16 dezembro 2012
13 dezembro 2012
10 dezembro 2012
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social II parte
António Patacas e seu irmão João. António começou a trabalhar na CUF tinha 9 anos. Foto do próprio.
2. Sobrevivência quotidiana
Carências alimentares, desemprego, pobreza e exclusão
Em Outubro de 1918 o
Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios realizou um inquérito sobre o consumo
nos meios operários, chegando à conclusão que a “alimentação tipo” de uma
família operária apresentava graves carências proteicas, com um fraco consumo
de carne, leite e seus derivados, mas era também insuficiente em termos
calóricos, não atingindo em muitos casos as 3400 calorias, consideradas «mínimo
vital», para que um indivíduo pudesse trabalhar e sobreviver.
«Com um consumo alimentar
que mal chegava ao «mínimo vital», o proletariado não podia deixar de
apresentar numerosos sintomas de uma malnutrição que estava na origem das
principais causas de mortalidade entre as classes laboriosas – a tuberculose e
o tifo –, a par de uma das mais fortes taxas de mortalidade infantil da
Europa.»[1]
Numa altura em que a
Europa é devastada pela I Grande Guerra, o país sofre os efeitos da falta de
alimentos, uma inflação galopante, a escassez das matérias-primas, o
encerramento de muitas indústrias, graves crises de desemprego e miséria.
«Em toda a parte, faltaram as
matérias-primas e os alimentos. Quando os havia, era preciso comprá-los no
mercado negro, a preços loucos, ou em bichas gigantescas. A inflação
agravou-se. Muitas indústrias tiveram de cessar actividade, por falta de
abastecimentos.»[2]
Os livros de Actas da
Junta de Freguesia do Barreiro referenciam um quadro geral de carências e
privações de todo o tipo, com o espectro da fome a colocar-se diariamente,
desde os finais da I República.
Em 5 de Abril de 1923,
face às constantes solicitações de ajuda, a Junta de Freguesia do Barreiro
elabora uma lista com os nomes dos indigentes da freguesia, da qual constavam
112 pessoas, a fim de lhes ser distribuída uma oferta do Governador Civil, no
valor de 2$50[3].
Na véspera do Natal de
1925, a Junta do Barreiro, resolve oferecer um bodo aos pobres, mas a afluência
de pessoas foi superior ao esperado. Impotente, a Junta declarava: «nesta
freguesia a miséria que lavra em muitos lares é muito grande.»[4]
Os Livros de Actas dos
anos que se seguem, mostram sinais que o problema da pobreza e da mendicidade
não parece atenuar-se, pela menção constante a bodos e a esmolas efectuadas
pela Junta que, recorria a diversos meios para auxiliar os mais necessitados. É
assim, quando em 14 de Julho de 1931, a Junta do Barreiro procede à
distribuição de uma esmola «à pobreza envergonhada do Barreiro para o que se
irão procurar algumas creaturas que vivem na obscuridade...»[5].
O desemprego e a
penúria eram tais que, muitas pessoas recorriam à mendicidade nas ruas. Para
diminuir a impacto da situação, a Junta concedia ajudas monetárias para
transporte, a pessoas desempregadas, que quisessem regressar às suas terras.
Cita-se o caso de
Arminda Jesus, a quem foram atribuídos 5$00 para ajuda da passagem para a sua
terra, em virtude de o seu marido se encontrar desempregado[6].
O mesmo auxílio foi concedido a uma indigente, para que pudesse voltar para
Alcobaça. A Junta deliberou também socorrer a indigente Julieta da Conceição
com 10$00, para o transporte de duas filhas menores, para os asilos onde se
encontravam internadas. Regista-se ainda a atribuição de um subsídio de 15$00 a
um menor de 13 anos, de nome Albano para auxílio «da passagem para Oliveira de
Frades, a fim de se reunir a seu pai e seu avô, visto encontrar-se na mais
extrema miséria, mendigando pelas ruas da vila.»[7]
Se até aos anos 30 Portugal era
ainda um país predominantemente rural – com 80% da população a viver fora dos
centros urbanos com mais de 5 mil habitantes[8] – essa
feição começava agora a alterar-se, com o desenvolvimento de alguns pólos
industriais à volta dos grandes centros de Lisboa e Porto. O Barreiro vem a
ser, um dos casos mais exemplares.
Um dos primeiros actos desta
Comissão, criada em 1946, foi a elaboração de um Relatório dirigido ao Director
Geral da Assistência/Ministério do Interior que, espelha a situação que se
vivia no Barreiro. Começa assim:
«A vila do Barreiro,
centro industrial dos mais importantes, constitui simultaneamente importante
fulcro de pobreza e miséria. A par da população trabalhadora há, no Barreiro,
um considerável número de desempregados, que procuram trabalho, que buscam o
pão de cada dia. Vêm de todos os pontos do país, atraídos pela miragem de uma
colocação, que raros conseguem. As fábricas têm os seus quadros completos e,
por isso, muito difícil se torna, hoje em dia, arranjar nelas colocação.
Estes homens, estas
mulheres que vem procurar trabalho gastam na viagem para aqui os seus últimos
recursos. Não havendo trabalho deixam-se ficar na esperança e ilusão de que um
dia haverá. E vá de estender a mão à caridade, vá de procurar nas entidades
públicas subsídios indispensáveis ao seu sustento, vá de revoltar-se contra
tudo e contra todos.»[9]
A insuficiência de
meios, levava famílias inteiras, a socorrer-se da assistência social,
restando-lhes somente o apoio da Sopa dos Pobres ou a ou a Junta de Freguesia e
mais tarde, a Comissão Municipal de Assistência.
No seu balanço anual
do ano de 1945, a Comissão Administrativa da Sopa dos Pobres registou a
distribuição de 80.975 refeições gratuitas, com uma média mensal de 6746 refeições,
das quais 224 refeições diárias.[10]
Muitos dos que acorrem à Sopa
dos Pobres são desempregados, alguns com famílias numerosas de 7 e 8 pessoas e há uma com 10.[11]
Os Livros de Actas da
Comissão Municipal de Assistência fazem eco das situações de miséria que se viviam no Barreiro
e como reflexo deste fenómeno, verifica-se o aparecimento de um variado leque
de instituições e associações de apoio aos pobres e carenciados, nos
finais do conflito mundial.
Citamos algumas em
funcionamento em 1946: o Socorro Social, com um serviço denominado “Gota de
Leite” destinado a crianças; as Comissões Municipais de Assistência do
Barreiro, Palhais e Lavradio; a Sopa dos Pobres; a Sopa dos Desempregados,
ambas com cozinha própria onde forneciam refeições gratuitas; o Instituto dos
Ferroviários; o Asilo D. Pedro V, o Albergue para velhos, a Misericórdia.
Todas estas
instituições facultavam apoio, à população pobre do Barreiro e a idosos,
especialmente os que aqui chegavam provenientes «de outras regiões do País
(especialmente agrícolas), com poucos recursos para sobreviverem com dignidade
nas suas terras e que passam a recorrer à Assistência, pela carência de meios
de subsistência e na doença, quando não encontram logo a almejada ocupação».[12]
Comissão Municipal de Assistência. Barreiro, 1947.
Em 18 de Maio desse
ano de 46, a Comissão Municipal de Assistência do Barreiro, enviou um ofício ao
Governo Civil de Setúbal, dando conta dos pedidos de auxílio que chegavam à
instituição. Pediam leite para crianças e doentes, a farinhas para lactantes
filhos de pais extremamente pobres, pagamentos de cautelas de penhores,
especialmente roupas e utensílios de trabalho e pagamento de rendas «de
barracas a indigentes».[13]
A Comissão não era imune às
influências políticas, conforme se pode verificar com o que sucedeu em vésperas
das comemorações do 28 de Maio. Nesta data, o Presidente da Comissão de
Assistência, alertava o Presidente da Câmara Municipal, para a passagem do
aniversário da designada «Revolução Nacional». Sugeria que autorizasse o
pagamento de várias cautelas de penhores, o que, segundo as suas palavras
«seria bastante agradável para os interessados e ao mesmo tempo lhes fazia ver
que não haviam sido esquecidos nesta ocasião em que apelaram para V. Ex.ª.»[14]
Em tempo de poucos
recursos e ausência quase total de bens materiais, nada escapava ao penhor, nem
as peças de vestuário, mesmo as mais íntimas. Da consulta de uma lista de
penhores, em que tudo eram objectos usados, constavam 2 cobertores de lã e
algodão, 2 xailes de lã, 1 xaile preto, 2 camisas uma de algodão, 3 pares de
cuecas, 1 lenço de algodão, 1 par de calças de fazenda, 1 casaco de fazenda e
outro de linho, 1 vestido de crepe, 2 metros de flanela, 7 lençóis de algodão,
1 ferro de engomar[15].
Em Dezembro desse
mesmo ano a Comissão Municipal de Assistência dirigiu um pedido às maiores
empresas do Barreiro, solicitando auxilio para «os necessitados e indigentes
deste concelho, de pequena área e grande população, na sua maioria gente
operária» a fim de fazer face «aos sofrimentos de tantos infelizes e
desprotegidos da sorte».[16]
As Actas da Comissão
de Assistência dão, ainda, conta de situações limite, como a de uma mãe, em
1946, que em desespero e sem recursos para acudir à família, pede o
internamento dos seus filhos em asilo.[17]
Notas:
1. MEDEIROS, Fernando – A Sociedade e a Economia
Portuguesas nas Origens do Salazarismo, s.l., A Regra do Jogo, 1978, p. 143
2. «A República» RAMOS, Rui, vol. VI, História
de Portugal, Lisboa, dir. José Mattoso, C. Leitores, 1994, p.519
3. Junta de Freguesia do Barreiro (JFB), Livro de Actas da
Junta, 1923-1931
4. Idem
5. JFB, Livro de Actas da Junta, 1923-1931
6. Idem
7. Idem
8. «O Estado Novo», ROSAS, Fernando - vol.
VII, História de Portugal, Lisboa, dir. José Mattoso, Estampa, 1994,
p.61
9. Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), Comissão
Municipal de Assistência, CMB/B/Q/04/Cx. 01, 1946
10. AMB, Comissão Administrativa da Sopa dos Pobres –
Receita e Despesa referente ao Ano de 1945, Tipografia Comercial, Barreiro,
1946, CMB/B/Q/04/Cx. 01
11. AMB, Comissão Paroquial de Assistência do Barreiro –
Relação dos Desempregados Beneficiados com a Sopa do mês de Novembro de 1946,
CMB/B/Q/04/Cx. 01
12. PAIS, p.246
13. AMB, CMB/B/Q/04/Cx. 01, 1946
14 Idem
15. Idem
16. Idem
17. Idem
07 dezembro 2012
retratos do barreiro # retratos do país # retratos da crise
dá que pensar a situação catastrófica do país e a rapidez com que tudo tem evoluído, agravando-se dia para dia . o barreiro é o retrato do país: com a destruição das grandes empresas cuf/quimigal e cp, nada se produz hoje no barreiro, como no resto do país. uma grande parte da população barreirense vive da segurança social, reformados uns, outros desempregados, outros do rendimento social. actualmente as maiores empresas são a câmara municipal e o hospital mas com os cortes do orçamento para 2013, na área da saúde e da administração pública, entre outros, pergunto-me quantos mais irão perder o posto de trabalho no próximo ano.
hoje em dia, quando encontramos amigos e perguntamos pelos filhos, a resposta é, invariavelmente: está na suiça, está na frança, está na inglaterra, está em espanha, está na américa. tudo emigrou e os que ainda cá estão ...
até a pequena e média burguesia barreirense,sobretudo comerciantes, não resistiu. gente que não olhava ao que gastava, nem nunca teve problemas económicos, estão todos falidos. a poli vai fechar, a prolar foi à falência, em poucos meses já fecharam vários restaurantes só no centro: a ti maria, o aguiar no mercado, o pequeno café ao lado do sr. antónio dos frangos, a fragata, o moinho da praia ... estes são os que de repente me lembro. de cada vez que fecha uma loja de comércio abre um chinês ou uma loja de compra de ouro. nem têm conta, as lojas de ouro. fechou a benetton abriu uma de ouro, fechou o quiosque bactéria abriu uma de ouro, fechou a agência abreu abriu a florista fechou e abriu outra de ouro. fechou a loja de óptica ao lado do tico-tico abriu um chinês, do outro lado abriu outro chinês. fechou a viva abriu um que dizem que é português mas é chinês. as casas com placas dos bancos para leilões são mais que muitas...o mercado municipal está às moscas, nem os pequenos comerciantes se aguentam, com a maior parte das bancas vazias...até uma loja de verduras, na avenida teve uns dias aberta e fechou logo.
isto é apenas uma amostra do que está acontecendo aqui à minha volta, aquilo que eu posso observar com os meus próprios olhos. é um retrato do barreiro mas podia ser o retrato do país.
é o retrato da crise.
como será no próximo ano!?
nunca pensei que portugal pudesse chegar a este ponto.
eu que já vi e vivi muita coisa, o que me assusta é o que ainda poderá estar para vir. provavelmente iremos viver situações que hoje nem podemos imaginar.
isto tira o sono a qualquer um.
é o retrato da crise.
como será no próximo ano!?
nunca pensei que portugal pudesse chegar a este ponto.
eu que já vi e vivi muita coisa, o que me assusta é o que ainda poderá estar para vir. provavelmente iremos viver situações que hoje nem podemos imaginar.
isto tira o sono a qualquer um.
03 dezembro 2012
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social
Grupo de trabalhadores da CUF, Praça de Santa Cruz, Barreiro, c. 1940. Arquivo Municipal do Barreiro
para que não se diga que não há memória.
porque os tempos da miséria e da fome parecem estar a voltar. inicio aqui a publicação de uma Comunicação apresentada ao Colóquio Internacional "Industrialização em Portugal:o caso do Barreiro. 100 anos da CUF 1908-2008"
A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social
Autora: Rosalina Carmona
Resumo
A partir de 1907 quando a Companhia
União Fabril chega ao Barreiro e tem início o processo que transformará a vila
no maior centro industrial do país, intensificam-se os fenómenos migratórios
que, desde meados de oitocentos, já atraíam muita gente ao Barreiro.
De acordo com a imprensa local, em
1930, ao Barreiro dirigiam-se milhares de pessoas,
de todos os pontos do país.
«Gente de todas as aldeias vilas e cidades do paíz
para aqui emigrou, como para um novo “Brasil” em miniatura»[1].
Infelizmente a CUF não trouxe só
bem-estar e progresso. Enquanto a antiga vila se transformava num centro altamente industrializado e a Companhia União Fabril constituía o motor de desenvolvimento do concelho e do país, fenómenos como a falta de habitação, a pobreza, a fome, a exclusão, a doença e a poluição, assolavam o Barreiro.
O que analisamos em seguida, são as repercussões
dramáticas desse desmedido afluxo de pessoas ao Barreiro e a forma como todos esses aspectos se reflectiram nas suas vidas.A investigação privilegiou fontes como: os Livros de Actas da Câmara
Municipal, da Junta de Freguesia do Barreiro, da Comissão de Assistência
Municipal, da Comissão Municipal de Higiene, entre outros documentos e
jornais locais que, permitem antever um quadro social que não se reporta
exclusivamente ao universo CUF mas, constitui como que o espelho da sociedade
da época. Evidências de um quotidiano que identificamos com uma grande parte da
população operária do Barreiro, em pleno apogeu cufista.
1. O problema habitacional:“Vilas Operárias” e Bairros Operários
Até ao século XIX o Barreiro viveu da pesca, da
moagem, de artes e ofícios que em pequenas oficinas e estaleiros ocupavam uma
parte da população, de alguma agricultura, sobretudo nas quintas, fazendas e
pequenas hortas e vinhas que cercavam os arrabaldes da vila. A partir de meados
de oitocentos, com a implantação do caminho-de-ferro, alguns terrenos começam a
ser loteados e urbanizados e dessa forma começam a surgir, no exterior do
núcleo urbano, alguns “bairros”, destinados aos ferroviários e suas famílias. O
primeiro surge no Alto José Ferreira, junto à primitiva estação ferroviária
(actuais oficinas da EMEF), perto do local onde em 1935 seria construído o
Bairro Ferroviário, no Palácio do Coimbra.
Outros apareceram próximos ao apeadeiro do
Barreiro-A como o “Bairro Miranda”, a “Vila Manso”, a “Vila Braz”, ou o “Bairro
do Teodósio” que lhe ficava anexo, com as suas casinhas de adobe, onde os
inquilinos pagavam entre 5 e 10 tostões, todos no Alto do Seixalinho.[2]
A partir da instalação do caminho-de-ferro
desenvolveram-se os fabricos corticeiros e ganha corpo uma corrente migratória,
com origem no Alentejo e serra algarvia que, não mais haveria de parar em
direcção ao Barreiro. Desta fase registamos o aparecimento de algumas “Vilas” e
“Correntezas Operárias”, como as da Rua Marquês Pombal, Largo Alexandre
Herculano e Rua Miguel Bombarda.
Refira-se que as chamadas “Vilas Operárias”
surgem no final de oitocentos, construídas por negociantes e industriais, como
prédios de rendimento, destinados ao aluguer.
Em Lisboa são vários os exemplos mas talvez os
mais conhecidos, ainda hoje, sejam a “Vila Grandela” em Benfica, construída
pelo proprietário para o seu pessoal; a “Vila Santa Marta” formada por dois
pisos, com quartos para alugar, individuais ou colectivos, com divisões
minúsculas e ainda a “Vila Stº António”, propriedade do Conde Burnay «uma
verdadeira caserna operária com quartos e dormitórios»[3].
Um quadro geral das condições de vida do
operariado barreirense é traçado em 1910, pelo jornal “Avante”, que aborda o
problema, referindo o insuficiente número de casas, os aluguéis caros, a falta
de conforto e sobretudo, a falta de condições de salubridade e higiene das
casas.
«São geralmente trez ou quatro, às vezes cinco
divisões pequeníssimas, casas terreas ou assoalhadas, mas sem caixa d’ar nem
ventilação adequada. Não possuem agua a não ser algumas em cujos patteos há
poço, nem pias de despejo, por falta de colectores geraes na villa. Aquellas em
que o proprietário tem construída fossa para despejos, valorisadas por esse
melhoramento, sobem consideravelmente de preço o que as torna inacessíveis aos
ganhos do operariado.»[4]
Os problemas causados pelos grandes aglomerados
populacionais que viviam sem as elementares condições de higiene, colocou-se em
Portugal com maior acuidade, quando em 1899, Lisboa foi devastada pela pulmónica.
Começam então a circular ideias de criar bairros
operários “modelo”, que deveriam proporcionar aos seus moradores um espaço
habitável, com higiene e conforto.
Apesar de estas ideias só se tornarem correntes
em Portugal no século XX, elas já eram bastante populares em toda a Europa,
logo nos princípios do século XIX. Existem muitos exemplos, de grandes patrões
e industriais, que constroem bairros para o seu pessoal. O mais antigo talvez
seja o dos «proprietários de Grand-Hornu em Mans, quem primeiro na Bélgica
em 1817 construíram casas para operários».[5]
Podem ser citados outros casos [nas cidades de Essen ou
Dusseldorf] na Alemanha, em França [Paris e Puteaux] na Inglaterra [Londres] e Áustria mas é
sobretudo a Bélgica que é considerada na época o «país modelo, que tanto tem
melhorado a situação das suas classes operárias…»[6], isto
ainda em pleno século XIX.
Em sentido inverso, em Portugal em 1912, os
operários e assalariados dos grandes centros industriais de Lisboa, Setúbal,
Covilhã, Porto e Braga, viviam em bairros pobres, apertados e sujos,
«autênticos viveiros de germes contagiosos».[7]
Ciente do risco que tais situações acarretavam
para a saúde pública, o Ministério do Fomento da I República, alertava que se
melhorassem as condições dos operários, a fim de que «se não turve a higiene
das cidades com o perigo de todos, para que continue a haver braços fortes que
movam as enxadas e martelos, mãos nervosas e ágeis nos fusos e teares»[8].
A mesma fonte prevenia ainda os “patrões
inteligentes” que uma habitação cómoda, limpa e saudável, além de atrair o
operário e fixar a família, fortalecia hábitos de asseio do corpo, enfim
conferia melhor disposição ao trabalhador.
Considerava-se finalmente, como particularmente
vantajoso o facto de o operário morar perto da fábrica, pois que, assim perdia
muito pouco tempo no caminho de casa para a fábrica e vice-versa, bem como se
desenvolvia «nesse pessoal o amor por aquelle meio fabril, que, mais e mais, se
vae arraigando pelo correr do tempo.»[9]
“Pátios Particulares”
Com a Companhia União
Fabril em expansão permanente, a intensificação da produção industrial exigia
cada vez mais mão-de-obra. Em resultado deste processo, o Barreiro começa a
registar a partir dos anos 30, um crescimento muito sensível da população,
processo que vai inscrever-se nos fenómenos de êxodo rural em direcção às
cidades, que atravessam toda a década de 30 e culminam na década de 40[10].
«O afluxo populacional às cidades portuguesas tem o seu
momento de maior impacto na década de quarenta, em particular a Lisboa e aos
concelhos limítrofes.»[11]
Segundo um estudo da Câmara
Municipal, datado de 1848, estimava-se que naquela década, a população tivera
um aumento aproximado de 40%[12], sem
que o ritmo da construção acompanhasse o progresso demográfico.
Neste contexto o problema da falta de habitação,
pela sua amplitude e pelas consequências, colocava-se como um problema de
natureza social de grande gravidade. O estudo considera que em Portugal, face
ao número de famílias e indivíduos, faltavam muitas habitações e o problema era
agravado pela existência de «milhares e milhares de outras com poucas ou
nenhumas condições de higiene, de comodidade e de conforto, onde se amalgamam
famílias inteiras que vivem desprovidas dos requisitos mínimos que possam
torná-las saudáveis e felizes.»[13]
Algumas destas ‘habitações’ situavam-se em
pequenos pátios no interior de quintais e eram «casinhas de tijolo e madeira,
abarracadas, à retaguarda das habitações (ou para lá dos muros de vedação),
constituindo minúsculos pátios com serventia para a rua.»[14]
No inquérito realizado, a Câmara Municipal,
registava que as condições em que habitava uma grande parte da população
operária eram verdadeiramente angustiantes.
«…num prédio antigo existente no centro da vila,
vive um família de cinco pessoas, que não dispõem de ar nem de luz directa, e
que não tem, também, instalação eléctrica. O chefe de família é, operário na
C.U.F. e paga de renda 60$00.»[15]
No mesmo inquérito é recenseada a existência de
486 barracas no concelho, habitadas nas condições mais precárias e estimava-se
que o número tivesse aumentado no último ano.
Estas
barracas, toscas e doentias, não ofereciam defesa contra o frio, o calor ou a
chuva e geralmente eram constituídas apenas por uma divisão única, onde
habitava toda a família. Foram surgindo nos arredores da vila, espalharam-se
pelo Bairro das Palmeiras (vulgo “Bairro da Folha” porque as coberturas eram em
folha de Flandres), Alto do Seixalinho, Quinta dos Silveiros, Alto da Paiva,
Recosta, etc. e chegaram ao concelho da Moita, nomeadamente à Baixa da
Banheira, ou “Bairro Changai” como era conhecido à época.
«Numa delas constituída apenas por um cubículo –
habitam nove pessoas. É frequente, no entanto, encontrar casos em que cinco
pessoas dormem no mesmo cubículo e na mesma cama. Encontrámos alguns, em
visitas que fizemos ao Alto do Seixalinho e Quinta dos Silveiros, assim como em
certos “pátios particulares” no Bairro das Palmeiras.»[16]
O documento informa ainda que, algumas barracas
são habitadas por indigentes, mas «grande parte é utilizada por operários com
grandes encargos de família e que vencem pequenos salários de 20 e 30$00
diários.»
Muitas vezes para quem
chegava do meio rural e tentava o seu ingresso na fábrica, esta era a primeira
habitação. Com o tempo podia arranjar-se melhor ou então, as famílias que
ficavam por estes “pátios” arrastavam uma existência miserável, em alojamentos
precários e sobrelotados, onde a vida «decorria entre imundície e imoralidade»[17]
e palavras como conforto ou privacidade não faziam qualquer sentido.
O Bairro Operário da CUF
Cem anos volvidos sobre a construção do primeiro
bairro operário na Europa, Alfredo da Silva manda edificar em 1909, o Bairro de
Santa Bárbara. Para os padrões de alojamento da época o bairro da CUF
constituiu uma novidade, pois oferecia melhores condições aos moradores,
possuía rede de esgotos, abastecimento de água potável e iluminação eléctrica.
O bairro representa um dos aspectos mais
visíveis da chamada “obra social” da CUF, na qual Alfredo da Silva se empenhou
pessoalmente, ao defender um modelo ao qual não era alheia «uma vertente
política bem vincada»[18]. Na
realidade, com o objectivo de evitar greves e protestos, Alfredo da Silva,
oferecia benefícios aos operários, desarmando os seus opositores políticos,
especialmente republicanos e socialistas, que «pretendem chamar para os seus Clubs
o pessoal da Companhia a fim de lhe incutirem no espírito insubordinação»[19].
A “obra social” da CUF
enquadra-se numa lógica de estratégia empresarial. A construção do bairro
no interior do próprio espaço fabril, é um dos casos mais paradigmáticos da
política de fixação do operário ao local de trabalho, num “modelo paternalista”[20],
tendente a desencorajar qualquer atitude de contestação política ou laboral.
Com efeito «o rosto mais simbólico do
capitalismo em Portugal»[21], não
se mostrava muito apoquentado com as condições de trabalho dos seus operários,
opondo-se tenazmente à Lei das oito horas de trabalho[22] e
recusando-se a aplicar «legislação que impunha a responsabilidade patronal em
certos domínios, como os acidentes de trabalho…»[23].
Uma das condições relevantes para atribuição de
uma casa no Bairro de Santa Bárbara era, a função que o trabalhador
desempenhava na fábrica, e a facilidade que representava para a empresa, a
possibilidade de fazer «chamadas frequentes fora das horas normais de serviço
ou horários de turnos» do pessoal.[24]
A admissão às casas passava pela «existência de
apertados e rígidos critérios de acesso à habitação disponibilizada pela
Companhia»[25], visto que somente os
trabalhadores efectivos ou os seus familiares eram escolhidos para as casas que
vagavam.
Por outro lado, a política selectiva da CUF
estendia-se a certos domínios da vida pessoal dos candidatos às habitações,
embora essa questão fosse confidencial, conforme consta das “Normas para
Atribuição de Casas” no Bairro de Santa Bárbara. Na verdade, uma das primeiras
condições exigidas aos futuros moradores passava, por uma conduta moral
irrepreensível, referindo-se a «constituição legal da família» e a «filiação
legítima dos filhos»[26],
como indispensáveis à sua atribuição.
Muito embora não fosse mencionada, a questão
religiosa parece não ter sido descurada, pois o novo Bairro da CUF, no Alto do
Seixalinho, construído em 1955, era conhecido entre muitos barreirenses como o
“Bairro dos Católicos”.
Considerados todos
estes aspectos, conclui-se pela evidência de que a política habitacional da CUF não tinha objectivos meramente filantrópicos, ao criar um bairro para os seus
trabalhadores, mas, estava direccionada sobretudo, para uma dependência cada
vez maior do operário face ao patrão e à empresa, tolhendo e condicionando os
comportamentos dos moradores do bairro.
No próximo post:
2. Sobrevivência quotidiana: Carências alimentares, desemprego, pobreza e exclusão
NOTAS
1 “O Barreiro Despresado” in Eco do Barreiro 4 de
Outubro, 1930, editorial de 1ª pág.
2 CARMONA, Rosalina – …do Barreiro ao
Alto do Seixalinho Um Passado Rural e Operário, Barreiro, Junta de
Freguesia do Alto do Seixalinho, 2005, p. 68
3 GROS, Marielle Christine – O Alojamento Social sob o Fascismo,
Porto, ed. Afrontamento, 1982, p. 98
4 «Questionário ao Trabalho Industrial -
VII. Condições da Vida Operária», Avante, 10 de Novembro de 1910, p. 4
5 OLIVEIRA, J. de Simões – «Contribuição para Estudo das
Casas para Operários», Boletim do Trabalho Industrial, nº 66, 1912,
Lisboa, p. VI
6 Idem, p. 3
7 Ob., cit. p. VI
8 Idem, Ibidem
9 Idem, p. 29
10 JANARRA, Pedro – A política
Urbanística e de Habitação Social no Estado Novo, Tese de Mestrado em
Sociologia (texto policopiado), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1994, p.33
11 JANARRA, Ob. cit.
12 Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), «O Problema
Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», AMB, CMB/M/A/ 04.01/Cx
02 1945-51
13 Idem
14 PAIS, Armando da Silva – O Barreiro
Contemporâneo, Barreiro, CMB, vol. I, 1971, p. 306
15 AMB, «O Problema Habitacional …»
16 AMB, «O Problema Habitacional …»
17 PAIS, Armando da Silva – O Barreiro
Contemporâneo, Barreiro, CMB, vol. I, 1965, p. 307
18 FARIA, Miguel – Alfredo da Silva Biografia 1871-1942,
Lisboa, Bertrand, 2004, p. 112
19 FARIA, Ob. cit.
20 Vd. ALMEIDA; Ana Nunes – A Fábrica e
a Família Famílias operárias no Barreiro, Barreiro, Câmara Municipal do
Barreiro, 2ª ed., 1998, p. 170
21 ALVES, Jorge Fernandes – Jorge de
Mello «Um Homem» Percursos de um Empresário, Lisboa, Inapa, 2004, p. 15
22 Lei Nº 296 de 22 de Janeiro de 1915
23ALVES, p. 55
24 “Bairro Operário Normas para
Transferência de Casas”, texto policopiado, Quimiparque
25 MARTINS, Alexandre, acedido em http://
www.aps.pt «Paternalismo, habitação,
fidelização operária. O caso do bairro da Stª Bárbara no Barreiro» in Actas
dos Ateliers do V Congresso Português de Sociologia, Atelier: Cidades,
Campos e Território, 2004
26 CARMONA, Rosalina – …do Barreiro ao Alto do Seixalinho
Um Passado Rural e Operário, Barreiro, Junta de Freguesia do Alto do
Seixalinho, 2005, p. 122
29 novembro 2012
28 novembro 2012
lembrança
fui essa que nas ruas esmolou
e fui a que habitou paços reais;
no mármore de curvas ogivais
fui essa que as mãos pálidas poisou...
tanto poeta em versos me cantou!
fiei o linho à porta dos casais...
fui descobrir a índia e nunca mais
fui descobrir a índia e nunca mais
voltei! fui essa nau que não voltou...
tenho o perfil moreno, lusitano,
e os olhos verdes, cor do verde oceano,
sereia que nasceu de navegantes...
tudo em cinzentas brumas se dilui...
ah, quem me dera ser essas que eu fui,
as que me lembro de ter sido... dantes!...
florbela espanca,
"charneca em flor"
"charneca em flor"
24 novembro 2012
21 novembro 2012
parem a guerra contra o povo da palestina
dor pelas crianças, pelas mulheres, pelo povo da palestina. como é possível que continue tal massacre?!
"Os mortos respiram ainda nos meus olhos
Na minha boca ecoa a sua voz
Esfacelados os corpos por escolhos
Estremecem entre as mãos de todos nós.
Morrem ao seio das mães as crianças
Eram estrelas de vida sorridentes
Para quem só existe escuridão
Queimados corpos lembram andorinhas
Que ao azul do vôo não mais se elevarão.
Eu morro em cada corpo calcinado
O meu olhar cegou de tanto ver
Nunca mais uma aurora sobre um prado
Trará a cor da vida a renascer.
Mesmo o poente que loiro pousa em tudo
Ou o bravo oceano de onda forte
Trarão à vida os olhos de veludo
Gelando em mim em iras contra a morte!"
18 novembro 2012
se uma gaivota viesse...
aí temos uma bela manhã de sol
brilhante
um cheirinho de vento fustiga as altas copas do arvoredo do parque
acima dos telhados
eu, qual papalagui,
avisto da minha gaiola
os vizinhos do bloco da frente
tomam o pequeno almoço na varanda
escuto
e vejo minúsculos passarinhos
(desconfio que petinas, pelas cores e pios)
esvoaçando em mil batidas de coração
caçam insectos quase invisíveis
já os melros do quintal bateram asas e partiram
há horas
enquanto não ligo o facebook
que me traz as desgraças do mundo
fico-me por aqui
à janela do domingo de manhã
escutando o carlos do carmo
se uma gaivota viesse, trazer-me o céu de lisboa...
se essa gaivota viesse
eu partia
me
no titanic
me
no titanic
16 novembro 2012
12 novembro 2012
11 novembro 2012
de negro e em luta
de negro nos vestimos agora, como a negra noite, porque em luta estamos. porque recusamos a miséria, os dias frios e sem agasalhos, sem sapatos, os pés descalços no chão, gretados no frio afiado, as mãos entenguidas, encolhidas, os lábios rasgados, a sangrar de abrir nos sorrisos, a gaveta sem pão, o prato vazio. recusamos a esmola do pão duro, com toucinho rançoso, agora vestida com embalagens de plástico e cartão colorido. recusamos as salas de aula dos bordados e o crucifixo e a bênção do sr padre e os sopapos da professora e os castigos contra a parede. recusamos o almoço na cantina.
recusamos a caridade.
temos dignidade.
recusamos tudo isto, porque já o vivemos um dia e porque não o queremos, de volta.
recusamos o portugal salazarista, que nos querem servir requentado, em prato novo.
queremos trabalhar, com as nossas mãos, os nossos, braços, a nossa inteligência.
não queremos sair de portugal.
amamos portugal.
lutaremos por portugal.
faremos a greve geral.
09 novembro 2012
ética e memética
artigo de rosa alice branco que "piquei" de http://www.viralagenda.com/
Brain Dead por Doug Munson
Já assistimos a muitos massacres causados pela fácil transmissão de memes. E ao sermos vítimas indefesas e, até agora, inoperativas de um massacre etiquetado com a palavra “corrupção”, podemos pensar que se trata de um meme, ou de um conjunto de memes. Na verdade, a corrupção replica-se e esconde-se de tal modo que parece ser um meme particularmente estratega, transmissível com uma facilidade assustadora, abonado por uma impunidade que faz parte do seu conceito, no seu estado mais puro. Mas, espanto dos espantos, o facto mor é que a corrupção não possui uma das características dos memes: a obrigação de se replicar não está no seu ADN.
Temos que aceitar que a corrupção é uma escolha, escolhida por alguns em benefício próprio.
http://www.viralagenda.com/posts/1http://www.viralagenda.com/posts/1
08 novembro 2012
cultura contra a austeridade
o manifesto em defesa da cultura volta à sociedade filarmónica agrícola lavradiense
(SFAL). enquanto decorre o talkshow "Cachaporreiro ao Vivo" para
assinalar a edição nº 100 do jornal daquela colectividade , alguns artistas plásticos vão pintar
um painel - integrando-se no espectáculo onde decorrem entrevistas, música, acrobática,
poesia e... pintura - e chamar a atenção sobre a situação actual do país, especialmente na área
da cultura, decorrente da política desastrosa em curso. o convite é aberto a todos.
A
política de austeridade destrói a cultura, o país e as vidas das pessoas.
Os
trabalhadores da cultura sofrem, como todos os outros, com o desemprego,
com a
precariedade, com os baixos salários e com o trabalho sem direitos.
A maior
parte dos trabalhadores da cultura não tem direito a subsídio de férias e
de
natal, não tem direito ao subsídio de desemprego, apesar de pagar
prestações
muito altas à segurança social.
A
cultura em Portugal está a ser destruída pela política de austeridade. Todos os
dias, trabalhadores da cultura abandonam
a profissão ou imigram. Os mais
jovens não têm futuro. Centenas de estruturas
fecham.
Lutamos
contra a política de austeridade. Exigimos 1% do Orçamento do Estado
Subscrever:
Mensagens (Atom)









