22 fevereiro 2013
16 fevereiro 2013
adivinhando chuva
acordei neste sábado ao som da flauta do amola-tesouras.
adivinha chuva, dizem,
e geralmente é em dias assim, escuros como o de hoje, que aparece.
deve ser das poucas alturas em que tem trabalho...
ali está, em frente aos cabeleireiros glória, na rua vasco da gama,
aquele homem, ainda jovem, magro, com ar de mau passadio,
na sua bicicleta, amolando as tesouras da cabeleireira.
pergunto-me como pode sobreviver esta pessoa, amolando tesouras, ou facas...mas quem é que amola facas, ou amanha guarda-chuvas, se os chineses os vendem por meio tostão?!
deve ter família...
andando por aí, de terra em terra...
é um tendeiro, "uma espécie de cigano" (dizia-se lá no alentejo com um misto de temor, ou inveja),
sinónimo de gente que, sem ser marginal, vivia, por sua livre escolha, à margem da sociedade.
a sua profissão é um perfeito anacronismo histórico, neste tempo digital
eu não desejo mal ao tendeiro, mas gostava que hoje o sol brilhasse.
e enquanto o sol não chega, vou preparar-me para mais uma manifestação
15 fevereiro 2013
13 fevereiro 2013
o menino da praia dos amendoins
o menino da praia dos amendoins
na praia dos amendoins tomava-se banho em qualquer altura do ano.
bastava uma pessoa querer, mesmo que o sol aquecesse pouco... até nos dias invernosos, quando um vento fininho, de norte, soprava afiado, como gumes de facas amoladas enfiando-se debaixo da pele... ainda assim,os rapazes, destemidos, iam ao banho.
sapatos (quem os não tinha era menos esse trabalho), calças, camisolas e cuecas voavam pelos ares. os corpos franzinos, em pelota, arrepiados. como se todos os grãos de areia da praia tivessem voado para se colar à pele.
desatavam-se todos os nós nas pernas e a corrida só terminava quando a água, gelada, roçava a virilha. mergulho rápido e toca a fugir.
a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do
porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor.
em certos dias, a praia dos amendoins fica envolta em bruma cinzenta e tem o cheiro dos ovos podres, quando se partem (como quando o menino os vai buscar à estação do barreiro-a,na pasteleira. os ovos vêm do algarve, envoltos em palha, dentro de cestos de cana) e a água fica cor de prata e os corpos prateados, brilham...
a pasteleira. transportava ovos, que se vendiam para a pastelaria da dona zulmira, para o sr. real e outras casas do barreiro
às vezes, as sirenes dos barcos dos
amendoins acordavam o menino mais cedo. saltava da cama, vestindo-se à pressa. a
mãe já saira, com os ovos para o mercado, o pai não se sabe quando volta... que
uma máquina a vapor tem lá os seus caprichos e se lhe dá para avariar na serra do algarve... não se pode adivinhar quando chegará ao barreiro.
o menino, com asas nos pés, alcança a praia num ai. é o primeiro a
chegar. a praia ainda vazia... da cor que ele mais gosta, toda coberta de amendoins. só
para ele.
hoje, a escola conde ferreira bem pode esperar.
no porto, os barcos
prosseguem a sua azáfama interminável, na descarga dos amendoins para a fábrica dos óleos.
09 fevereiro 2013
06 fevereiro 2013
31 janeiro 2013
26 janeiro 2013
a vida
hoje brilha o sol
fosse a vida assim
simples
bela
fosse a vida assim
simples
bela
como o trinar das aves
que escuto
escondidas na folhagem
escondidas na folhagem
dos laranjais
que ainda existem
pelo barreiro velho
em velhos quintais
como se anunciassem a primavera
em velhos quintais
como se anunciassem a primavera
do seu gorjeio
saltam colcheias
como as que me chegam
em certos dias
vindas
da cooperativa dos corticeiros
escola de jazz do barreiro
as aves
cantam
[em]cantos que soltam
como as que me chegam
em certos dias
vindas
da cooperativa dos corticeiros
escola de jazz do barreiro
as aves
cantam
[em]cantos que soltam
como se à sua volta
tudo fossem campos
verdes
tudo fossem campos
verdes
é essa esperança
que me diz
que a primavera há-de chegar
que me diz
que a primavera há-de chegar
um dia destes
24 janeiro 2013
o tempo. revisitado
sob a terra húmida
no recorte
em camadas de tempo
as marcas
breves
fugidias
à espera de ser encontradas
quem as deixou não sonhava
ou sequer imaginou
ou sequer imaginou
o que elas representavam
para quem as encontrou
pedras
muros
casas
oficinas
que histórias abrigam essas paredes
quantos abraços
mãos que se tocaram
os carinhos e os afagos
trocados
entre o dono e o pequeno cão
sepultado com cuidado
marcas
civilização
distantes
tempo terrível
(e hoje não é?)
mais de dois mil anos
naquele pedacinho de terra
lavrada
semeada
onde já cresceram searas
nesse bocado de terra
sucessivamente ocupado
vivido
por eles
por nós
homens
mulheres
diferentes os tempos
quase o mesmo modo de pensar
ainda agora
será a terra que o condiciona, ao modo de pensar?
quem o saberá?
aqui neste presente passado
encontrei-me com essas marcas
ou elas encontraram-se em mim
23 janeiro 2013
18 janeiro 2013
falemos agora de decência
texto do escritor mário de carvalho que me foi enviado por e-mail, que agradeço
Falemos
agora de decência. É um conceito que não tem que ver com o sapatinho de vela no
verão, o esgoleiramento da camisinha branca ao fim-de-semana, os gestos miúdos
do chazinho ou a mãozinha no volante do Porshe, nem com os objectos «de marca»
que irmanam paradoxalmente os extremos do espectro social. Vadios de cima e
vadios de baixo (Eça confrontava-os no Chiado) entusiasmam-se pelos mesmos
efeitos. Apuradas as razões, hão-de encontrar-se num subterrâneo fio de ligação,
mais ou menos disfarçado: frivolidade iletrada. Aos de cima, chamou a doutora
Isabel Jonet «elite», por manifesto equívoco. Como se no país não existissem
cientistas, arquitectos, engenheiros, artistas, professores, médicos, advogados,
e tudo tivesse que rasar-se pela bitola de alguns economistas, banqueiros,
«gestores» e ociosos.
Mas
a plutocracia que tem mandado nos destinos dos portugueses transportou para o
Estado os seus pequenos hábitos de manobrismo, de expedientes, habilidades,
truques, quando não de falcatrua, que retiraram à entidade a sua natureza de
«pessoa de Bem». Ser «de bem» é uma noção que está fora do alcance de quem
apenas acha meritórios o lucro e as negociatas. Coisa abstracta e «intelectual»,
própria de «otários» para utilizar a linguagem das cadeias que acaba por não ser
muito diferente, numa perspectiva de extremos tangenciais
É
assim que vemos governantes a colocarem o Estado Português na situação de violar
os compromissos tomados para com os seus trabalhadores e aposentados. A ignorar
prazos contratuais. A incumprir as promessas juradas perante o seu eleitorado. A
fazer negaças às própria constituição. De modo tão flagrante e provocatório que
lhes fez perder a legitimidade formal que detinham à
partida.
Ora
quem se coloca fora da lei está a pedir um tratamento fora da lei. Mas eles não
estão apenas a pedir pedradas. Estão a pedir o confisco dos seus relvados, dos
seus automóveis, das suas casas, das suas piscinas, dos seus valores
mobiliários, dos seus quadros, dos seus cavalos, das suas jóias e luxos e a
supressão de todas as mordomias. Não que isso seja economicamente relevante. Mas
significa a reposição de um mínimo de decoro.
Ser-lhes-á
então tarde para perceber que numa situação de ruptura a própria polícia mudará
de campo. Certos jornalistas descobrirão escrúpulos éticos insuspeitados.
Economistas e contabilistas virão dizer que foram mal interpretados e nunca
proferiram aquelas coisas. Irromperão múltiplos vira-casacas e desertores da
tirania de mercado, dispostos a pisar a livralhada de Milton Friedman e a cuspir
no retrato emoldurado da Senhora Thatcher.
E
lá terão as pessoas de bom senso de arriscar a reputação e a pele para evitar
que se maltratem umas dúzias de plutocratas amedrontados e seus serviçais de
fatinho, rojados pelo chão, de folha de cálculo à mostra.
MdC
20-12-2012
07 janeiro 2013
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social - IV parte
Bairro das Palmeiras, Barreiro. Foto Jean Gaumay, 1975
4. Poluição: os “gases
da CUF”
Num contexto de transformações
profundas, em que o Barreiro se tornara um dos centros mais industrializados do
país, a intensificação da produção fabril representou a ruptura definitiva com
a paisagem tradicional.
As actividades industriais da CUF fizeram-se
sentir desde os primeiros tempos, transformando a paisagem e o ambiente por completo,
num processo destrutivo que, para os padrões actuais seria completamente
inaceitável.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de
Alfredo da Silva, em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta das mudanças.
Referindo-se às grandes chaminés que marcavam o perfil do Barreiro,
assinalava o «odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…»[1],
provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial, em permanente
ebulição.
Na verdade, nada
voltará a ser como antes, na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a
sua variada fauna marítima escapa à destruição, provocada pelos líquidos e
lamas, resultantes dos fabricos químicos.
Se é certo que, à época de instalação da CUF no Barreiro,
não existia ainda uma consciência ecológica clara, os efeitos da poluição eram
contudo, particularmente visíveis e começavam a preocupar a Câmara Municipal.
Com efeito, 6 anos após a laboração da CUF, a Comissão
Executiva da Câmara, solicita ao Sub-delegado de Saúde do Barreiro, um parecer
«sobre o fumo das diversas chaminés da Companhia União Fabril que se julga
muito prejudicial para a saúde pública.»[2].
As preocupações com a saúde e com o ambiente ressaltam,
igualmente, de um ofício do Centro Socialista do Barreiro, em que se pedem
enérgicas providências «sobre o mal que está causando à vegetação e às pessoas
que comem hortaliças, o ácido sulfúrico da Fábrica da União Fabril.»[3]
Na continuidade destes registos, encontramos em 11 de Maio
de 1916, uma reclamação dos moradores do Largo das Obras «por causa das águas
dos poços deste sítio não estarem em condições de serem utilizadas para
consumo, devido a infiltrações vindas da fábrica da Companhia União Fabril.»[4]
A expansão da CUF, com o consequente aumento da poluição
industrial, levantava as mais sérias reservas à Comissão Executiva da Câmara
que, em 24 de Maio de 1917, enviou um protesto ao Administrador do concelho,
opondo-se à construção da «nova fábrica de sulfuretos da Companhia União
Fabril, desta vila»[5], por considerar que seria
prejudicial à população do Barreiro.
O problema da poluição vai
intensificar-se e encontra repercussão na imprensa local, nomeadamente no
jornal “Eco do Barreiro” que, a partir de Novembro de 1929 começa a publicar
artigos, alertando para a gravidade da situação. Mas é em 1930, que o “Eco do
Barreiro” enceta uma campanha de denúncia pública, a que se vai associar a
Comissão Administrativa da Câmara Municipal, promovendo um abaixo-assinado,
convidando a população a subscrever um documento, onde pode ler-se o seguinte:
«Se por um lado a CUF muito
beneficiou o Barreiro, por outro lado, nalguma coisa o tem prejudicado […]
Estragou-nos uma bela praia,
cortando-a a meio e sujando-a de tal maneira, com ácidos e outros desperdícios,
que hoje as suas areias estão queimadas, as águas amarelas e sujas e os
banhistas, mesmo os da terra, já fogem, sem falarmos nos que vinham, do
Alentejo e regiões circunvizinhas…»[6]
Durante meses sucessivos, em
artigos bastante críticos, aquele semanário foca o desinteresse da CUF e da sua
administração, de Alfredo da Silva em particular, para resolver o problema dos
“gazes”. Argumentando contra os fumos venenosos que saem das fábricas, refere
que a população que é intoxicada é a mesma que enriquece os cofres do patrão da
CUF, a quem apela «quási de joelhos e mãos postas».
«Alfredo da Silva não se
comove! Continua frio como gelo!
E porque não se comove esse
homem, esse grande industrial deshumano?
É porque não seja de carne e
osso, como qualquer de nós?
Não! Ele é de carne e osso,
mas, no lugar do coração, tem um cérebro de grande calculador ultra-egoísta e
no lugar da consciência, esse vasio enorme, tem os cofres colossais da sua
desmedida ambição.»[7]
A poluição industrial da
CUF”, infringindo até as normas legais da época, é responsável pela destruição
de pequenas hortas, jardins e pomares, de gente humilde que os cultiva para
ajuda do magro sustento familiar mas, também dos prédios urbanos, agredidos por
aquele flagelo, tornando o Barreiro uma terra negra e fumarenta.
«Nada escapa às
rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos,
morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão
densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por
uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos
milhares de pessoas!»[8]
A fim de acompanhar os problemas ambientais,
causados pelos fumos que chegavam a todo o lado e fomentavam um ambiente
verdadeiramente doentio na população, a Câmara criou uma Comissão Municipal de
Higiene que entrou em vigor em 1929. De tempos a tempos emitia pareceres, que
pareciam cair em saco roto, nos quais se considerava o Barreiro como uma terra
insalubre, devido à grande concentração industrial existente.
Um desses pareceres, datado de 1947, pedia providências
contra as emanações expelidas pelas fábricas da Companhia «as quais até
provocam vómitos e náuseas aos seus habitantes»[9].
Como a autarquia reconhece em 1948, não era só o
centro da vila que era afectado mas até os bairros e freguesias limítrofes, pois
não existiam zonas ajardinadas suficientemente defendidas da influência dos
fumos da CUF «que sejam próprias para as crianças ou para os adultos.»[10].
No final da década de 50, o parecer sobre o
Ante-Plano de Urbanização do Barreiro, refere que as indústrias químicas da CUF
continuavam a libertar gases tóxicos que «arrastados pelos ventos do norte,
tornam insalubre e tóxica toda a zona moderna da vila.»[11].
Os problemas ambientais terão continuidade nas décadas
seguintes e permanecem ainda hoje, como uma das heranças mais negativas do
processo de industrialização que, durante perto de um século, marcou a vida e a
paisagem no Barreiro, tornando-se uma das suas (piores) imagens de marca.
Poluição,Barreiro, anos 70(?)
Notas:
1.- MIGUEL, António Dias, citado em ALMEIDA, Ana Nunes
– A Fábrica e a Família Famílias operárias no Barreiro, Barreiro, Câmara
Municipal do Barreiro, 2ª ed., 1998, p. 142
2. - AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15
3. - Idem
4.- AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15, fl.31
5. - Idem. fl. 107
6. - A velha Questão dos Fumos», Eco do Barreiro, 5 de Junho, 1930, 1ª página
7. - «Gazes asfixiantes sobre a população do Barreiro – O crime de um potentado» Eco do Barreiro, 15 de Novembro, 1930, 1ª página
8. - «Bradar no Deserto Gazes da CUF» Um Olhar sobre o Barreiro, Iª Série, nº 2, 1989, p.31
9. - AMB, Comissão Municipal de Higiene, CMB/B/Q/04/, Cx. 2
10. - AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51, p. 34
11. - Arquivo do Ministério das Obras
Públicas, «Parecer nº 2715 do Conselho Superior das Obras Públicas», fl. 54
20 dezembro 2012
ancorado em terra
um mastro ancorado
em terra
na praia do mexilhoeiro
preso
encalhado
no barreiro
mastro amarrado
em terra
olhando
lisboa
fronteiro
ao rio
fronteira
bandeira
que ao vento flameja
vento sem sorte
a bafeja
bandeira sem norte
assim vais tu
país amarrado
amarrado
ao passado
ao passado
e não o vês
o passado
um passado passado
duro
odioso
odiado
é para lá que caminhas
povo triste
povo manhoso
povo teimoso
que nem um burro
povo teimoso
que nem um burro
como se não soubesses
já
como se desconhecesses
como se desconhecesses
o caminho
onde te teva
esse caminho
18 dezembro 2012
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social - III parte
Bairro no Alto do Seixalinho, Barreiro, 1938
3. Doenças
Por força das circunstâncias
em que eram obrigados a viver, a sobrevivência era um desafio diário para
muitos operários do Barreiro e suas famílias. Viver em bairros degradados e
promíscuos, onde faltavam as condições mínimas para uma vida equilibrada,
constituía um passo rápido para o desenvolvimento de doenças, originadas pela
falta de saneamento básico e deficientes condições de limpeza.
«…como é possível higiene nas
pocilgas e mançardas que servem de moradia a tanto milhar de desgraçados
que mal ganham para não morrer? Como é possível o isolamento naquelas casas em
que mais de uma família habitam, e em que pais e filhos, numa promiscuidade
infame, vivem lado a lado, no mesmo aposento?»[1]
Certos bairros – e até uma
grande parte da vila – transformavam-se em locais muito perigosos para a saúde,
surgindo aqui e ali focos de tifo.
Foi o que sucedeu em
Setembro de 1926, atribuindo a Junta de Freguesia do Barreiro tal fenómeno, à
falta de limpeza na vila, que classificava como «péssima»[2].
Tais calamidades, por vezes vitimavam alguns indivíduos e atingiam toda a
família, deixando-a incapacitada para o trabalho e em situação de indigência e
miséria absolutas.
Segundo revela um Relatório da Comissão
Administrativa da Câmara Municipal, os problemas com a assistência médica,
constituíam uma das maiores dificuldades com que se defrontava o executivo, entre
os anos de 1930/1934. Especialmente a falta de equipamentos como centros de
saúde e hospitais, obrigava ao transporte dos doentes para Lisboa.
Queixava-se
a Câmara por ter de pagar a hospitalização dos doentes pobres, o que
representava um encargo «agravado sobremodo pela circunstância da Vila sede do
Concelho ter uma população de 17:000 habitantes, na sua grande maioria
constituída pelas classes trabalhadoras, sempre crescente, por se encontrar a
uma pequena distância de Lisboa e ser, portanto, um centro de atracção na
conquista do trabalho e por ser testa de caminho de ferro.»[3]
Pátio, Bairro das Palmeiras, ou Bairro da Folha, Barreiro, 1938
A hospitalização de doentes por parte da Câmara
resultava, de um Decreto-lei de 1933, que considerava como doentes pobres “os
indigentes e os indivíduos que vivam exclusivamente do seu trabalho, se dele
auferirem apenas o indispensável para a sua manutenção” [4].
Ora, segundo a própria Câmara naquela época,
apenas «uma insignificante percentagem da população do Barreiro é que não
estará em condições de poder aproveitar do benefício concedido»[5],
tendo a Comissão Administrativa emitido até à data mais de 700 guias de
admissão nos Hospitais Civis de Lisboa, além dos doentes que entraram no
Hospital-Escola de Santa Marta, no Instituto Bacteriológico e no Instituto de
Oftalmologia. A Câmara queixava-se que a despesa era excessiva, para os seus
recursos financeiros e propunha a construção de um hospital.
Por outro lado, a má nutrição contribuía
fortemente para o aparecimento da tuberculose, em resultado de uma alimentação
desequilibrada, minguada e desprovida, em última análise pela fome, o que não
era difícil de suceder neste meio. O problema ainda se podia agravar mais
porquanto, num espaço em que tudo se partilhava, o contágio era rápido e tanto
podia ser uma família inteira, como uma sala de aula.
A tuberculose parecia constituir um tal flagelo
que, até as actividades de carácter social que juntassem muitas pessoas,
representavam um perigo para a saúde pública, pelos riscos de contágio.
«Pela autoridade local foi determinado que as
sociedades de recreio locais não possam realizar mais de dois bailes por mês, a
fim de evitar a propagação da tuberculose.»[6]
A respeito da tuberculose, sobretudo nas crianças em idade
escolar, cita-se aqui uma afirmação do Presidente da Câmara Municipal do Barreiro Joaquim José Fernandes, contida num relatório de 1948, onde pode ler-se o seguinte:
«Há poucos meses ainda, um médico desta vila
afirmava que mais de 70% das crianças do Barreiro acusavam primo-infecções
tuberculosas»[7] e referia mais: que os
próprios professores primários observavam não ser possível exigir um rendimento
intelectual mais elevado às crianças, mesmo em épocas de exame, em virtude de
serem «raras as que podem resistir a um trabalho mais intenso sem acusarem
graves sintomas de fadiga.»[8]
Referência ainda, para uma
informação que a Comissão Municipal de Assistência, enviou ao Delegado do
Dispensário do Barreiro em 1946, onde aconselhava a criação de uma sala de
espera para os doentes. Diariamente, à porta daquele estabelecimento, esperavam
consulta muitas pessoas e a presença «desses infelizes na rua, permanência que
é assaz desagradável para todas as pessoas que transitam junto dessa
instituição» era incómoda, pela exposição pública do problema.
Por fim, e para finalizar este
tema, refira-se que, a tuberculose nos anos 40 era uma grande chaga social e um
dos sintomas mais visíveis, das deploráveis condições de vida de parte significativa da população do Barreiro.
Notas:
1. - GAGO,
Alves - «A tuberculose e a higiene», Eco do Barreiro, 8 Julho, 1931, p.6
2. - Junta de Freguesia do Barreiro, Livro de Actas da Junta, 1923-1931
3. - Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), «Comissão Administrativa Relatório
1 de Maio de 1930 a 31 de Dezembro de 1934», Barreiro, Câmara Municipal do
Barreiro, p. 55
4. - D.L. nº 23:348, de 13 de Dezembro, 1933
5. - AMB, «Comissão Administrativa Relatório 1 de Maio de 1930 a 31 de Dezembro de 1934» p. 56
6. - GAGO, Alves - «A tuberculose e a higiene», Eco do Barreiro, 8 Julho, 1931, p.6
7. -AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51, p. 34
8. - Idem
16 dezembro 2012
13 dezembro 2012
10 dezembro 2012
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social II parte
António Patacas e seu irmão João. António começou a trabalhar na CUF tinha 9 anos. Foto do próprio.
2. Sobrevivência quotidiana
Carências alimentares, desemprego, pobreza e exclusão
Em Outubro de 1918 o
Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios realizou um inquérito sobre o consumo
nos meios operários, chegando à conclusão que a “alimentação tipo” de uma
família operária apresentava graves carências proteicas, com um fraco consumo
de carne, leite e seus derivados, mas era também insuficiente em termos
calóricos, não atingindo em muitos casos as 3400 calorias, consideradas «mínimo
vital», para que um indivíduo pudesse trabalhar e sobreviver.
«Com um consumo alimentar
que mal chegava ao «mínimo vital», o proletariado não podia deixar de
apresentar numerosos sintomas de uma malnutrição que estava na origem das
principais causas de mortalidade entre as classes laboriosas – a tuberculose e
o tifo –, a par de uma das mais fortes taxas de mortalidade infantil da
Europa.»[1]
Numa altura em que a
Europa é devastada pela I Grande Guerra, o país sofre os efeitos da falta de
alimentos, uma inflação galopante, a escassez das matérias-primas, o
encerramento de muitas indústrias, graves crises de desemprego e miséria.
«Em toda a parte, faltaram as
matérias-primas e os alimentos. Quando os havia, era preciso comprá-los no
mercado negro, a preços loucos, ou em bichas gigantescas. A inflação
agravou-se. Muitas indústrias tiveram de cessar actividade, por falta de
abastecimentos.»[2]
Os livros de Actas da
Junta de Freguesia do Barreiro referenciam um quadro geral de carências e
privações de todo o tipo, com o espectro da fome a colocar-se diariamente,
desde os finais da I República.
Em 5 de Abril de 1923,
face às constantes solicitações de ajuda, a Junta de Freguesia do Barreiro
elabora uma lista com os nomes dos indigentes da freguesia, da qual constavam
112 pessoas, a fim de lhes ser distribuída uma oferta do Governador Civil, no
valor de 2$50[3].
Na véspera do Natal de
1925, a Junta do Barreiro, resolve oferecer um bodo aos pobres, mas a afluência
de pessoas foi superior ao esperado. Impotente, a Junta declarava: «nesta
freguesia a miséria que lavra em muitos lares é muito grande.»[4]
Os Livros de Actas dos
anos que se seguem, mostram sinais que o problema da pobreza e da mendicidade
não parece atenuar-se, pela menção constante a bodos e a esmolas efectuadas
pela Junta que, recorria a diversos meios para auxiliar os mais necessitados. É
assim, quando em 14 de Julho de 1931, a Junta do Barreiro procede à
distribuição de uma esmola «à pobreza envergonhada do Barreiro para o que se
irão procurar algumas creaturas que vivem na obscuridade...»[5].
O desemprego e a
penúria eram tais que, muitas pessoas recorriam à mendicidade nas ruas. Para
diminuir a impacto da situação, a Junta concedia ajudas monetárias para
transporte, a pessoas desempregadas, que quisessem regressar às suas terras.
Cita-se o caso de
Arminda Jesus, a quem foram atribuídos 5$00 para ajuda da passagem para a sua
terra, em virtude de o seu marido se encontrar desempregado[6].
O mesmo auxílio foi concedido a uma indigente, para que pudesse voltar para
Alcobaça. A Junta deliberou também socorrer a indigente Julieta da Conceição
com 10$00, para o transporte de duas filhas menores, para os asilos onde se
encontravam internadas. Regista-se ainda a atribuição de um subsídio de 15$00 a
um menor de 13 anos, de nome Albano para auxílio «da passagem para Oliveira de
Frades, a fim de se reunir a seu pai e seu avô, visto encontrar-se na mais
extrema miséria, mendigando pelas ruas da vila.»[7]
Se até aos anos 30 Portugal era
ainda um país predominantemente rural – com 80% da população a viver fora dos
centros urbanos com mais de 5 mil habitantes[8] – essa
feição começava agora a alterar-se, com o desenvolvimento de alguns pólos
industriais à volta dos grandes centros de Lisboa e Porto. O Barreiro vem a
ser, um dos casos mais exemplares.
Um dos primeiros actos desta
Comissão, criada em 1946, foi a elaboração de um Relatório dirigido ao Director
Geral da Assistência/Ministério do Interior que, espelha a situação que se
vivia no Barreiro. Começa assim:
«A vila do Barreiro,
centro industrial dos mais importantes, constitui simultaneamente importante
fulcro de pobreza e miséria. A par da população trabalhadora há, no Barreiro,
um considerável número de desempregados, que procuram trabalho, que buscam o
pão de cada dia. Vêm de todos os pontos do país, atraídos pela miragem de uma
colocação, que raros conseguem. As fábricas têm os seus quadros completos e,
por isso, muito difícil se torna, hoje em dia, arranjar nelas colocação.
Estes homens, estas
mulheres que vem procurar trabalho gastam na viagem para aqui os seus últimos
recursos. Não havendo trabalho deixam-se ficar na esperança e ilusão de que um
dia haverá. E vá de estender a mão à caridade, vá de procurar nas entidades
públicas subsídios indispensáveis ao seu sustento, vá de revoltar-se contra
tudo e contra todos.»[9]
A insuficiência de
meios, levava famílias inteiras, a socorrer-se da assistência social,
restando-lhes somente o apoio da Sopa dos Pobres ou a ou a Junta de Freguesia e
mais tarde, a Comissão Municipal de Assistência.
No seu balanço anual
do ano de 1945, a Comissão Administrativa da Sopa dos Pobres registou a
distribuição de 80.975 refeições gratuitas, com uma média mensal de 6746 refeições,
das quais 224 refeições diárias.[10]
Muitos dos que acorrem à Sopa
dos Pobres são desempregados, alguns com famílias numerosas de 7 e 8 pessoas e há uma com 10.[11]
Os Livros de Actas da
Comissão Municipal de Assistência fazem eco das situações de miséria que se viviam no Barreiro
e como reflexo deste fenómeno, verifica-se o aparecimento de um variado leque
de instituições e associações de apoio aos pobres e carenciados, nos
finais do conflito mundial.
Citamos algumas em
funcionamento em 1946: o Socorro Social, com um serviço denominado “Gota de
Leite” destinado a crianças; as Comissões Municipais de Assistência do
Barreiro, Palhais e Lavradio; a Sopa dos Pobres; a Sopa dos Desempregados,
ambas com cozinha própria onde forneciam refeições gratuitas; o Instituto dos
Ferroviários; o Asilo D. Pedro V, o Albergue para velhos, a Misericórdia.
Todas estas
instituições facultavam apoio, à população pobre do Barreiro e a idosos,
especialmente os que aqui chegavam provenientes «de outras regiões do País
(especialmente agrícolas), com poucos recursos para sobreviverem com dignidade
nas suas terras e que passam a recorrer à Assistência, pela carência de meios
de subsistência e na doença, quando não encontram logo a almejada ocupação».[12]
Comissão Municipal de Assistência. Barreiro, 1947.
Em 18 de Maio desse
ano de 46, a Comissão Municipal de Assistência do Barreiro, enviou um ofício ao
Governo Civil de Setúbal, dando conta dos pedidos de auxílio que chegavam à
instituição. Pediam leite para crianças e doentes, a farinhas para lactantes
filhos de pais extremamente pobres, pagamentos de cautelas de penhores,
especialmente roupas e utensílios de trabalho e pagamento de rendas «de
barracas a indigentes».[13]
A Comissão não era imune às
influências políticas, conforme se pode verificar com o que sucedeu em vésperas
das comemorações do 28 de Maio. Nesta data, o Presidente da Comissão de
Assistência, alertava o Presidente da Câmara Municipal, para a passagem do
aniversário da designada «Revolução Nacional». Sugeria que autorizasse o
pagamento de várias cautelas de penhores, o que, segundo as suas palavras
«seria bastante agradável para os interessados e ao mesmo tempo lhes fazia ver
que não haviam sido esquecidos nesta ocasião em que apelaram para V. Ex.ª.»[14]
Em tempo de poucos
recursos e ausência quase total de bens materiais, nada escapava ao penhor, nem
as peças de vestuário, mesmo as mais íntimas. Da consulta de uma lista de
penhores, em que tudo eram objectos usados, constavam 2 cobertores de lã e
algodão, 2 xailes de lã, 1 xaile preto, 2 camisas uma de algodão, 3 pares de
cuecas, 1 lenço de algodão, 1 par de calças de fazenda, 1 casaco de fazenda e
outro de linho, 1 vestido de crepe, 2 metros de flanela, 7 lençóis de algodão,
1 ferro de engomar[15].
Em Dezembro desse
mesmo ano a Comissão Municipal de Assistência dirigiu um pedido às maiores
empresas do Barreiro, solicitando auxilio para «os necessitados e indigentes
deste concelho, de pequena área e grande população, na sua maioria gente
operária» a fim de fazer face «aos sofrimentos de tantos infelizes e
desprotegidos da sorte».[16]
As Actas da Comissão
de Assistência dão, ainda, conta de situações limite, como a de uma mãe, em
1946, que em desespero e sem recursos para acudir à família, pede o
internamento dos seus filhos em asilo.[17]
Notas:
1. MEDEIROS, Fernando – A Sociedade e a Economia
Portuguesas nas Origens do Salazarismo, s.l., A Regra do Jogo, 1978, p. 143
2. «A República» RAMOS, Rui, vol. VI, História
de Portugal, Lisboa, dir. José Mattoso, C. Leitores, 1994, p.519
3. Junta de Freguesia do Barreiro (JFB), Livro de Actas da
Junta, 1923-1931
4. Idem
5. JFB, Livro de Actas da Junta, 1923-1931
6. Idem
7. Idem
8. «O Estado Novo», ROSAS, Fernando - vol.
VII, História de Portugal, Lisboa, dir. José Mattoso, Estampa, 1994,
p.61
9. Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), Comissão
Municipal de Assistência, CMB/B/Q/04/Cx. 01, 1946
10. AMB, Comissão Administrativa da Sopa dos Pobres –
Receita e Despesa referente ao Ano de 1945, Tipografia Comercial, Barreiro,
1946, CMB/B/Q/04/Cx. 01
11. AMB, Comissão Paroquial de Assistência do Barreiro –
Relação dos Desempregados Beneficiados com a Sopa do mês de Novembro de 1946,
CMB/B/Q/04/Cx. 01
12. PAIS, p.246
13. AMB, CMB/B/Q/04/Cx. 01, 1946
14 Idem
15. Idem
16. Idem
17. Idem
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