27 setembro 2011
05 setembro 2011
retratos de portugal
monte da capela, pias, baixo alentejo, 2011
cada vez mais actual o texto de saramago
Privado
«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e
o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E
finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os
Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas
privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação
do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»
José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148
20 julho 2011
manhã quase
na manhã quente
o cheiro da palha
quase se toca
e sente
entra pelas narinas
não é o restolho
as hastes
de sementes
é apenas erva
seca
a seara
ausente
faz ondular a campina
na manhã quente
quase a empurrar a porta
a entrar na casa
escura
quase
a sentir
as paredes caiadas
a exalar frescura
o salitre
a desfazer-se
numa lembrança
quase morta
se abrisse a porta
fechada
sentia
a casa vazia
lá dentro o nada
mas fico à entrada
busco na parede anilada
a luz que ilumina o dia
o presságio voa
na brisa
quase me arrepia
poema a partir da leitura do livro de josé luis peixoto uma casa na escuridão
28 junho 2011
Impossível é não viver
O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.
Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz.
José Luís Peixoto
excerto do texto de josé luis peixoto para o movimento myday-lisboa e lido na praça syntagma, em atenas numa assembleia do movimento dos indignados. o texto completo pode ser lido no site do escritor através do link:
http://www.joseluispeixoto.net/
25 maio 2011
amigos como janelas
há amigos
que são como certas janelas
que são como certas janelas
gostamos delas
assim
velhas
antigas
antigas
quebradas
amigos como janelas
gostamos delas
gostamos delas
mesmo
quando
quando
às vezes
parecem
parecem
não fazer sentido
para todos os amigos
novos e velhos
não importa a idade
o que importa mesmo
é que se lembraram de mim
obrigado pela vossa amizade
rc
para todos os amigos
novos e velhos
não importa a idade
o que importa mesmo
é que se lembraram de mim
obrigado pela vossa amizade
rc
Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
poema de Alexandre O'Neill
No Reino da Dinamarca
17 maio 2011
o tempo, a taipa e as vozes do silêncio
hoje parei o tempo
abri a porta
entrei lá dentro
e vi
sentadas
em cadeiras de buinho
a
solidão
e as vozes
do silêncio
em segredo
escutando
palavras inventadas
falando
da alma
e
e
do tempo
e de como nos escava
cá dentro
quando à tarde
na curva do caminho
a saudade assoma
em passo lento
no tempo deste caminho
houve um tempo
em que a taipa foi terra
e depois paredes
e agora nada
um dia
talvez,
as paredes de taipa
voltem
a ser
terra lavrada
30 abril 2011
22 abril 2011
revolução
imagem partilhada com o blog serpense http://serpense.blogspot.com/2011/04/25-de-abril-em-serpa.html
lembrar abril
a revolução
os cravos
e
a
libertação
defender abril
guardá-lo no coração
defendê-lo
dos que
de novo
nos querem escravos
18 abril 2011
a europa, portugal, fernando pessoa e a crise
a eurpoa jaz, posta nos cotovelos
de oriente, a ocidente jaz, fitando
e toldam-lhe românticos cabelos
olhos gregos, lembrando.
[...]
fita com olhar s'fingico e fatal
o ocidente, futuro do passado
o rosto com que fita é portugal
fernado pessoa
"o dos castelos"
mensagem
nunca as palavras do poeta me pareceram vir tão a propósito
portugal adormecido
espera
passivo
enquanto outros
traçam o seu destino
07 abril 2011
03 abril 2011
campos verdes de angústia
verdes são os campos
verdes de angústia são
campos
e
campos
incultos
sem pão
ninguém semeia
sequer
um grão
nos campos
espargos selvagens
a crescer
espargos selvagens
a crescer
nos barrancos
agriões
e não há mãos
para os colher
ninguém para lavrar
estas varjens
alentejo
só
abandonado
aldeias vazias
de novos
e velhos
não se fala em produção
não consta
nos programas de governo
montes
caídos
campos
e campos
vales
cabeços
chapadas
de estevas em flor
e que belas são
desfraldadas
bandeiras
de paz
mas a reforma agrária
e no meio de nada
fazem-se estradas
pontes e cruzamentos
tanto alcatrão
30 março 2011
25 de abril sempre! fascismo nunca mais!
é uma atitude completamente incompreensível que, a pretexto da crise política!!! a assembleia da república não assinale o 25 de abril!
a assembleia da república de portugal, a instituição mais simbólica e representativa da democracia portuguesa, resolveu não comemorar a data da revolução, feita por jovens militares no dia 25 de abril de 1974, que permitiu ao povo recuperar a liberdade, acabar com meio século de fascismo e eleger livremente os seus representantes.
comemorar hoje os ideais do 25 de abril é já um acto simbólico, pois em portugal já quase nada resta das conquistas revolucionárias, mas não o comemorar é ainda mais simbólico.
ao não assinalar o 25 de abril oficialmente, a assembleia da república está a equiparar-se à assembleia regional da madeira, onde alberto joão jardim não permite que tal aconteça.
como encarar tal atitude dos deputados que nos representam no parlamento?
será que esta decisão foi tomada por unanimidade?
será que TODOS, votaram de igual forma?
mas será que estes deputados, ainda representam alguém?
como dizia a minha mãe «já lhes pica a cevada na barriga», que é o mesmo que dizer
que já têm a barriga cheia.
e é por isso que estes partidos representam cada vez menos o povo português.
eu, por mim, reconheço-me cada vez menos neles.
mas não é por isso que deixo de lutar e defender abril.
e o 25 de abril, de certeza! que vai ser comemorado sempre, e em todo o lado, onde ainda houver pessoas
que acreditam num mundo melhor, mais justo, livre da corrupção, solidário e fraterno.
viva o 25 de abril, sempre!
25 março 2011
10 março 2011
era assim o moinho do braamcamp, antes do incêndio
«Nas proximidades de Alburrica, mas no Bico do Mexilhoeiro, está o Moinho do Braamcamp. As informações que dele possuímos referem a sua existência em meados do século XVIII, altura em que o então proprietário Vasco Lourenço Veloso o reedificou, em virtude de ter ficado bastante destruído pelo terramoto de 1755.
Em 1804, os herdeiros de Vasco Veloso venderam o moinho a Venceslau Braamcamp, Barão do Sobral, que o transforma num dos maiores moinhos de maré do estuário do Tejo. Ganha a designação de moinho do Braamcamp.
Mais tarde é vendido mas já por Abraham Wheelhouse a Robert Reynolds, compondo-se a propriedade então de «casas de habitação, armazéns, casa que foi fábrica de bolachas, moinho e motor de água, terras de semeadura e diversas árvores».
A antiga Quinta do Braamcamp, que no final do século XIX era conhecida por Quinta dos Ingleses (por ter pertencido a diversas famílias de origem britânica) foi adquirida pela Sociedade Nacional de Cortiças em 1897, que adaptou o edifício do moinho às suas actividades industriais, função que mantém até à actualidade».
in Barreiro - O lugar e a História - CARMONA, Rosalina, ed. Junta de Freguesia do Barreiro, 2009, p. 82-83
Era assim ainda em 2009. Hoje o moinho está em risco de desabar e desaparecer por completo, depois que foi devorado por um incêndio na semana passada. O actual proprietário é o Banco Comercial Português, cujos lucros subriram 625% no início do ano. Não será pois nenhum absurdo esperar que o BCP « respeitando os barreirenses e a sua história, e perante os factos ocorridos, faça as obras necessárias à recuperação do moinho e tome todas as providências adequadas à salvaguarda do património que se encontra na antiga Quinta do Braamcamp» pedaços da história viva e do património do Barreiro.
É por isso que aqui fica o link da petição da Associação Barreiro Património Memória e Futuro http://patrimoniobarreiro.org/, e o convite para todos os que a queiram assinar.
26 fevereiro 2011
hoje o rio é uma brisa azul
hoje
o rio é uma brisa
azul
como um olhar
que fosse uma praia
que se espraia
na maré cheia
ou no vento
que sopra do sul
mas
a calma no rio
é apenas aparente
permanente
é o ir e vir
das ondas sobre a areia
agitando as águas
levemente
o rio
como a vida
passa veloz
por nós
como os pensamentos
ou o vento
registo a frase
escrita na muralha
por mão grafiter
tudo o que vem, vai
mas nem tudo o que vai, volta
17 fevereiro 2011
ramal de beja e outras dores de alma
apanhei o comboio
que assoprava pela linha
às vezes penso comigo
e digo
triste sorte que é a minha
depois de chegar ao barreiro
embarquei
no vapor que passa o tejo
chora por mim
que eu choro por ti
já deixei o alentejo
esta moda era
cantada por alentejanos
cantada por alentejanos
quando as circunstâncias
e a vida,
obrigavam a deixar a terra
onde nasceram
onde nasceram
veio-me à memória
a propósito da petição pública
que alguém me enviou
e deixo o link
para quem a quiser assinar
já nos tiraram tanto!
para que não nos tirem isso
também
«RAMAL DE BEJA E OUTRAS DORES DE ALMA »
14 fevereiro 2011
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