20 julho 2011

manhã quase




na manhã quente

o cheiro da palha

quase se toca

e sente

entra pelas narinas


não é o restolho

as hastes 

de  sementes

é apenas erva
seca


a seara

  ausente

     faz ondular a campina


na manhã quente

quase a empurrar a porta

a entrar na casa

escura


quase

a sentir 

as paredes caiadas

a exalar frescura

o salitre
 
a desfazer-se

numa  lembrança

quase morta


se abrisse a porta

 fechada

sentia

a casa vazia

lá dentro o nada


mas fico à entrada


busco na parede anilada

a luz que ilumina o dia


o presságio voa

na brisa

quase me arrepia


poema a partir da leitura do livro de josé luis peixoto uma casa na escuridão

28 junho 2011

Impossível é não viver





O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.







Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz.


José Luís Peixoto

excerto do texto de josé luis peixoto para o movimento myday-lisboa e lido na praça syntagma, em atenas numa assembleia do movimento dos indignados. o texto completo pode ser lido no site do escritor através do link:
http://www.joseluispeixoto.net/








25 maio 2011

amigos como janelas









há  amigos

que são como certas janelas

gostamos delas

  assim

velhas

antigas

quebradas


amigos como janelas

gostamos delas

mesmo

quando

às vezes

parecem

não fazer sentido



para todos os amigos

novos e velhos

não importa a idade

o que importa mesmo

é que se lembraram de mim


obrigado pela vossa amizade

rc


Amigo


Mal nos conhecemos

Inaugurámos a palavra amigo!


Amigo é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,


Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!


Amigo (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

Amigo é o contrário de inimigo!


Amigo é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado.

É a verdade partilhada, praticada.


Amigo é a solidão derrotada!


Amigo é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

Amigo vai ser, é já uma grande festa!


poema de Alexandre O'Neill


No Reino da Dinamarca

17 maio 2011

o tempo, a taipa e as vozes do silêncio



hoje parei o tempo

abri a porta

entrei lá dentro


e vi

sentadas

em cadeiras de buinho

a

solidão

e as vozes

do silêncio

em segredo

escutando

palavras inventadas


falando

da alma

e

do tempo

e de como nos escava

cá dentro


quando à tarde

na curva do caminho

a saudade assoma

em passo lento


no tempo deste caminho

houve um tempo

em que a taipa foi terra

e depois paredes

e agora nada


 um dia

talvez,

as paredes de taipa

voltem

a ser

terra lavrada

30 abril 2011

nas ondas verdes do campo



ocupação de terras na herdade dos machados, moura, 1975




nas ondas verdes do campo

no vento que sopra

leve

bailando

nas abas das azinheiras

espalhando

o  perfume dos favais


sonho

com cantos alegres


vozes 

de mondadeiras

como papoilas

vermelhas

pelos campos

ondulando

no

verde

dos

trigais

22 abril 2011

revolução







lembrar abril

a revolução 

 os cravos

e

a

libertação

defender abril

guardá-lo no coração


defendê-lo

dos que

de novo

nos querem escravos

18 abril 2011

a europa, portugal, fernando pessoa e a crise







a eurpoa jaz, posta nos cotovelos
de oriente, a ocidente jaz, fitando
e toldam-lhe românticos cabelos
olhos gregos, lembrando.

[...]

fita com olhar s'fingico e fatal
o ocidente, futuro do passado

o rosto com que fita é portugal


fernado pessoa
"o dos castelos"
mensagem


nunca as palavras do poeta me pareceram vir tão a propósito

portugal adormecido
espera
passivo

enquanto outros
traçam o seu destino




03 abril 2011

campos verdes de angústia





verdes são os campos

verdes de angústia são

campos
e
campos

incultos

sem pão

ninguém semeia

sequer

 um grão

nos campos 

 espargos selvagens

a crescer

 nos barrancos

agriões

e não há mãos
para os colher
ninguém para lavrar
estas varjens
de pão


alentejo
só
abandonado
ao deus-dará



aldeias vazias
de novos
e velhos

não se fala em produção

não consta

nos programas de governo

só campos de solidão


montes 
caídos

campos
e campos
e nada é produzido


vales

cabeços

chapadas

de estevas em flor

e que belas são

desfraldadas
bandeiras
de paz

mas a reforma agrária
a falta que faz


e no meio de nada

fazem-se estradas

pontes e cruzamentos

tanto alcatrão


e a terra

tanta

abandonada

sem pão

30 março 2011

25 de abril sempre! fascismo nunca mais!





é uma atitude completamente incompreensível que, a pretexto da crise política!!! a assembleia da república não assinale o 25 de abril!


a assembleia da república de portugal, a instituição mais simbólica e representativa da democracia portuguesa, resolveu não comemorar a data da revolução, feita por jovens militares no dia 25 de abril de 1974, que permitiu ao povo recuperar a liberdade, acabar com meio século de fascismo e eleger livremente os seus representantes. 

comemorar hoje os ideais do 25 de abril é já um acto simbólico, pois em portugal já quase nada resta das conquistas revolucionárias, mas não o comemorar é ainda mais simbólico.

ao não assinalar o 25 de abril oficialmente, a assembleia da república está a equiparar-se à assembleia regional da madeira, onde alberto joão jardim não permite que tal aconteça.


como encarar tal atitude dos deputados que nos representam no parlamento?

será que esta decisão foi tomada por unanimidade?

será que TODOS, votaram de igual forma?

mas será que estes deputados, ainda representam alguém?


como dizia a minha mãe «já lhes pica a cevada na barriga», que é o mesmo que dizer

que já têm a barriga cheia.

e é por isso que estes partidos representam cada vez menos o povo português.

eu, por mim, reconheço-me cada vez menos neles.

mas não é por isso que deixo de lutar e defender abril.

e o 25 de abril, de certeza! que vai ser comemorado sempre, e em todo o lado, onde ainda houver pessoas
que acreditam num mundo melhor, mais justo, livre da corrupção, solidário e fraterno.

viva o 25 de abril, sempre!






25 março 2011

odisea del amanecer







afeganistão

iraque

líbia


que

outros

mais

países

 se seguirão???


haverá limites

para

este capitalismo selvagem

e

desumano

e para a sua desmedida

ambição?




10 março 2011

era assim o moinho do braamcamp, antes do incêndio





«Nas proximidades de Alburrica, mas no Bico do Mexilhoeiro, está o Moinho do Braamcamp. As informações que dele possuímos referem a sua existência em meados do século XVIII, altura em que o então proprietário Vasco Lourenço Veloso o reedificou, em virtude de ter ficado bastante destruído pelo terramoto de 1755.
Em 1804, os herdeiros de Vasco Veloso venderam o moinho a Venceslau Braamcamp, Barão do Sobral, que o transforma num dos maiores moinhos de maré do estuário do Tejo. Ganha a designação de moinho do Braamcamp.
Mais tarde é vendido mas já por Abraham Wheelhouse a Robert Reynolds, compondo-se a propriedade então de «casas de habitação, armazéns, casa que foi fábrica de bolachas, moinho e motor de água, terras de semeadura e diversas árvores».
A antiga Quinta do Braamcamp, que no final do século XIX era conhecida por Quinta dos Ingleses (por ter pertencido a diversas famílias de origem britânica) foi adquirida pela Sociedade Nacional de Cortiças em 1897, que adaptou o edifício do moinho às suas actividades industriais, função que mantém até à actualidade».
in  Barreiro - O lugar e a História - CARMONA, Rosalina, ed. Junta de Freguesia do Barreiro, 2009, p. 82-83

Era assim ainda em 2009. Hoje o moinho está em risco de desabar e desaparecer por completo, depois que foi devorado por um incêndio na semana passada. O actual proprietário é o Banco Comercial Português, cujos lucros subriram 625% no início do ano. Não será pois nenhum absurdo esperar que o BCP « respeitando os barreirenses e a sua história, e perante os factos ocorridos, faça as obras necessárias à recuperação do moinho e tome todas as providências adequadas à salvaguarda do património que se encontra na antiga Quinta do Braamcamp» pedaços da história viva e do património do Barreiro.
É por isso que aqui fica o link da petição da Associação Barreiro Património Memória e Futuro http://patrimoniobarreiro.org/, e o convite para todos os que a queiram assinar.



26 fevereiro 2011

hoje o rio é uma brisa azul



hoje


o rio é uma brisa

azul






como um olhar



que fosse uma praia
que se espraia


na maré cheia







ou no vento


que sopra do sul





mas
a calma no rio
é apenas aparente




permanente
é o ir e vir
das ondas sobre a areia

agitando as águas
levemente




o rio


como a vida

passa veloz

por nós

como os pensamentos


ou o vento




registo a frase

escrita na muralha

por mão grafiter

tudo o que vem, vai

mas nem tudo o que vai, volta






17 fevereiro 2011

ramal de beja e outras dores de alma




eu cheguei
apanhei o comboio
que assoprava pela linha
às vezes penso comigo

e digo

triste sorte que é a minha

depois de chegar ao barreiro
embarquei
no vapor que passa o tejo

chora por mim
que eu choro por ti

já deixei o alentejo


esta moda era
cantada por alentejanos
quando as circunstâncias
e a vida,
obrigavam a deixar a terra
onde nasceram

veio-me à memória
a propósito da petição pública
que alguém me enviou
e deixo o link
para quem a quiser assinar

já nos tiraram tanto!
para que não nos tirem isso
também

«RAMAL DE BEJA E OUTRAS DORES DE ALMA »



14 fevereiro 2011

cal

a propósito

do livro de josé luis peixoto

e da sua escrita

clara
e
limpa

como a cal

das paredes
e
 portados

da bela
e
luminosa

cidade

de

serpa