou a dormitar, ao embalo do vagaroso da carruagem e do bater do rodado na junção dos carris trástrás, mas depois abria os olhos angustiado para cada vez descobrir que não ia a sonhar. Depois foi o barco para o Terreiro do Paço, se eu me atirasse à água, são pensamentos negros, acabo comigo, e não de acção heróica, que tem João Mau-Tempo isto de singular de não ter visto nunca cinema e não saber portanto quanto é fácil e aplaudido o salto sem mãos sobre a amaurada, o mergulho impecável e aquele nadar americano que leva o fugitivo ao misterioso barco fretado que afastado espera com a embuçada condessa que para esta acção cometer quebrou os sagrados laços da família e os ditames do património condal. Mas João Mau-Tempo, só mais tarde se virá a saber, é filho de rei e único herdeiro do trono. real, real, por João Mau-Tempo rei de Portugal, aí encosta o barco ao pontão, quem ia adormecido acordou, e quando o preso dá por si estão dois homens na sua frente, Então é só este, perguntam, e aquele que veio de acompanhante responde, Desta vez não há mais.» p. 240

13 comentários:

Anónimo disse...

João mau-tempo, o seu diário em "Uma familia do alentejo"

Carlos Guinote disse...

Reforço o título "Para sempre levantado do chão".
Que ao menos a "luta" deste homem não tenha sido em vão. Não nos deixemos cair, há que lutar com as armas que temos na mão.

ARFERLANDIA disse...

O único escritor de língua portuguesa, galardoado com prémio NOBEL, que por ser comunista, foi ostracisado pelos medíocres políticos (no poder) que agora hipócritamente apresentam os sentidos pêsames, sem snetimento e vergonha.

Um beijo amigo

ARFER

Alexandre Júlio disse...

Olá Rosalina, da Planície Dourada,

Cheguei até á tua Planície pela mão de um amigo comum, e vim encontrar o João Mau Tempo que ficou orfão, homem temperado pelas agruras da vida e tal como o seu criador, dois homens de tive o privilégio de conhecer na primeira pessoa, nunca vergaram nem perante as atrocidades do fascismo!

Todos ficámos mais pobres, a literatura Mundial perde um dos seus maiores vultos, o Zé Saramago interrompeu a sua escrita, mas o seu legado perdurará através dos tempos, esse é eterno.

Bem hajas Rosalina, adorei a paz do teu cantinho, e a bela companhia que nos faz o Zeca, enquanto por aqui navegamos, ficamos sem querer daqui arredar pé, linnnnnnnnnnnndo!

Um abraço da nossa imensa Planície,

Alexandre.

Marília Gonçalves disse...

PAPOILA RUBRA
AMIGOS

por motivos de saúde não escrevi ainda o que sinto sobre a perda terrível de um Companheiro de Luta de quantos se batem por justiça e por um Mundo Melhor
Mas para Homenagear SARAMAGO, militante, escritor, homem que não desistiu e que apenas a doença venceu (todos somos humanos) será sempre dia! Assim que a saúde mo permita, prestarei a Saramago com o meu sentir e pensar a homenagem respeitosa e admirativa que me merece
Como acima referimos nosso amigo, Portugal ficou mais pobre, e com Portugal também o Mundo, porque Saramago internacionalista era um escritor Universal
com a minha mais profunda e respeitosa memória
Marília Gonçalves

Marília Gonçalves disse...

Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis

azinheira sou eu disse...

saramago partiu mas deixa à humanidade uma obra admirável, por muito que custe a alguns, especialmente ao vaticano.
por cá, as palavras e as acções ficam com quem as pratica,
saramago fica no coração dos portugueses.

Marília Gonçalves disse...

Papoila Rubra, Amigos

Não posso calar-me diante da atrocidade, da ausência do Presidente da República de Portugal, à cerimónia de despedida a José Saramago que não só foi o imenso escritor que todos conhecemos, como trouxe a Portugal o Prémio Nobel, o único que provavelmente nos vai ficar,
já que o do PR Egas Moniz, tem tido muitas vozes contra e para que por desumano tal prémio seja retirado.
o Sr Presidente da República de Portugal esquece suas funções ao serviço de Portugal e de seu Povo
e esta ausência é um grito de desrespeito não só pelo valoroso escritor, como pela Língua Portuguesa e Pelo Povo de Portugal!
Tomamos acta de seu horripilante gesto e pela parte que me toca, pelo desrespeito que denota, V.E. NÃO FAZ FALTA NENHUMA? nesse adeus sentido que os patriotas fazem ao seu Escritor
Sem mais e como diz a amiga azinheira sou eu, as acções ficam com quem as pratica quer sejam mesquinhas, quer grandiosa!aqui encontramo-nos face às birras dum presidente! com uma tremenda falta de chá em pequeno, quem sabe, a água do Poço de Boliqueime não se prestaria a tal infusão

Marília Gonçalves

Marília Gonçalves disse...

(no fundo aprecio que os cangalheiros de Portugal, não tenham sido vistos nem achados, no supremo adeus a um homem de bem!)

Marília Gonçalves

Marília Gonçalves disse...

A FRASE DA SEMANA

A luta de classes está a voltar, sob nova forma, mas com a violência de há cem anos: agora é o capital financeiro a declarar guerra ao trabalho

Boaventura de Sousa Santos:

azinheira sou eu disse...

será q bss tem andado distraído? é q a mim parece-me que a luta de classes, desde q começou,nunca mais parou, nem teve qq intervalo. a não ser q lá nos states, onde parece q vive, se ensine a pensar que isso de luta de classes era só no tempo de marx. enfim...afinal está de volta a luta de classes!!!

Marília Gonçalves disse...

A Todos os Antifascistas
À memôria de Vicente Campinas
À memória de Ary dos Santos
Às suas Vozes de Combate

Acuso

Pela fome dos camponeses
pelo ventre de Catarina
pelos dias, anos, meses,
incendiando a campina
pelas crianças famintas
pela sede de cultura
pela vossa feroz chacina
meio século de noite escura...
Por todos os que sofreram
por todos os que cobardes
não tinham alma com olhos
em Maio todas as tardes!...
Pelas crianças sem escola
pelos vossos hospitais
na hipocrisia da esmola;
por calarem os jornais!...
Pelos presos numa jaula
em dias de escuridão
pelo ping-ping endoidando
os detentores da razão!...
Pelos povos colonizados
pelas unhas arrancadas
pelos cigarros apagados
nas pálpebras condenadas!
Pelas famílias destruídas
pelo livro não publicado
pelos operários fabris,
pelos jovens estudantes
que adivinhavam Abris
- no segredo agonizantes-
pelas vidas emudecidas
no desmaio, na loucura,
por milhares, milhares de vidas
às mãos da vossa tortura!
Por todos os prisioneiros
pelo nome de meu pai
cada antifascista morto
entre lágrimas choradas,
pelo olhar absorto
das mulheres violentadas!
Pela palavra proibida
Pelo nosso Portugal
de carne e alma traída
pela máquina fatal!
Pela vossa infame doçura
enganando o povo incauto
../..



por Alex, pelos amigos
cansados, mortos, em perigo;
pelo velho Vasconcelos
que era enfermeiro dos pobres
à miséria condenados,
pelos presos no Tarrafal
na frigideira queimados!
Pelo povo de Portugal!
Pelas guerras coloniais
por nossos filhos perdidos
sem saber porque razão
eram mandados meninos
matar ao longe um irmão!
Pelas terras abandonadas
pela esperança do emigrante,
pelas tradições caladas
na morte de cada instante!
Pelas aldeias sozinhas
quase despidas de gente...
Pelas velas dos moinhos
que cessaram de girar
porque do Algarve ao Minho
havia choro no mar!...
Pelas vozes que se calaram
dentro do seu próprio lar
como se nem as paredes
as pudessem abrigar!...
Pela mente das crianças
embalada pelo sono
do aniquilar da esperança!...
É que minha voz se eleva
a gritar todos os prantos
a tentar erguer da treva
a voz do Ary dos Santos!

Marília Gonçalves

Marília Gonçalves disse...

A Todos os Antifascistas
À memôria de Vicente Campinas
À memória de Ary dos Santos
Às suas Vozes de Combate

Acuso

Pela fome dos camponeses
pelo ventre de Catarina
pelos dias, anos, meses,
incendiando a campina
pelas crianças famintas
pela sede de cultura
pela vossa feroz chacina
meio século de noite escura...
Por todos os que sofreram
por todos os que cobardes
não tinham alma com olhos
em Maio todas as tardes!...
Pelas crianças sem escola
pelos vossos hospitais
na hipocrisia da esmola;
por calarem os jornais!...
Pelos presos numa jaula
em dias de escuridão
pelo ping-ping endoidando
os detentores da razão!...
Pelos povos colonizados
pelas unhas arrancadas
pelos cigarros apagados
nas pálpebras condenadas!
Pelas famílias destruídas
pelo livro não publicado
pelos operários fabris,
pelos jovens estudantes
que adivinhavam Abris
- no segredo agonizantes-
pelas vidas emudecidas
no desmaio, na loucura,
por milhares, milhares de vidas
às mãos da vossa tortura!
Por todos os prisioneiros
pelo nome de meu pai
cada antifascista morto
entre lágrimas choradas,
pelo olhar absorto
das mulheres violentadas!
Pela palavra proibida
Pelo nosso Portugal
de carne e alma traída
pela máquina fatal!
Pela vossa infame doçura
enganando o povo incauto
../..



por Alex, pelos amigos
cansados, mortos, em perigo;
pelo velho Vasconcelos
que era enfermeiro dos pobres
à miséria condenados,
pelos presos no Tarrafal
na frigideira queimados!
Pelo povo de Portugal!
Pelas guerras coloniais
por nossos filhos perdidos
sem saber porque razão
eram mandados meninos
matar ao longe um irmão!
Pelas terras abandonadas
pela esperança do emigrante,
pelas tradições caladas
na morte de cada instante!
Pelas aldeias sozinhas
quase despidas de gente...
Pelas velas dos moinhos
que cessaram de girar
porque do Algarve ao Minho
havia choro no mar!...
Pelas vozes que se calaram
dentro do seu próprio lar
como se nem as paredes
as pudessem abrigar!...
Pela mente das crianças
embalada pelo sono
do aniquilar da esperança!...
É que minha voz se eleva
a gritar todos os prantos
a tentar erguer da treva
a voz do Ary dos Santos!

Marília Gonçalves