07 maio 2013

desobediência civil



obedecer não é a minha maneira de ser
feliz

por abril, 

viva a desobediência civil!


«Os piores crimes são cometidos por funcionários diligentes que não fazem mais nada que cumprir ordens de forma acéfala. Vale para a guerra como para a austeridade
Numa das mais célebres experiências de sempre da psicologia social, pensada pelo psicólogo Stanley Milgram, tentou-se analisar os mecanismos da autoridade e entender as razões que levaram tanta gente a obedecer a ordens que provocaram o massacre de milhões de pessoas durante o nazismo.

A chamada experiência de Milgram começou em Julho de 1961, três meses depois de começar o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. O dispositivo era simples: uma universidade angaria voluntários para um suposto estudo sobre o papel dos castigos na aprendizagem. Na sala está um cientista, um suposto voluntário a responder a perguntas, e a pessoa que realmente se sujeita à experiência tem como missão carregar num botão. Os dois primeiros são intervenientes combinados. Quando o  “aluno” da cadeira falha uma resposta, o voluntário e sujeito da experiência recebe instruções para carregar num botão que provocaria um choque eléctrico. Os choques são supostamente crescentes com cada nova resposta errada, até níveis que, a serem verdade, poriam em perigo de vida o aluno. Este berra e finge desmaiar. Perante as dúvidas da pessoa que pressiona o botão, o alegado cientista, vestido com uma impecável bata branca, diz de uma forma fria: “A experiência deve continuar.” Perante o cenário, em que por causa de um estudo académico uma pessoa estaria a ser electrocutada até à morte, a maioria continua a executar as ordens do cientista de uma forma quase automática. São muito poucos aqueles que se insurgem e se recusam a provocar os choques eléctricos.

Ontem tive o privilégio de ver o filme sobre Hannah Arendt e o caso Eichmann. Para escândalo de muitos, a filósofa judia chega à conclusão que Eichmann era um homem normal. E que não existe um mal radical, ligado a uma anormalidade maléfica e tenebrosa; o mal é sempre excessivo, mas o dos nazis, como o responsável pelo programa de transporte dos judeus para os campos de concentração, é um mal feito por um funcionário burocrático mesquinho e cumpridor de ordens. Segundo Arendt, a Eichmann “nunca ocorreu fazer o mal como princípio, como a Ricardo III. Tirando o seu interesse extraordinário pela sua carreira, não tinha nenhum móbil, e o carreirismo não é um crime. Não teria certamente assassinado o seu superior para lhe ficar com o lugar. Simplesmente nunca lhe passaram pela cabeça as consequências daquilo que fez...” O mal feito era um mal banal, cumprido por funcionários diligentes em horário de expediente. As reacções ao texto de Hannah Arendt foram violentas porque as suas conclusões são muito mais assustadoras: o mal não é feito por seres diabólicos de excepção, é executado por pessoas comuns que no fim do dia vão cuidar dos filhos.

Para Hannah Arendt o mal não era radical, era excessivo. Ao qual tinha de se opor um bem radical para o conseguir travar. Uma desobediência que pudesse romper a textura do respeitinho e dos pequenos poderes. E isso vale para os dias de hoje. Quando aqueles que nas suas folhinhas de Excel calculam os cortes sem ver que ceifam vidas, é preciso que alguém lhes desobedeça. Eles dizem para seu sossego que não fazem mais que cumprir ordens de alguém, seja a troika seja um grande outro qualquer. Mas aquilo que fazem é espalhar um mal embebido na normalidade de quem cumpre ordens burocráticas, como se fosse uma praga de cogumelos, como exemplificava Arendt. É preciso opor-lhes o pensamento. E isso custa mais que obedecer. Mas só isso faz a diferença.»

Nuno Ramos de Almeida em http://www.ionline.pt/iOpiniao/mal-absoluto-sao-dois-dedinhos-numa-folha-excel
Editor-executivo
Escreve à terça-feira

19 abril 2013

viva o 25 de abril, sempre!



“o poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores”.

“apelo da associação 25 de abril ao povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia”.


12 abril 2013

venham ventos e mudanças


galo do meu cata-vento
o que catas tu
quando sopra o vento
catas o tempo,
o vento
ou sopras a esperança


gira, galo
baila e cata o vento
cata a sorte
e
traz-me o vento

mas que seja forte

quero um vento  de mudança

03 abril 2013

"um povo resignado e dois partidos sem ideias"

escrito há mais de 100 anos, o texto de guerra junqueiro não podia estar mais actual.

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. 
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. 
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. 
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar. 

Guerra Junqueiro, in 'Pátria (1896)'

28 março 2013

é a hora


nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
ninguém sabe que coisa quere.
ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(que ância distante perto chora?)
tudo é incerto e derradeiro.
tudo é disperso, nada é inteiro.
ó portugal, hoje és nevoeiro...
é a hora!”

fernando pessoa, mensagem - poemas esotéricos

27 março 2013

tempo de grândolas


com o céu a querer desabar-nos em cima, escondendo a serra d'ossa atrás de espessas cortinas de água, olhávamos, ao fundo, a vila do redondo, enquanto esperávamos que o tempo e a chuva se afastassem para longe, pela planície amiga. talvez a caminho das terras dos sacaios, que fazem uns paios com excelente sabor, à antiga.  

deixámos a estrada e ali, debaixo daquela azinheira, companheira solidária de mais uma jornada, pensámos neste tempo de grândolas. pensámos em chipre. e no mais que se segue. e quem se segue agora. agora que perderam o rebuço e mostraram mais uma vez, a face. e chipre é apenas o início.
esta é a face de uma certa europa, capitalista, pró fascista, que começa a agigantar-se sobre os povos mais fracos e a preparar a bota nazi.

por muito menos se fizeram revoluções. 
porque não se unem os povos explorados para acabar com o sistema capitalista?
porque é que continuamos à espera que a solução exista dentro deste sistema, se ele está contaminado pelo poder do capitalismo internacional?
quando é que surge um novo lénine, para guiar os povos, rumo a tempos novos?

20 março 2013



chegaste, primavera

enfim!

vinhas nas asas de uma andorinha
e pousaste
 em perfumes e verdores
pelo jardim

eu
passei o inverno todo
 à tua espera

agora que voltaste
primavera

fica sempre comigo

não te partas mais de mim


11 março 2013

uma luz que se apagou



quando os campos  começam a tingir-se de cores, atapetados por uma erva vermelha, que cresce rasteira nos montados...

quando afago o tronco, rude, das azinheiras e o sinto macio, coberto de musgo

quando uma brisa que busco, me transporta pelo campo aberto
à planície dos odores  intensos da tremocilha...

quando oiço o cuco cantar e é já primavera... ainda que o calendário diga o contrário...

quando por todo o lado a vida fervilha....

ainda assim, a morte me surpreende.
consegue sempre surpreender-nos, a morte,  levando aqueles que,  mesmo já o sabendo nós,  partiriam antes...  nunca a esperamos.
e é sempre surpeendente.
apanha-nos inocentes e desprevenidos.

e pensamos
um dia também o meu corpo partirá
e o meu ser deixará
de ser
e deixarei de saber
que a primavera chegou
qual o cheiro da terra lavrada
porque cantam as rolas em revoada
um certo voar da arvéola, ao fazer o ninho
como corre, assim ligeiro, aquele barranquinho
que uma trovoada súbita inundou

e o meu corpo será nada
nem já pó restará dele

talvez apenas, e tão só, uma lembrança
que trago colada à pele
do que fui
do que ainda sou

mas depois e depois...
nada

que sei eu, de quem, há mil anos por aqui andou

talvez reste de mim
uma luz que se apagou

07 março 2013

mulher





«Porque amanhã se celebra o DIA INTERNACIONAL DA MULHER, porque muitas das metas do «feminismo» estão ainda por alcançar, também no nosso país. E porque... sim, isto não tem sido nada fácil e temos a obrigação de contar como foi, num passado que é tão presente, deixo-vos um testemunho pessoal. Para que não se apague a memória! 

Até à década de 70, na classe social a que eu pertencia, era escasso o número de mulheres que faziam uma escolha de vida idêntica à minha, ou que alinhavam nas iniciativas da Oposição Democrática. Havia uma espécie de cerco social, familiar e religioso, a entrincheirá-las – mesmo nas hostes oposicionistas da geração dos mais velhos, reféns de uma moral social, mais ou menos assumida, em que “a política era para os homens, e à mulher cabia um papel estabilizador da família, o amparo dos filhos e pais e o repouso do guerreiro”. Talvez por isso, são bastante conhecidas as mulheres que, durante o fascismo, se destacaram publicamente, e a sua memória individual tem sido, de algum modo, preservada. Se, hoje em dia, falamos de mulheres na oposição ao regime – ligadas a diferentes sectores ideológicos – há, de facto, dezenas de nomes de dirigentes estudantis, de prestigiadas figuras políticas e de intelectuais que nos vêm à cabeça: já desaparecidas ou ainda vivas, integram o património humano da Resistência urbana contra a ditadura. E, no entanto, desde a década de 40, era bem mais expressiva a representação das mulheres trabalhadoras em muitas regiões do país, nas lutas económicas e nas greves, quer operárias, quer na agricultura. Durante a ditadura fascista, a ala das mulheres do Forte de Caxias espelhava frequentemente essa realidade. Mulheres sem nome escrito na memória da oposição democrática. A Catarina Eufémia cedo se tornou um exemplo dessas outras combatentes. Assassinada a tiro pela GNR, quando reclamava um mísero aumento para as ceifeiras do latifúndio em que era assalariada, surgiu, ainda sob o fascismo, como ícone dos duros combates travados por elas, pelo direito ao trabalho e por um salário minimamente condigno. Porém, haverá centenas e centenas de mulheres que não foram nunca homenageadas; a quem o estado democrático não deu nunca voz na comunicação social; e que, só pontualmente, testemunharam publicamente as suas vivências. São a face feminina de um sem número de participantes activos nas lutas contra a ditadura - obreiros, eles e elas, das condições para a implantação da democracia. Ao longo de 48 anos, houve milhares de pessoas que foram detidas, que foram presas e torturadas, que morreram, que foram barbaramente espancadas, que sofreram o exílio, que foram expulsas do ensino, que perderam o trabalho, que se recusaram a partir para a guerra contra os povos das colónias. São batalhões de mulheres e homens abnegados, devotados a uma causa, sem anseio de heroicidade. Pagaram o custo da repressão por darem passos em frente, arriscando tudo, empenhando-se em lutas por melhores condições de vida e de ensino e por direitos de cidadania, na perspectiva de virem a alcançar um estado de direito, em paz, em democracia e com liberdade. Lutas que foram fragilizando o regime. A Revolução de Abril não nasceu do nada.

Mas a repressão e a brutalidade das polícias políticas e afins abatiam-se ferozmente sobre as mulheres, qualquer que fosse a sua origem social, sempre que se atreviam a enfrentar a ditadura. Com especificidades que faziam delas vítimas de violência acrescida, pela sua condição de mães, pela sua maior fragilidade física, pela sua maior vulnerabilidade. A condição feminina e a maternidade tornavam-nas alvos de um tratamento especial. No momento da prisão, nos interrogatórios e na tortura, muitas mulheres eram ameaçadas, chantageadas e humilhadas. Eles ajustavam, criteriosamente, a cada estrato social, as ameaças que faziam, os espancamentos, as palavras que usavam, as ordens que davam. Mas as torturas eram psicologicamente estudadas para nos provocarem na nossa fragilidade física e nos violarem no nosso pudor feminino, com o objectivo de verem a primeira cedência na firmeza que os desesperava. Depois, era a escalada da violência. Se é sinistro todo historial repressivo da PIDE, é aterradora a narrativa que nos chega de mulheres vítimas das atrocidades a que foram submetidas. Sobressaem como particularmente maquiavélicas.
O encarceramento de companheiras com os seus filhos tornava extraordinariamente doloroso o tempo de prisão a que eram submetidas. Vivi durante meses numa cela com a Maria, uma trabalhadora rural que tinha consigo uma criança de cerca de um ano e meio. Quatro metros quadrados, se tanto, que mãe e filho partilhavam com mais duas presas. Eram já perturbantes os sinais de transtorno psicológico da criança e continuava sem poder ir ao recreio e privada de espaço e de sol.
Parecendo condenadas a permanecerem ocultas na História recente do nosso país, estas mulheres vêm, aos poucos, saindo do anonimato. Acontece pela escrita de memórias de antifascistas, ou em documentos cinematográficos como o de Susana Sousa Dias, mas é sobretudo pela mão de historiadores (nomeadamente de Irene Pimentel, uma mulher que não pára na sua investigação apontada ao fascismo) que vemos nomes e factos a emergirem para níveis de divulgação. 
Estou certa de que as crianças e os jovens precisam deste género de testemunhos, e de narrativas que ultrapassem as “frases feitas”, que pouco lhes dizem, para se abrirem ao conhecimento da realidade da ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Só assim os parágrafos frios e secos dos manuais escolares - em que se aborda este período negro da História de Portugal - ganham, aos seus olhos, vida e emoção. Há uma História viva ainda ao alcance destes jovens, o que é meio caminho andado para a motivação que, no futuro, pode fazer deles os activistas que hão-de render-nos num movimento que não deixe apagar a memória.

(Excerto de uma intervenção na UMAR, em Novembro de 2012)
por helena pato, via facebook

todo o tempo é de poesia



em manhãs de tristeza
rego o jardim com poesia

mas esta manhã foi ficando
brilhante, radiante
disposta a inundar a penumbra
naquele recanto do jardim
onde a tristeza
já cobria os muros
de verdes musgos 
e hera

oxalá as gaivotas não transformem a esperança
em tempestade

06 março 2013

el comandante chavez



"el comandante" chavez partiu 

deixa órfãos de esperança
 os pobres da venezuela,
da américa latina,
e um pouco, todos nós

sentiremos saudade 
da coragem
com que enfrentou o imperialismo yankee

oxalá a revolução bolivariana 
e o povo pobre e oprimido da venezuela
saibam guiar-se
pelos caminhos da grande incerteza 

que ora enfrentam

estamos com eles
no coração


04 março 2013

22 fevereiro 2013

o povo é quem mais ordena


soltem a grândola,
por todo o lado
até que eles se demitam

que o povo é quem mais ordena!



16 fevereiro 2013

adivinhando chuva


acordei neste sábado ao som da flauta do amola-tesouras.
adivinha chuva, dizem, 
e geralmente é em dias  assim, escuros como o de hoje, que aparece. 
deve ser das poucas alturas em que tem trabalho...

ali está, em frente aos cabeleireiros glória, na rua vasco da gama,
 aquele homem, ainda jovem, magro, com ar de mau passadio,
na sua bicicleta, amolando as tesouras da cabeleireira.

pergunto-me como pode sobreviver esta pessoa, amolando tesouras, ou facas...mas quem é que amola facas, ou amanha guarda-chuvas, se os chineses os vendem por meio tostão?!

deve ter família...

andando por aí, de terra em terra...

é um tendeiro, "uma espécie de cigano" (dizia-se lá no alentejo com um misto de temor, ou inveja),
 sinónimo de gente que, sem ser marginal, vivia, por sua livre escolha, à margem da sociedade.

a sua profissão é um perfeito anacronismo histórico, neste tempo digital

eu não desejo mal ao tendeiro, mas gostava que hoje o sol brilhasse.

e enquanto o sol não chega, vou preparar-me para mais uma manifestação


15 fevereiro 2013

revolta-te nas ruas



mas não percas mais tempo
começa já este sábado
16 de fevereiro 2013
numa qualquer capital de distrito
mais perto de ti


13 fevereiro 2013

o menino da praia dos amendoins

o menino da praia dos amendoins

na praia dos amendoins tomava-se banho em qualquer altura do ano. bastava uma pessoa querer, mesmo que o sol aquecesse pouco... até nos dias invernosos, quando um vento fininho, de norte, soprava afiado, como gumes de facas amoladas enfiando-se debaixo da pele... ainda assim,os rapazes, destemidos, iam ao banho. 

sapatos (quem os não tinha era menos esse trabalho), calças, camisolas e cuecas voavam pelos ares. os corpos franzinos, em pelota, arrepiados. como se todos os grãos de areia da praia tivessem voado para se colar à pele. 

desatavam-se todos os nós nas pernas e a corrida só terminava quando a água, gelada, roçava a virilha. mergulho rápido e toca a fugir.

a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor. 

em certos dias, a praia dos amendoins fica envolta em bruma cinzenta e tem o cheiro dos ovos podres, quando se partem (como quando o menino os vai buscar à estação do barreiro-a,na pasteleira. os ovos vêm do algarve, envoltos em palha, dentro de cestos de cana) e a água fica cor de prata e os corpos prateados, brilham...


a pasteleira. transportava ovos, que se vendiam para a pastelaria da dona zulmira, para o sr. real e outras casas do barreiro

às vezes, as sirenes dos barcos dos amendoins acordavam o menino mais cedo. saltava da cama, vestindo-se à pressa. a mãe já saira, com os ovos para o mercado, o pai não se sabe quando volta... que uma máquina a vapor tem lá os seus caprichos e se lhe dá para avariar na serra do algarve... não se pode adivinhar quando chegará ao barreiro.


o menino, com asas nos pés, alcança a praia num ai. é o primeiro a chegar. a praia ainda vazia... da cor que ele mais gosta, toda coberta de amendoins. só para ele. 

hoje, a escola conde ferreira bem pode esperar. 

no porto, os barcos prosseguem a sua azáfama interminável, na descarga dos amendoins para a fábrica dos óleos.
 


09 fevereiro 2013

princesa do amendoal


passeias pelo amendoal 
o teu olhar doce
de tristeza

és princesa
presa
de uma lenda antiga

é antiga 
a lenda do amor

mas a tristeza
princesa
não a deixes presa
solta-a

o amendoal
é a vida

06 fevereiro 2013

nas tuas mãos



nas tuas mãos
guardas
belas
frágeis
delicadas
pétalas
de amendoeiras em flor

ao pé delas
belíssimas são
as tuas frágeis
delicadas
e humanas
mãos



31 janeiro 2013

isto não é uma democracia


esta merda não é uma democracia.
e cheira a fascismo que tresanda.

grafite anónimo numa rua do barreiro



26 janeiro 2013

a vida


hoje brilha o sol

fosse a vida assim
simples
bela
como o trinar das aves
que escuto
escondidas na folhagem
dos laranjais
que ainda existem
pelo barreiro velho
em velhos quintais
como se anunciassem a primavera

do seu gorjeio
saltam colcheias
como as que me chegam
em certos dias
vindas
da cooperativa dos corticeiros
 escola de jazz do barreiro

as aves
cantam
 [em]cantos que soltam
como se à sua volta
tudo fossem campos
verdes

é essa esperança
que me diz
que a primavera há-de chegar
um dia destes