07 maio 2013

desobediência civil



obedecer não é a minha maneira de ser
feliz

por abril, 

viva a desobediência civil!


«Os piores crimes são cometidos por funcionários diligentes que não fazem mais nada que cumprir ordens de forma acéfala. Vale para a guerra como para a austeridade
Numa das mais célebres experiências de sempre da psicologia social, pensada pelo psicólogo Stanley Milgram, tentou-se analisar os mecanismos da autoridade e entender as razões que levaram tanta gente a obedecer a ordens que provocaram o massacre de milhões de pessoas durante o nazismo.

A chamada experiência de Milgram começou em Julho de 1961, três meses depois de começar o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. O dispositivo era simples: uma universidade angaria voluntários para um suposto estudo sobre o papel dos castigos na aprendizagem. Na sala está um cientista, um suposto voluntário a responder a perguntas, e a pessoa que realmente se sujeita à experiência tem como missão carregar num botão. Os dois primeiros são intervenientes combinados. Quando o  “aluno” da cadeira falha uma resposta, o voluntário e sujeito da experiência recebe instruções para carregar num botão que provocaria um choque eléctrico. Os choques são supostamente crescentes com cada nova resposta errada, até níveis que, a serem verdade, poriam em perigo de vida o aluno. Este berra e finge desmaiar. Perante as dúvidas da pessoa que pressiona o botão, o alegado cientista, vestido com uma impecável bata branca, diz de uma forma fria: “A experiência deve continuar.” Perante o cenário, em que por causa de um estudo académico uma pessoa estaria a ser electrocutada até à morte, a maioria continua a executar as ordens do cientista de uma forma quase automática. São muito poucos aqueles que se insurgem e se recusam a provocar os choques eléctricos.

Ontem tive o privilégio de ver o filme sobre Hannah Arendt e o caso Eichmann. Para escândalo de muitos, a filósofa judia chega à conclusão que Eichmann era um homem normal. E que não existe um mal radical, ligado a uma anormalidade maléfica e tenebrosa; o mal é sempre excessivo, mas o dos nazis, como o responsável pelo programa de transporte dos judeus para os campos de concentração, é um mal feito por um funcionário burocrático mesquinho e cumpridor de ordens. Segundo Arendt, a Eichmann “nunca ocorreu fazer o mal como princípio, como a Ricardo III. Tirando o seu interesse extraordinário pela sua carreira, não tinha nenhum móbil, e o carreirismo não é um crime. Não teria certamente assassinado o seu superior para lhe ficar com o lugar. Simplesmente nunca lhe passaram pela cabeça as consequências daquilo que fez...” O mal feito era um mal banal, cumprido por funcionários diligentes em horário de expediente. As reacções ao texto de Hannah Arendt foram violentas porque as suas conclusões são muito mais assustadoras: o mal não é feito por seres diabólicos de excepção, é executado por pessoas comuns que no fim do dia vão cuidar dos filhos.

Para Hannah Arendt o mal não era radical, era excessivo. Ao qual tinha de se opor um bem radical para o conseguir travar. Uma desobediência que pudesse romper a textura do respeitinho e dos pequenos poderes. E isso vale para os dias de hoje. Quando aqueles que nas suas folhinhas de Excel calculam os cortes sem ver que ceifam vidas, é preciso que alguém lhes desobedeça. Eles dizem para seu sossego que não fazem mais que cumprir ordens de alguém, seja a troika seja um grande outro qualquer. Mas aquilo que fazem é espalhar um mal embebido na normalidade de quem cumpre ordens burocráticas, como se fosse uma praga de cogumelos, como exemplificava Arendt. É preciso opor-lhes o pensamento. E isso custa mais que obedecer. Mas só isso faz a diferença.»

Nuno Ramos de Almeida em http://www.ionline.pt/iOpiniao/mal-absoluto-sao-dois-dedinhos-numa-folha-excel
Editor-executivo
Escreve à terça-feira

19 abril 2013

viva o 25 de abril, sempre!



“o poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores”.

“apelo da associação 25 de abril ao povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia”.


12 abril 2013

venham ventos e mudanças


galo do meu cata-vento
o que catas tu
quando sopra o vento
catas o tempo,
o vento
ou sopras a esperança


gira, galo
baila e cata o vento
cata a sorte
e
traz-me o vento

mas que seja forte

quero um vento  de mudança

03 abril 2013

"um povo resignado e dois partidos sem ideias"

escrito há mais de 100 anos, o texto de guerra junqueiro não podia estar mais actual.

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. 
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. 
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. 
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar. 

Guerra Junqueiro, in 'Pátria (1896)'

28 março 2013

é a hora


nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
ninguém sabe que coisa quere.
ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(que ância distante perto chora?)
tudo é incerto e derradeiro.
tudo é disperso, nada é inteiro.
ó portugal, hoje és nevoeiro...
é a hora!”

fernando pessoa, mensagem - poemas esotéricos

27 março 2013

tempo de grândolas


com o céu a querer desabar-nos em cima, escondendo a serra d'ossa atrás de espessas cortinas de água, olhávamos, ao fundo, a vila do redondo, enquanto esperávamos que o tempo e a chuva se afastassem para longe, pela planície amiga. talvez a caminho das terras dos sacaios, que fazem uns paios com excelente sabor, à antiga.  

deixámos a estrada e ali, debaixo daquela azinheira, companheira solidária de mais uma jornada, pensámos neste tempo de grândolas. pensámos em chipre. e no mais que se segue. e quem se segue agora. agora que perderam o rebuço e mostraram mais uma vez, a face. e chipre é apenas o início.
esta é a face de uma certa europa, capitalista, pró fascista, que começa a agigantar-se sobre os povos mais fracos e a preparar a bota nazi.

por muito menos se fizeram revoluções. 
porque não se unem os povos explorados para acabar com o sistema capitalista?
porque é que continuamos à espera que a solução exista dentro deste sistema, se ele está contaminado pelo poder do capitalismo internacional?
quando é que surge um novo lénine, para guiar os povos, rumo a tempos novos?

20 março 2013



chegaste, primavera

enfim!

vinhas nas asas de uma andorinha
e pousaste
 em perfumes e verdores
pelo jardim

eu
passei o inverno todo
 à tua espera

agora que voltaste
primavera

fica sempre comigo

não te partas mais de mim


11 março 2013

uma luz que se apagou



quando os campos  começam a tingir-se de cores, atapetados por uma erva vermelha, que cresce rasteira nos montados...

quando afago o tronco, rude, das azinheiras e o sinto macio, coberto de musgo

quando uma brisa que busco, me transporta pelo campo aberto
à planície dos odores  intensos da tremocilha...

quando oiço o cuco cantar e é já primavera... ainda que o calendário diga o contrário...

quando por todo o lado a vida fervilha....

ainda assim, a morte me surpreende.
consegue sempre surpreender-nos, a morte,  levando aqueles que,  mesmo já o sabendo nós,  partiriam antes...  nunca a esperamos.
e é sempre surpeendente.
apanha-nos inocentes e desprevenidos.

e pensamos
um dia também o meu corpo partirá
e o meu ser deixará
de ser
e deixarei de saber
que a primavera chegou
qual o cheiro da terra lavrada
porque cantam as rolas em revoada
um certo voar da arvéola, ao fazer o ninho
como corre, assim ligeiro, aquele barranquinho
que uma trovoada súbita inundou

e o meu corpo será nada
nem já pó restará dele

talvez apenas, e tão só, uma lembrança
que trago colada à pele
do que fui
do que ainda sou

mas depois e depois...
nada

que sei eu, de quem, há mil anos por aqui andou

talvez reste de mim
uma luz que se apagou

07 março 2013

mulher





«Porque amanhã se celebra o DIA INTERNACIONAL DA MULHER, porque muitas das metas do «feminismo» estão ainda por alcançar, também no nosso país. E porque... sim, isto não tem sido nada fácil e temos a obrigação de contar como foi, num passado que é tão presente, deixo-vos um testemunho pessoal. Para que não se apague a memória! 

Até à década de 70, na classe social a que eu pertencia, era escasso o número de mulheres que faziam uma escolha de vida idêntica à minha, ou que alinhavam nas iniciativas da Oposição Democrática. Havia uma espécie de cerco social, familiar e religioso, a entrincheirá-las – mesmo nas hostes oposicionistas da geração dos mais velhos, reféns de uma moral social, mais ou menos assumida, em que “a política era para os homens, e à mulher cabia um papel estabilizador da família, o amparo dos filhos e pais e o repouso do guerreiro”. Talvez por isso, são bastante conhecidas as mulheres que, durante o fascismo, se destacaram publicamente, e a sua memória individual tem sido, de algum modo, preservada. Se, hoje em dia, falamos de mulheres na oposição ao regime – ligadas a diferentes sectores ideológicos – há, de facto, dezenas de nomes de dirigentes estudantis, de prestigiadas figuras políticas e de intelectuais que nos vêm à cabeça: já desaparecidas ou ainda vivas, integram o património humano da Resistência urbana contra a ditadura. E, no entanto, desde a década de 40, era bem mais expressiva a representação das mulheres trabalhadoras em muitas regiões do país, nas lutas económicas e nas greves, quer operárias, quer na agricultura. Durante a ditadura fascista, a ala das mulheres do Forte de Caxias espelhava frequentemente essa realidade. Mulheres sem nome escrito na memória da oposição democrática. A Catarina Eufémia cedo se tornou um exemplo dessas outras combatentes. Assassinada a tiro pela GNR, quando reclamava um mísero aumento para as ceifeiras do latifúndio em que era assalariada, surgiu, ainda sob o fascismo, como ícone dos duros combates travados por elas, pelo direito ao trabalho e por um salário minimamente condigno. Porém, haverá centenas e centenas de mulheres que não foram nunca homenageadas; a quem o estado democrático não deu nunca voz na comunicação social; e que, só pontualmente, testemunharam publicamente as suas vivências. São a face feminina de um sem número de participantes activos nas lutas contra a ditadura - obreiros, eles e elas, das condições para a implantação da democracia. Ao longo de 48 anos, houve milhares de pessoas que foram detidas, que foram presas e torturadas, que morreram, que foram barbaramente espancadas, que sofreram o exílio, que foram expulsas do ensino, que perderam o trabalho, que se recusaram a partir para a guerra contra os povos das colónias. São batalhões de mulheres e homens abnegados, devotados a uma causa, sem anseio de heroicidade. Pagaram o custo da repressão por darem passos em frente, arriscando tudo, empenhando-se em lutas por melhores condições de vida e de ensino e por direitos de cidadania, na perspectiva de virem a alcançar um estado de direito, em paz, em democracia e com liberdade. Lutas que foram fragilizando o regime. A Revolução de Abril não nasceu do nada.

Mas a repressão e a brutalidade das polícias políticas e afins abatiam-se ferozmente sobre as mulheres, qualquer que fosse a sua origem social, sempre que se atreviam a enfrentar a ditadura. Com especificidades que faziam delas vítimas de violência acrescida, pela sua condição de mães, pela sua maior fragilidade física, pela sua maior vulnerabilidade. A condição feminina e a maternidade tornavam-nas alvos de um tratamento especial. No momento da prisão, nos interrogatórios e na tortura, muitas mulheres eram ameaçadas, chantageadas e humilhadas. Eles ajustavam, criteriosamente, a cada estrato social, as ameaças que faziam, os espancamentos, as palavras que usavam, as ordens que davam. Mas as torturas eram psicologicamente estudadas para nos provocarem na nossa fragilidade física e nos violarem no nosso pudor feminino, com o objectivo de verem a primeira cedência na firmeza que os desesperava. Depois, era a escalada da violência. Se é sinistro todo historial repressivo da PIDE, é aterradora a narrativa que nos chega de mulheres vítimas das atrocidades a que foram submetidas. Sobressaem como particularmente maquiavélicas.
O encarceramento de companheiras com os seus filhos tornava extraordinariamente doloroso o tempo de prisão a que eram submetidas. Vivi durante meses numa cela com a Maria, uma trabalhadora rural que tinha consigo uma criança de cerca de um ano e meio. Quatro metros quadrados, se tanto, que mãe e filho partilhavam com mais duas presas. Eram já perturbantes os sinais de transtorno psicológico da criança e continuava sem poder ir ao recreio e privada de espaço e de sol.
Parecendo condenadas a permanecerem ocultas na História recente do nosso país, estas mulheres vêm, aos poucos, saindo do anonimato. Acontece pela escrita de memórias de antifascistas, ou em documentos cinematográficos como o de Susana Sousa Dias, mas é sobretudo pela mão de historiadores (nomeadamente de Irene Pimentel, uma mulher que não pára na sua investigação apontada ao fascismo) que vemos nomes e factos a emergirem para níveis de divulgação. 
Estou certa de que as crianças e os jovens precisam deste género de testemunhos, e de narrativas que ultrapassem as “frases feitas”, que pouco lhes dizem, para se abrirem ao conhecimento da realidade da ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Só assim os parágrafos frios e secos dos manuais escolares - em que se aborda este período negro da História de Portugal - ganham, aos seus olhos, vida e emoção. Há uma História viva ainda ao alcance destes jovens, o que é meio caminho andado para a motivação que, no futuro, pode fazer deles os activistas que hão-de render-nos num movimento que não deixe apagar a memória.

(Excerto de uma intervenção na UMAR, em Novembro de 2012)
por helena pato, via facebook

todo o tempo é de poesia



em manhãs de tristeza
rego o jardim com poesia

mas esta manhã foi ficando
brilhante, radiante
disposta a inundar a penumbra
naquele recanto do jardim
onde a tristeza
já cobria os muros
de verdes musgos 
e hera

oxalá as gaivotas não transformem a esperança
em tempestade

06 março 2013

el comandante chavez



"el comandante" chavez partiu 

deixa órfãos de esperança
 os pobres da venezuela,
da américa latina,
e um pouco, todos nós

sentiremos saudade 
da coragem
com que enfrentou o imperialismo yankee

oxalá a revolução bolivariana 
o povo pobre e oprimido da venezuela
saibam guiar-se
pelos caminhos da grande incerteza 

que ora enfrentam

estamos com eles
no coração


16 fevereiro 2013

adivinhando chuva


acordei neste sábado ao som da flauta do amola-tesouras.
adivinha chuva, dizem, 
e geralmente é em dias  assim, escuros como o de hoje, que aparece. 
deve ser das poucas alturas em que tem trabalho...

ali está, em frente aos cabeleireiros glória, na rua vasco da gama,
 aquele homem, ainda jovem, magro, com ar de mau passadio,
na sua bicicleta, amolando as tesouras da cabeleireira.

pergunto-me como pode sobreviver esta pessoa, amolando tesouras, ou facas...mas quem é que amola facas, ou amanha guarda-chuvas, se os chineses os vendem por meio tostão?!

deve ter família...

andando por aí, de terra em terra...

é um tendeiro, "uma espécie de cigano" (dizia-se lá no alentejo com um misto de temor, ou inveja),
 sinónimo de gente que, sem ser marginal, vivia, por sua livre escolha, à margem da sociedade.

a sua profissão é um perfeito anacronismo histórico, neste tempo digital

eu não desejo mal ao tendeiro, mas gostava que hoje o sol brilhasse.

e enquanto o sol não chega, vou preparar-me para mais uma manifestação


15 fevereiro 2013

revolta-te nas ruas



mas não percas mais tempo
começa já este sábado
16 de fevereiro 2013
numa qualquer capital de distrito
mais perto de ti


13 fevereiro 2013

o menino da praia dos amendoins

o menino da praia dos amendoins

na praia dos amendoins tomava-se banho em qualquer altura do ano. bastava uma pessoa querer, mesmo que o sol aquecesse pouco... até nos dias invernosos, quando um vento fininho, de norte, soprava afiado, como gumes de facas amoladas enfiando-se debaixo da pele... ainda assim,os rapazes, destemidos, iam ao banho. 

sapatos (quem os não tinha era menos esse trabalho), calças, camisolas e cuecas voavam pelos ares. os corpos franzinos, em pelota, arrepiados. como se todos os grãos de areia da praia tivessem voado para se colar à pele. 

desatavam-se todos os nós nas pernas e a corrida só terminava quando a água, gelada, roçava a virilha. mergulho rápido e toca a fugir.

a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor. 

em certos dias, a praia dos amendoins fica envolta em bruma cinzenta e tem o cheiro dos ovos podres, quando se partem (como quando o menino os vai buscar à estação do barreiro-a,na pasteleira. os ovos vêm do algarveenvoltos em palha, dentro de cestos de cana) e a água fica cor de prata e os corpos prateados, brilham...


a pasteleira. transportava ovos, que se vendiam para a pastelaria da dona zulmira, para o sr. real e outras casas do barreiro

às vezes, as sirenes dos barcos dos amendoins acordavam o menino mais cedo. saltava da cama, vestindo-se à pressa. a mãe já saira, com os ovos para o mercado, o pai não se sabe quando volta... que uma máquina a vapor tem lá os seus caprichos e se lhe dá para avariar na serra do algarve... não se pode adivinhar quando chegará ao barreiro.


o menino, com asas nos pés, alcança a praia num ai. é o primeiro a chegar. a praia ainda vazia... da cor que ele mais gosta, toda coberta de amendoins. só para ele. 

hoje, a escola conde ferreira bem pode esperar. 

no porto, os barcos prosseguem a sua azáfama interminável, na descarga dos amendoins para a fábrica dos óleos.
 


09 fevereiro 2013

princesa do amendoal


passeias pelo amendoal 
o teu olhar doce
de tristeza

és princesa
presa
de uma lenda antiga

é antiga 
a lenda do amor

mas a tristeza
princesa
não a deixes presa
solta-a

o amendoal
é a vida

06 fevereiro 2013

nas tuas mãos



nas tuas mãos
guardas
belas
frágeis
delicadas
pétalas
de amendoeiras em flor

ao pé delas
belíssimas são
as tuas frágeis
delicadas
e humanas
mãos



31 janeiro 2013

26 janeiro 2013

a vida


hoje brilha o sol

fosse a vida assim
simples
bela
como o trinar das aves
que escuto
escondidas na folhagem
dos laranjais
que ainda existem
pelo barreiro velho
em velhos quintais
como se anunciassem a primavera

do seu gorjeio
saltam colcheias
como as que me chegam
em certos dias
vindas
da cooperativa dos corticeiros
 escola de jazz do barreiro

as aves
cantam
 [em]cantos que soltam
como se à sua volta
tudo fossem campos
verdes

é essa esperança
que me diz
que a primavera há-de chegar
um dia destes


24 janeiro 2013

o tempo. revisitado


sob a terra húmida
no recorte
em camadas de tempo
as marcas

breves
fugidias
à espera de ser encontradas

quem as deixou não sonhava
ou sequer imaginou
o que elas representavam
para quem as encontrou

pedras
muros
casas
oficinas

que histórias abrigam essas paredes
quantos abraços 
mãos que se tocaram

os carinhos e os afagos
trocados
entre o dono e o pequeno cão
sepultado com cuidado

marcas
civilização
distantes

tempo terrível
(e hoje não é?)

mais de dois mil anos
naquele pedacinho de terra
lavrada
semeada
onde já cresceram searas

nesse bocado de terra
sucessivamente ocupado
vivido
por eles
por nós
homens
mulheres

diferentes os tempos
quase o mesmo modo de pensar

ainda agora
será a terra que o condiciona, ao modo de pensar?

quem o saberá?
aqui neste presente passado
encontrei-me com essas marcas
ou elas encontraram-se em mim

23 janeiro 2013

caos no cais


amanhecia no cais
 e a mais serena luz nascia
anunciando um 
outro
dia

o que nos trará 
de novo
o novo
dia

no porto do barreiro
 velho cais da cuf
nascia
o caos de um novo dia


18 janeiro 2013

falemos agora de decência


texto do escritor mário de carvalho que me foi enviado por e-mail, que agradeço
Falemos agora de decência. É um conceito que não tem que ver com o sapatinho de vela no verão, o esgoleiramento da camisinha branca ao fim-de-semana, os gestos miúdos do chazinho ou a mãozinha no volante do Porshe, nem com os objectos «de marca» que irmanam paradoxalmente os extremos do espectro social. Vadios de cima e vadios de baixo (Eça confrontava-os no Chiado) entusiasmam-se pelos mesmos efeitos. Apuradas as razões, hão-de encontrar-se num subterrâneo fio de ligação, mais ou menos disfarçado: frivolidade iletrada. Aos de cima, chamou a doutora Isabel Jonet «elite», por manifesto equívoco. Como se no país não existissem cientistas, arquitectos, engenheiros, artistas, professores, médicos, advogados, e tudo tivesse que rasar-se pela bitola de alguns economistas, banqueiros, «gestores» e ociosos.
Um dos preceitos estruturantes que escora o nosso ordenamento jurídico e funda a confiança nos comportamentos eticamente regulados vem do direito romano e das ancestrais práticas de boa-fé e exprime-se no brocardo: «pacta sunt servanda», ou seja, os compromissos são para se cumprirem. E sobre isto não há expedientes de contabilistas, não há casuísticas habilidosas, não há reservas mentais, não há passes de futebolista atendíveis. Há uma obrigação? Cumpra-se.
Mas a plutocracia que tem mandado nos destinos dos portugueses transportou para o Estado os seus pequenos hábitos de manobrismo, de expedientes, habilidades, truques, quando não de falcatrua, que retiraram à entidade a sua natureza de «pessoa de Bem». Ser «de bem» é uma noção que está fora do alcance de quem apenas acha meritórios o lucro e as negociatas. Coisa abstracta e «intelectual», própria de «otários» para utilizar a linguagem das cadeias que acaba por não ser muito diferente, numa perspectiva de extremos tangenciais
É assim que vemos governantes a colocarem o Estado Português na situação de violar os compromissos tomados para com os seus trabalhadores e aposentados. A ignorar prazos contratuais. A incumprir as promessas juradas perante o seu eleitorado. A fazer negaças às própria constituição. De modo tão flagrante e provocatório que lhes fez perder a legitimidade formal que detinham à partida.
Ora quem se coloca fora da lei está a pedir um tratamento fora da lei. Mas eles não estão apenas a pedir pedradas. Estão a pedir o confisco dos seus relvados, dos seus automóveis, das suas casas, das suas piscinas, dos seus valores mobiliários, dos seus quadros, dos seus cavalos, das suas jóias e luxos e a supressão de todas as mordomias. Não que isso seja economicamente relevante. Mas significa a reposição de um mínimo de decoro.
Ser-lhes-á então tarde para perceber que numa situação de ruptura a própria polícia mudará de campo. Certos jornalistas descobrirão escrúpulos éticos insuspeitados. Economistas e contabilistas virão dizer que foram mal interpretados e nunca proferiram aquelas coisas. Irromperão múltiplos vira-casacas e desertores da tirania de mercado, dispostos a pisar a livralhada de Milton Friedman e a cuspir no retrato emoldurado da Senhora Thatcher.
E lá terão as pessoas de bom senso de arriscar a reputação e a pele para evitar que se maltratem umas dúzias de plutocratas amedrontados e seus serviçais de fatinho, rojados pelo chão, de folha de cálculo à mostra.

MdC
20-12-2012

07 janeiro 2013

A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social - IV parte



Bairro das Palmeiras, Barreiro. Foto Jean Gaumay, 1975

4. Poluição: os “gases da CUF”
Num contexto de transformações profundas, em que o Barreiro se tornara um dos centros mais industrializados do país, a intensificação da produção fabril representou a ruptura definitiva com a paisagem tradicional.
As actividades industriais da CUF fizeram-se sentir desde os primeiros tempos, transformando a paisagem e o ambiente por completo, num processo destrutivo que, para os padrões actuais seria completamente inaceitável.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de Alfredo da Silva, em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta das mudanças. Referindo-se às grandes chaminés que marcavam o perfil do Barreiro, assinalava o «odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…»[1], provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial, em permanente ebulição.
Na verdade, nada voltará a ser como antes, na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a sua variada fauna marítima escapa à destruição, provocada pelos líquidos e lamas, resultantes dos fabricos químicos.
Se é certo que, à época de instalação da CUF no Barreiro, não existia ainda uma consciência ecológica clara, os efeitos da poluição eram contudo, particularmente visíveis e começavam a preocupar a Câmara Municipal.
Com efeito, 6 anos após a laboração da CUF, a Comissão Executiva da Câmara, solicita ao Sub-delegado de Saúde do Barreiro, um parecer «sobre o fumo das diversas chaminés da Companhia União Fabril que se julga muito prejudicial para a saúde pública.»[2].
As preocupações com a saúde e com o ambiente ressaltam, igualmente, de um ofício do Centro Socialista do Barreiro, em que se pedem enérgicas providências «sobre o mal que está causando à vegetação e às pessoas que comem hortaliças, o ácido sulfúrico da Fábrica da União Fabril.»[3]
Na continuidade destes registos, encontramos em 11 de Maio de 1916, uma reclamação dos moradores do Largo das Obras «por causa das águas dos poços deste sítio não estarem em condições de serem utilizadas para consumo, devido a infiltrações vindas da fábrica da Companhia União Fabril.»[4]
A expansão da CUF, com o consequente aumento da poluição industrial, levantava as mais sérias reservas à Comissão Executiva da Câmara que, em 24 de Maio de 1917, enviou um protesto ao Administrador do concelho, opondo-se à construção da «nova fábrica de sulfuretos da Companhia União Fabril, desta vila»[5], por considerar que seria prejudicial à população do Barreiro.
O problema da poluição vai intensificar-se e encontra repercussão na imprensa local, nomeadamente no jornal “Eco do Barreiro” que, a partir de Novembro de 1929 começa a publicar artigos, alertando para a gravidade da situação. Mas é em 1930, que o “Eco do Barreiro” enceta uma campanha de denúncia pública, a que se vai associar a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, promovendo um abaixo-assinado, convidando a população a subscrever um documento, onde pode ler-se o seguinte:
«Se por um lado a CUF muito beneficiou o Barreiro, por outro lado, nalguma coisa o tem prejudicado […]
Estragou-nos uma bela praia, cortando-a a meio e sujando-a de tal maneira, com ácidos e outros desperdícios, que hoje as suas areias estão queimadas, as águas amarelas e sujas e os banhistas, mesmo os da terra, já fogem, sem falarmos nos que vinham, do Alentejo e regiões circunvizinhas…»[6]
Durante meses sucessivos, em artigos bastante críticos, aquele semanário foca o desinteresse da CUF e da sua administração, de Alfredo da Silva em particular, para resolver o problema dos “gazes”. Argumentando contra os fumos venenosos que saem das fábricas, refere que a população que é intoxicada é a mesma que enriquece os cofres do patrão da CUF, a quem apela «quási de joelhos e mãos postas».
«Alfredo da Silva não se comove! Continua frio como gelo!
E porque não se comove esse homem, esse grande industrial deshumano?
É porque não seja de carne e osso, como qualquer de nós?
Não! Ele é de carne e osso, mas, no lugar do coração, tem um cérebro de grande calculador ultra-egoísta e no lugar da consciência, esse vasio enorme, tem os cofres colossais da sua desmedida ambição.»[7]
A poluição industrial da CUF”, infringindo até as normas legais da época, é responsável pela destruição de pequenas hortas, jardins e pomares, de gente humilde que os cultiva para ajuda do magro sustento familiar mas, também dos prédios urbanos, agredidos por aquele flagelo, tornando o Barreiro uma terra negra e fumarenta.
«Nada escapa às rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos, morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos milhares de pessoas!»[8]
A fim de acompanhar os problemas ambientais, causados pelos fumos que chegavam a todo o lado e fomentavam um ambiente verdadeiramente doentio na população, a Câmara criou uma Comissão Municipal de Higiene que entrou em vigor em 1929. De tempos a tempos emitia pareceres, que pareciam cair em saco roto, nos quais se considerava o Barreiro como uma terra insalubre, devido à grande concentração industrial existente.
Um desses pareceres, datado de 1947, pedia providências contra as emanações expelidas pelas fábricas da Companhia «as quais até provocam vómitos e náuseas aos seus habitantes»[9].
Como a autarquia reconhece em 1948, não era só o centro da vila que era afectado mas até os bairros e freguesias limítrofes, pois não existiam zonas ajardinadas suficientemente defendidas da influência dos fumos da CUF «que sejam próprias para as crianças ou para os adultos.»[10].
No final da década de 50, o parecer sobre o Ante-Plano de Urbanização do Barreiro, refere que as indústrias químicas da CUF continuavam a libertar gases tóxicos que «arrastados pelos ventos do norte, tornam insalubre e tóxica toda a zona moderna da vila.»[11].


Poluição,Barreiro, anos 70(?)

Os problemas ambientais terão continuidade nas décadas seguintes e permanecem ainda hoje, como uma das heranças mais negativas do processo de industrialização que, durante perto de um século, marcou a vida e a paisagem no Barreiro, tornando-se uma das suas (piores) imagens de marca.

 Notas:
1.- MIGUEL, António Dias, citado em ALMEIDA, Ana Nunes – A Fábrica e a Família Famílias operárias no Barreiro, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 2ª ed., 1998, p. 142
2. - AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15
3. - Idem
4.- AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15, fl.31
5. - Idem. fl. 107
6. - A velha Questão dos Fumos», Eco do Barreiro, 5 de Junho, 1930, 1ª página
7. - «Gazes asfixiantes sobre a população do Barreiro – O crime de um potentado» Eco do Barreiro, 15 de Novembro, 1930, 1ª página
8. - «Bradar no Deserto Gazes da CUF» Um Olhar sobre o Barreiro, Iª Série, nº 2, 1989, p.31
9. - AMB, Comissão Municipal de Higiene, CMB/B/Q/04/, Cx. 2
10. - AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51, p. 34
11. - Arquivo do Ministério das Obras Públicas, «Parecer nº 2715 do Conselho Superior das Obras Públicas», fl. 54


20 dezembro 2012

ancorado em terra



um mastro ancorado 
em terra
na praia do mexilhoeiro
preso 
encalhado 
no barreiro
mastro amarrado 
em terra
olhando
lisboa
fronteiro
ao rio
fronteira

bandeira
que ao vento flameja
vento sem sorte 
a bafeja 
bandeira sem norte

assim vais tu
país amarrado
  
amarrado
ao passado
e não o vês 
o passado

um passado passado
duro
odioso
odiado

é para lá que caminhas
povo triste
povo manhoso
povo teimoso
que nem um burro

como se não soubesses

como se desconhecesses
o caminho
onde te teva 
esse caminho

18 dezembro 2012

A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social - III parte

Bairro no Alto do Seixalinho, Barreiro, 1938

3. Doenças

Por força das circunstâncias em que eram obrigados a viver, a sobrevivência era um desafio diário para muitos operários do Barreiro e suas famílias. Viver em bairros degradados e promíscuos, onde faltavam as condições mínimas para uma vida equilibrada, constituía um passo rápido para o desenvolvimento de doenças, originadas pela falta de saneamento básico e deficientes condições de limpeza.
«…como é possível higiene nas pocilgas e mançardas que servem de moradia a tanto milhar de desgraçados que mal ganham para não morrer? Como é possível o isolamento naquelas casas em que mais de uma família habitam, e em que pais e filhos, numa promiscuidade infame, vivem lado a lado, no mesmo aposento?»[1]

Certos bairros – e até uma grande parte da vila – transformavam-se em locais muito perigosos para a saúde, surgindo aqui e ali focos de tifo.
Foi o que sucedeu em Setembro de 1926, atribuindo a Junta de Freguesia do Barreiro tal fenómeno, à falta de limpeza na vila, que classificava como «péssima»[2]. Tais calamidades, por vezes vitimavam alguns indivíduos e atingiam toda a família, deixando-a incapacitada para o trabalho e em situação de indigência e miséria absolutas.
Segundo revela um Relatório da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, os problemas com a assistência médica, constituíam uma das maiores dificuldades com que se defrontava o executivo, entre os anos de 1930/1934. Especialmente a falta de equipamentos como centros de saúde e hospitais, obrigava ao transporte dos doentes para Lisboa. 

Queixava-se a Câmara por ter de pagar a hospitalização dos doentes pobres, o que representava um encargo «agravado sobremodo pela circunstância da Vila sede do Concelho ter uma população de 17:000 habitantes, na sua grande maioria constituída pelas classes trabalhadoras, sempre crescente, por se encontrar a uma pequena distância de Lisboa e ser, portanto, um centro de atracção na conquista do trabalho e por ser testa de caminho de ferro.»[3]


Pátio, Bairro das Palmeiras, ou Bairro da Folha, Barreiro, 1938

A hospitalização de doentes por parte da Câmara resultava, de um Decreto-lei de 1933, que considerava como doentes pobres “os indigentes e os indivíduos que vivam exclusivamente do seu trabalho, se dele auferirem apenas o indispensável para a sua manutenção” [4].
Ora, segundo a própria Câmara naquela época, apenas «uma insignificante percentagem da população do Barreiro é que não estará em condições de poder aproveitar do benefício concedido»[5], tendo a Comissão Administrativa emitido até à data mais de 700 guias de admissão nos Hospitais Civis de Lisboa, além dos doentes que entraram no Hospital-Escola de Santa Marta, no Instituto Bacteriológico e no Instituto de Oftalmologia. A Câmara queixava-se que a despesa era excessiva, para os seus recursos financeiros e propunha a construção de um hospital.
Por outro lado, a má nutrição contribuía fortemente para o aparecimento da tuberculose, em resultado de uma alimentação desequilibrada, minguada e desprovida, em última análise pela fome, o que não era difícil de suceder neste meio. O problema ainda se podia agravar mais porquanto, num espaço em que tudo se partilhava, o contágio era rápido e tanto podia ser uma família inteira, como uma sala de aula.
A tuberculose parecia constituir um tal flagelo que, até as actividades de carácter social que juntassem muitas pessoas, representavam um perigo para a saúde pública, pelos riscos de contágio.
«Pela autoridade local foi determinado que as sociedades de recreio locais não possam realizar mais de dois bailes por mês, a fim de evitar a propagação da tuberculose.»[6]
A respeito da tuberculose, sobretudo nas crianças em idade escolar, cita-se  aqui uma afirmação  do Presidente da Câmara Municipal do Barreiro Joaquim José Fernandes,  contida num relatório de 1948, onde pode ler-se o seguinte:

«Há poucos meses ainda, um médico desta vila afirmava que mais de 70% das crianças do Barreiro acusavam primo-infecções tuberculosas»[7] e referia mais: que os próprios professores primários observavam não ser possível exigir um rendimento intelectual mais elevado às crianças, mesmo em épocas de exame, em virtude de serem «raras as que podem resistir a um trabalho mais intenso sem acusarem graves sintomas de fadiga.»[8]

Referência ainda, para uma informação que a Comissão Municipal de Assistência, enviou ao Delegado do Dispensário do Barreiro em 1946, onde aconselhava a criação de uma sala de espera para os doentes. Diariamente, à porta daquele estabelecimento, esperavam consulta muitas pessoas e a presença «desses infelizes na rua, permanência que é assaz desagradável para todas as pessoas que transitam junto dessa instituição» era incómoda, pela exposição pública do problema.

Por fim, e para finalizar este tema, refira-se que, a tuberculose nos anos 40 era uma grande chaga social e um dos sintomas mais visíveis, das deploráveis condições de vida de parte significativa da população do Barreiro.

Notas:
1. - GAGO, Alves - «A tuberculose e a higiene», Eco do Barreiro, 8 Julho, 1931, p.6
2. - Junta de Freguesia do Barreiro, Livro de Actas da Junta, 1923-1931
3. - Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), «Comissão Administrativa Relatório 1 de Maio de 1930 a 31 de Dezembro de 1934», Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, p. 55
4. -  D.L. nº 23:348, de 13 de Dezembro, 1933
5. - AMB, «Comissão Administrativa Relatório 1 de Maio de 1930 a 31 de Dezembro de 1934» p. 56
6. - GAGO, Alves - «A tuberculose e a higiene», Eco do Barreiro, 8 Julho, 1931, p.6
7. -AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51, p. 34
8. -  Idem