07 dezembro 2012

retratos do barreiro # retratos do país # retratos da crise



dá que pensar a situação catastrófica do país e a rapidez com que tudo tem evoluído, agravando-se dia para dia .  o barreiro é o retrato do país: com a destruição das grandes empresas cuf/quimigal e cp, nada se produz hoje no barreiro, como no resto do país. uma grande parte da população barreirense vive  da segurança social,  reformados uns, outros desempregados, outros do rendimento social. actualmente as maiores empresas são a câmara municipal e o hospital mas com os cortes do orçamento para 2013, na área da saúde e da administração pública, entre outros, pergunto-me quantos mais irão perder o posto de trabalho no próximo ano. 
hoje em dia, quando encontramos amigos e perguntamos pelos filhos, a resposta é, invariavelmente: está na suiça, está na frança, está na inglaterra, está em espanha, está na américa. tudo emigrou e os que ainda cá estão ... 
até a pequena e média burguesia barreirense,sobretudo comerciantes, não resistiu. gente que não olhava ao que gastava, nem nunca teve problemas económicos, estão todos falidos. a poli vai fechar, a prolar foi à falência, em poucos meses já fecharam vários restaurantes só no centro: a ti maria, o aguiar no mercado, o pequeno café ao lado do sr. antónio dos frangos, a fragata, o moinho da praia ... estes são os que de repente me lembro. de cada vez que fecha uma loja de comércio abre um chinês ou uma loja de compra de ouro. nem têm conta, as lojas de ouro. fechou a benetton abriu uma de ouro, fechou o quiosque bactéria abriu uma de ouro, fechou a agência abreu abriu a florista fechou e abriu outra de ouro. fechou a loja de óptica ao lado do tico-tico abriu um chinês, do outro lado abriu outro chinês. fechou a viva abriu um que dizem que é português mas é chinês. as casas com placas dos bancos para leilões são mais que muitas...o mercado municipal está às moscas, nem os pequenos comerciantes se aguentam, com a maior parte das bancas vazias...até uma loja de verduras, na avenida teve uns dias aberta e fechou logo.
isto é apenas uma amostra do que está acontecendo aqui à minha volta, aquilo que eu posso observar com os meus próprios olhos. é um retrato do barreiro mas podia ser o retrato do país.
é o retrato da crise.
como será no próximo ano!?
nunca pensei que portugal pudesse chegar a este ponto.
eu que já vi e vivi muita coisa, o que me assusta é o que ainda poderá estar para vir. provavelmente iremos viver situações que hoje nem podemos imaginar.
isto tira o sono a qualquer um.

03 dezembro 2012

A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social


Grupo de trabalhadores da CUF, Praça de Santa Cruz, Barreiro, c. 1940. Arquivo Municipal do Barreiro


para que não se diga que não há memória. 
porque os tempos da miséria e da fome parecem estar a voltar. inicio aqui a publicação de uma Comunicação apresentada ao Colóquio Internacional "Industrialização em Portugal:o caso do Barreiro. 100 anos da CUF 1908-2008"

A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social

Autora: Rosalina Carmona



Resumo

A partir de 1907 quando a Companhia União Fabril chega ao Barreiro e tem início o processo que transformará a vila no maior centro industrial do país, intensificam-se os fenómenos migratórios que, desde meados de oitocentos, já atraíam muita gente ao Barreiro.
De acordo com a imprensa local, em 1930, ao Barreiro dirigiam-se milhares de pessoas, de todos os pontos do país.
«Gente de todas as aldeias vilas e cidades do paíz para aqui emigrou, como para um novo “Brasil” em miniatura»[1].
Infelizmente a CUF não trouxe só bem-estar e progresso. Enquanto a antiga vila se transformava num centro altamente industrializado e a Companhia União Fabril constituía o motor de desenvolvimento do concelho e do país, fenómenos como a falta de habitação, a pobreza, a fome, a exclusão, a doença e a poluição, assolavam o Barreiro.
O que analisamos em seguida,  são as repercussões dramáticas desse desmedido afluxo de pessoas ao Barreiro e a forma como todos esses aspectos se reflectiram nas suas vidas.A investigação privilegiou fontes como: os Livros de Actas da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia do Barreiro, da Comissão de Assistência Municipal, da Comissão Municipal de Higiene, entre outros documentos e jornais locais que, permitem antever um quadro social que não se reporta exclusivamente ao universo CUF mas, constitui como que o espelho da sociedade da época. Evidências de um quotidiano que identificamos com uma grande parte da população operária do Barreiro, em pleno apogeu cufista.


1. O problema habitacional:“Vilas Operárias” e Bairros Operários

Até ao século XIX o Barreiro viveu da pesca, da moagem, de artes e ofícios que em pequenas oficinas e estaleiros ocupavam uma parte da população, de alguma agricultura, sobretudo nas quintas, fazendas e pequenas hortas e vinhas que cercavam os arrabaldes da vila. A partir de meados de oitocentos, com a implantação do caminho-de-ferro, alguns terrenos começam a ser loteados e urbanizados e dessa forma começam a surgir, no exterior do núcleo urbano, alguns “bairros”, destinados aos ferroviários e suas famílias. O primeiro surge no Alto José Ferreira, junto à primitiva estação ferroviária (actuais oficinas da EMEF), perto do local onde em 1935 seria construído o Bairro Ferroviário, no Palácio do Coimbra.
Outros apareceram próximos ao apeadeiro do Barreiro-A como o “Bairro Miranda”, a “Vila Manso”, a “Vila Braz”, ou o “Bairro do Teodósio” que lhe ficava anexo, com as suas casinhas de adobe, onde os inquilinos pagavam entre 5 e 10 tostões, todos no Alto do Seixalinho.[2]
A partir da instalação do caminho-de-ferro desenvolveram-se os fabricos corticeiros e ganha corpo uma corrente migratória, com origem no Alentejo e serra algarvia que, não mais haveria de parar em direcção ao Barreiro. Desta fase registamos o aparecimento de algumas “Vilas” e “Correntezas Operárias”, como as da Rua Marquês Pombal, Largo Alexandre Herculano e Rua Miguel Bombarda.
Refira-se que as chamadas “Vilas Operárias” surgem no final de oitocentos, construídas por negociantes e industriais, como prédios de rendimento, destinados ao aluguer.
Em Lisboa são vários os exemplos mas talvez os mais conhecidos, ainda hoje, sejam a “Vila Grandela” em Benfica, construída pelo proprietário para o seu pessoal; a “Vila Santa Marta” formada por dois pisos, com quartos para alugar, individuais ou colectivos, com divisões minúsculas e ainda a “Vila Stº António”, propriedade do Conde Burnay «uma verdadeira caserna operária com quartos e dormitórios»[3].
Um quadro geral das condições de vida do operariado barreirense é traçado em 1910, pelo jornal “Avante”, que aborda o problema, referindo o insuficiente número de casas, os aluguéis caros, a falta de conforto e sobretudo, a falta de condições de salubridade e higiene das casas.
«São geralmente trez ou quatro, às vezes cinco divisões pequeníssimas, casas terreas ou assoalhadas, mas sem caixa d’ar nem ventilação adequada. Não possuem agua a não ser algumas em cujos patteos há poço, nem pias de despejo, por falta de colectores geraes na villa. Aquellas em que o proprietário tem construída fossa para despejos, valorisadas por esse melhoramento, sobem consideravelmente de preço o que as torna inacessíveis aos ganhos do operariado.»[4]
Os problemas causados pelos grandes aglomerados populacionais que viviam sem as elementares condições de higiene, colocou-se em Portugal com maior acuidade, quando em 1899, Lisboa foi devastada pela pulmónica.
Começam então a circular ideias de criar bairros operários “modelo”, que deveriam proporcionar aos seus moradores um espaço habitável, com higiene e conforto.
Apesar de estas ideias só se tornarem correntes em Portugal no século XX, elas já eram bastante populares em toda a Europa, logo nos princípios do século XIX. Existem muitos exemplos, de grandes patrões e industriais, que constroem bairros para o seu pessoal. O mais antigo talvez seja o dos «proprietários de Grand-Hornu em Mans, quem primeiro na Bélgica em 1817 construíram casas para operários».[5]
Podem ser citados outros casos [nas cidades de Essen ou Dusseldorf] na Alemanha, em França [Paris e Puteaux] na Inglaterra [Londres] e Áustria mas é sobretudo a Bélgica que é considerada na época o «país modelo, que tanto tem melhorado a situação das suas classes operárias…»[6], isto ainda em pleno século XIX.
Em sentido inverso, em Portugal em 1912, os operários e assalariados dos grandes centros industriais de Lisboa, Setúbal, Covilhã, Porto e Braga, viviam em bairros pobres, apertados e sujos, «autênticos viveiros de germes contagiosos».[7]
Ciente do risco que tais situações acarretavam para a saúde pública, o Ministério do Fomento da I República, alertava que se melhorassem as condições dos operários, a fim de que «se não turve a higiene das cidades com o perigo de todos, para que continue a haver braços fortes que movam as enxadas e martelos, mãos nervosas e ágeis nos fusos e teares»[8].
A mesma fonte prevenia ainda os “patrões inteligentes” que uma habitação cómoda, limpa e saudável, além de atrair o operário e fixar a família, fortalecia hábitos de asseio do corpo, enfim conferia melhor disposição ao trabalhador.
Considerava-se finalmente, como particularmente vantajoso o facto de o operário morar perto da fábrica, pois que, assim perdia muito pouco tempo no caminho de casa para a fábrica e vice-versa, bem como se desenvolvia «nesse pessoal o amor por aquelle meio fabril, que, mais e mais, se vae arraigando pelo correr do tempo.»[9]

“Pátios Particulares”

Com a Companhia União Fabril em expansão permanente, a intensificação da produção industrial exigia cada vez mais mão-de-obra. Em resultado deste processo, o Barreiro começa a registar a partir dos anos 30, um crescimento muito sensível da população, processo que vai inscrever-se nos fenómenos de êxodo rural em direcção às cidades, que atravessam toda a década de 30 e culminam na década de 40[10].
«O afluxo populacional às cidades portuguesas tem o seu momento de maior impacto na década de quarenta, em particular a Lisboa e aos concelhos limítrofes.»[11]
Segundo um estudo da Câmara Municipal, datado de 1848, estimava-se que naquela década, a população tivera um aumento aproximado de 40%[12], sem que o ritmo da construção acompanhasse o progresso demográfico.
Neste contexto o problema da falta de habitação, pela sua amplitude e pelas consequências, colocava-se como um problema de natureza social de grande gravidade. O estudo considera que em Portugal, face ao número de famílias e indivíduos, faltavam muitas habitações e o problema era agravado pela existência de «milhares e milhares de outras com poucas ou nenhumas condições de higiene, de comodidade e de conforto, onde se amalgamam famílias inteiras que vivem desprovidas dos requisitos mínimos que possam torná-las saudáveis e felizes.»[13]
Algumas destas ‘habitações’ situavam-se em pequenos pátios no interior de quintais e eram «casinhas de tijolo e madeira, abarracadas, à retaguarda das habitações (ou para lá dos muros de vedação), constituindo minúsculos pátios com serventia para a rua.»[14]

No inquérito realizado, a Câmara Municipal, registava que as condições em que habitava uma grande parte da população operária eram verdadeiramente angustiantes.
«…num prédio antigo existente no centro da vila, vive um família de cinco pessoas, que não dispõem de ar nem de luz directa, e que não tem, também, instalação eléctrica. O chefe de família é, operário na C.U.F. e paga de renda 60$00.»[15]
No mesmo inquérito é recenseada a existência de 486 barracas no concelho, habitadas nas condições mais precárias e estimava-se que o número tivesse aumentado no último ano.
Estas barracas, toscas e doentias, não ofereciam defesa contra o frio, o calor ou a chuva e geralmente eram constituídas apenas por uma divisão única, onde habitava toda a família. Foram surgindo nos arredores da vila, espalharam-se pelo Bairro das Palmeiras (vulgo “Bairro da Folha” porque as coberturas eram em folha de Flandres), Alto do Seixalinho, Quinta dos Silveiros, Alto da Paiva, Recosta, etc. e chegaram ao concelho da Moita, nomeadamente à Baixa da Banheira, ou “Bairro Changai” como era conhecido à época.
«Numa delas constituída apenas por um cubículo – habitam nove pessoas. É frequente, no entanto, encontrar casos em que cinco pessoas dormem no mesmo cubículo e na mesma cama. Encontrámos alguns, em visitas que fizemos ao Alto do Seixalinho e Quinta dos Silveiros, assim como em certos “pátios particulares” no Bairro das Palmeiras.»[16]
O documento informa ainda que, algumas barracas são habitadas por indigentes, mas «grande parte é utilizada por operários com grandes encargos de família e que vencem pequenos salários de 20 e 30$00 diários.»
Muitas vezes para quem chegava do meio rural e tentava o seu ingresso na fábrica, esta era a primeira habitação. Com o tempo podia arranjar-se melhor ou então, as famílias que ficavam por estes “pátios” arrastavam uma existência miserável, em alojamentos precários e sobrelotados, onde a vida «decorria entre imundície e imoralidade»[17] e palavras como conforto ou privacidade não faziam qualquer sentido.

O Bairro Operário da CUF

Cem anos volvidos sobre a construção do primeiro bairro operário na Europa, Alfredo da Silva manda edificar em 1909, o Bairro de Santa Bárbara. Para os padrões de alojamento da época o bairro da CUF constituiu uma novidade, pois oferecia melhores condições aos moradores, possuía rede de esgotos, abastecimento de água potável e iluminação eléctrica.
O bairro representa um dos aspectos mais visíveis da chamada “obra social” da CUF, na qual Alfredo da Silva se empenhou pessoalmente, ao defender um modelo ao qual não era alheia «uma vertente política bem vincada»[18]. Na realidade, com o objectivo de evitar greves e protestos, Alfredo da Silva, oferecia benefícios aos operários, desarmando os seus opositores políticos, especialmente republicanos e socialistas, que «pretendem chamar para os seus Clubs o pessoal da Companhia a fim de lhe incutirem no espírito insubordinação»[19].
A “obra social” da CUF enquadra-se numa lógica de estratégia empresarial. A construção do bairro no interior do próprio espaço fabril, é um dos casos mais paradigmáticos da política de fixação do operário ao local de trabalho, num “modelo paternalista”[20], tendente a desencorajar qualquer atitude de contestação política ou laboral.
Com efeito «o rosto mais simbólico do capitalismo em Portugal»[21], não se mostrava muito apoquentado com as condições de trabalho dos seus operários, opondo-se tenazmente à Lei das oito horas de trabalho[22] e recusando-se a aplicar «legislação que impunha a responsabilidade patronal em certos domínios, como os acidentes de trabalho…»[23].
Uma das condições relevantes para atribuição de uma casa no Bairro de Santa Bárbara era, a função que o trabalhador desempenhava na fábrica, e a facilidade que representava para a empresa, a possibilidade de fazer «chamadas frequentes fora das horas normais de serviço ou horários de turnos» do pessoal.[24]
A admissão às casas passava pela «existência de apertados e rígidos critérios de acesso à habitação disponibilizada pela Companhia»[25], visto que somente os trabalhadores efectivos ou os seus familiares eram escolhidos para as casas que vagavam.
Por outro lado, a política selectiva da CUF estendia-se a certos domínios da vida pessoal dos candidatos às habitações, embora essa questão fosse confidencial, conforme consta das “Normas para Atribuição de Casas” no Bairro de Santa Bárbara. Na verdade, uma das primeiras condições exigidas aos futuros moradores passava, por uma conduta moral irrepreensível, referindo-se a «constituição legal da família» e a «filiação legítima dos filhos»[26], como indispensáveis à sua atribuição.
Muito embora não fosse mencionada, a questão religiosa parece não ter sido descurada, pois o novo Bairro da CUF, no Alto do Seixalinho, construído em 1955, era conhecido entre muitos barreirenses como o “Bairro dos Católicos”.

Considerados todos estes aspectos, conclui-se pela evidência de que a política habitacional da CUF não tinha objectivos meramente filantrópicos, ao criar um bairro para os seus trabalhadores, mas, estava direccionada sobretudo, para uma dependência cada vez maior do operário face ao patrão e à empresa, tolhendo e condicionando os comportamentos dos moradores do bairro. 


No próximo post:
2. Sobrevivência quotidianaCarências alimentares, desemprego, pobreza e exclusão



NOTAS
1 “O Barreiro Despresado” in Eco do Barreiro 4 de Outubro, 1930, editorial de 1ª pág.
2 CARMONA, Rosalina – …do Barreiro ao Alto do Seixalinho Um Passado Rural e Operário, Barreiro, Junta de Freguesia do Alto do Seixalinho, 2005, p. 68
3 GROS, Marielle Christine – O Alojamento Social sob o Fascismo, Porto, ed. Afrontamento, 1982, p. 98
4 «Questionário ao Trabalho Industrial - VII. Condições da Vida Operária», Avante, 10 de Novembro de 1910, p. 4
5 OLIVEIRA, J. de Simões – «Contribuição para Estudo das Casas para Operários», Boletim do Trabalho Industrial, nº 66, 1912, Lisboa, p. VI
6 Idem, p. 3
7 Ob., cit. p. VI
8 Idem, Ibidem
9 Idem, p. 29
10 JANARRA, Pedro – A política Urbanística e de Habitação Social no Estado Novo, Tese de Mestrado em Sociologia (texto policopiado), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1994, p.33
11 JANARRA, Ob. cit.
12 Arquivo Municipal do Barreiro (AMB), «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», AMB, CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51
13 Idem
14 PAIS, Armando da Silva – O Barreiro Contemporâneo, Barreiro, CMB, vol. I, 1971, p. 306
15 AMB, «O Problema Habitacional …»
16 AMB, «O Problema Habitacional …»
17 PAIS, Armando da Silva – O Barreiro Contemporâneo, Barreiro, CMB, vol. I, 1965, p. 307
18 FARIA, Miguel – Alfredo da Silva Biografia 1871-1942, Lisboa, Bertrand, 2004, p. 112
19 FARIA, Ob. cit.
20 Vd. ALMEIDA; Ana Nunes – A Fábrica e a Família Famílias operárias no Barreiro, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 2ª ed., 1998, p. 170
21 ALVES, Jorge Fernandes – Jorge de Mello «Um Homem» Percursos de um Empresário, Lisboa, Inapa, 2004, p. 15
22 Lei Nº 296 de 22 de Janeiro de 1915
23ALVES, p. 55
24 “Bairro Operário Normas para Transferência de Casas”, texto policopiado, Quimiparque
25 MARTINS, Alexandre, acedido em http:// www.aps.pt «Paternalismo, habitação, fidelização operária. O caso do bairro da Stª Bárbara no Barreiro» in Actas dos Ateliers do V Congresso Português de Sociologia, Atelier: Cidades, Campos e Território, 2004
26 CARMONA, Rosalina – …do Barreiro ao Alto do Seixalinho Um Passado Rural e Operário, Barreiro, Junta de Freguesia do Alto do Seixalinho, 2005, p. 122 

28 novembro 2012

lembrança




fui essa que nas ruas esmolou 
e fui a que habitou paços reais; 
no mármore de curvas ogivais 

fui essa que as mãos pálidas poisou..



tanto poeta em versos me cantou! 
fiei o linho à porta dos casais... 
fui descobrir a índia e nunca mais 
voltei! fui essa nau que não voltou... 

tenho o perfil moreno, lusitano, 
e os olhos verdes, cor do verde oceano, 
sereia que nasceu de navegantes... 

tudo em cinzentas brumas se dilui... 
ah, quem me dera ser essas que eu fui, 
as que me lembro de ter sido... dantes!... 

florbela espanca, 
"charneca em flor"

21 novembro 2012

parem a guerra contra o povo da palestina


 dor pelas crianças, pelas mulheres, pelo povo da palestina. como é possível que continue tal massacre?!

"Os mortos respiram ainda nos meus olhos
Na minha boca ecoa a sua voz
Esfacelados os corpos por escolhos
Estremecem entre as mãos de todos nós.
Morrem ao seio das mães as crianças
Eram estrelas de vida sorridentes
Para quem só existe escuridão
Queimados corpos lembram andorinhas
Que ao azul do vôo não mais se elevarão.
Eu morro em cada corpo calcinado
O meu olhar cegou de tanto ver
Nunca mais uma aurora sobre um prado
Trará a cor da vida a renascer.
Mesmo o poente que loiro pousa em tudo
Ou o bravo oceano de onda forte
Trarão à vida os olhos de veludo
Gelando em mim em iras contra a morte!"


18 novembro 2012

se uma gaivota viesse...


  
aí temos uma bela manhã de sol
brilhante 
um cheirinho de vento fustiga as altas copas do arvoredo do parque
acima dos telhados
eu, qual papalagui,
avisto da minha gaiola
os vizinhos do bloco da frente
 tomam o pequeno almoço na varanda

 escuto
e vejo minúsculos passarinhos
(desconfio que petinas, pelas cores e pios)
esvoaçando em mil batidas de coração
caçam insectos quase invisíveis

já os melros do quintal bateram asas e partiram
há horas

enquanto não ligo o facebook 
que me traz as desgraças do mundo
fico-me por aqui
à janela do domingo de manhã
escutando o carlos do carmo
se uma gaivota viesse, trazer-me o céu de lisboa...

se essa gaivota viesse
eu partia
me
 no titanic


12 novembro 2012

11 novembro 2012

de negro e em luta



de negro nos vestimos agora, como a negra noite, porque em luta estamos. porque recusamos a miséria, os dias frios e sem agasalhos, sem sapatos, os pés descalços no chão, gretados no frio afiado, as mãos entenguidas, encolhidas, os lábios rasgados, a sangrar de abrir nos sorrisos, a gaveta sem pão, o prato vazio. recusamos a esmola do pão duro, com toucinho rançoso, agora vestida com embalagens de plástico e cartão colorido. recusamos as salas de aula dos bordados e o crucifixo e a bênção do sr padre e os sopapos da professora e os castigos contra a parede. recusamos o almoço na cantina.
recusamos a caridade. 
temos dignidade.

recusamos tudo isto, porque já o vivemos um dia e porque não o queremos, de volta.
recusamos o portugal salazarista, que nos querem servir requentado, em prato novo.

queremos trabalhar, com as nossas mãos, os nossos, braços, a nossa inteligência.
não queremos sair de portugal. 
amamos portugal. 
lutaremos por portugal.
faremos a greve geral.

09 novembro 2012

ética e memética

artigo de rosa alice branco que "piquei" de http://www.viralagenda.com/
Brain Dead
Brain Dead por Doug Munson


Já assistimos a muitos massacres causados pela fácil transmissão de memes. E ao sermos vítimas indefesas e, até agora, inoperativas de um massacre etiquetado com a palavra “corrupção”, podemos pensar que se trata de um meme, ou de um conjunto de memes. Na verdade, a corrupção replica-se e esconde-se de tal modo que parece ser um meme particularmente estratega, transmissível com uma facilidade assustadora, abonado por uma impunidade que faz parte do seu conceito, no seu estado mais puro. Mas, espanto dos espantos, o facto mor é que a corrupção não possui uma das características dos memes: a obrigação de se replicar não está no seu ADN.
Temos que aceitar que a corrupção é uma escolha, escolhida por alguns em benefício próprio.
ler todo o artigo em:
 http://www.viralagenda.com/posts/1http://www.viralagenda.com/posts/1

08 novembro 2012

cultura contra a austeridade


o manifesto em defesa da cultura  volta  à sociedade filarmónica agrícola lavradiense

 (SFAL).  enquanto decorre o talkshow "Cachaporreiro ao Vivo" para 

assinalar a edição nº 100 do jornal daquela colectividade alguns artistas plásticos vão pintar 

um painel -  integrando-se no espectáculo onde decorrem  entrevistas, música, acrobática, 

poesia e... pintura - e chamar a atenção sobre a situação actual do país, especialmente na área 

da cultura, decorrente da política desastrosa em cursoo convite é aberto a todos.


 A política de austeridade destrói a cultura, o país e as vidas das pessoas.

Os trabalhadores da cultura sofrem, como todos os outros, com o desemprego,
com a precariedade, com os baixos salários e com o trabalho sem direitos.

A maior parte dos trabalhadores da cultura não tem direito a subsídio de férias e
de natal, não tem direito ao subsídio de desemprego, apesar de pagar
prestações muito altas à segurança social.

A cultura em Portugal está a ser destruída pela política de austeridade. Todos os
dias, trabalhadores da  cultura abandonam a profissão ou imigram. Os mais
jovens não têm futuro. Centenas de estruturas fecham.

 Lutamos contra a política de austeridade. Exigimos 1% do Orçamento do Estado
para a cultura. Se todos lutarmos, TODOS VENCEREMOS!
http://emdefesadacultura.blogspot.pt/

07 novembro 2012

zaventem




há coisas curiosas. não sabia eu que este blog era tão lido na bélgica, mais propriamente na localidade de zaventem. a verdade é que já há algum tempo há leitores assíduos do só planicie   em zaventem, mas hoje cerca das 17,30, estavam 13 leitores on line. agora já vai em 17 consultas ao blog, só de zaventem!
fico agradecida a quem de tão longe - não sei se emigrantes - procura alguma coisa nestas páginas, imagens, leituras da realidade, do momento presente...o que seja...

obrigado a quem me lê

já agora, se lá em zaventem lerem isto, digam qualquer coisinha :)

rio de brisas azuis


rio de brisas
azuis
corres nas minhas veias

fluis
em palavras 
emprestadas
ditas por outros
antes de mim

rio
o teu nome
tejo

eu te reconheço
como se foras meu berço

nomes,
outros,
te deram

seres que
já humanos
assim
se alevantaram

e um dia
em seu olhar
te abarcaram

abraçaram

na voragem destes dias
de raiva
contida

rio
 da minha vida

só tu me dás paz 

29 outubro 2012

dar corpo ao manifesto, na sfal


(lúcio fontana)

dar corpo ao manifesto em defesa da cultura
dia 30 de outubro na sfal, 21h, lavradio


lá esperamos encontrar 
amigos
conhecidos
 quem queira ir 
e levar outros mais
quem recusa o suicídio colectivo
que nos querem impôr
porque este é o tempo de
sair à rua
 e lutar

manifestem-se!
agora 

ou 
amanhã
será tarde demais



25 outubro 2012

as mulheres não sabem




na planície ondulante

sopra um vento escaldante

o vento suão

e as mulheres não sabem

que nome dar

ao sentimento vago

que veio do mar

que lhe vagueia

na alma

e as almareia

as mulheres não sabem

os afagos

que guardam nas mãos

os mil sossegos

que lhe bailam nos dedos

com que alisam os medos

as mulheres não sabem

que os seus olhos cintilam

em lagos de mansidão

quando fundas

nas noites escuras

se dão


as mulheres só sabem

que esse quente vento

sufocante

suão

tem outros nomes

só elas sabem

as mulheres

que nomes

são

19 outubro 2012

manifestos

 em 1848 surgiu o "manifesto" mais conhecido do mundo
o manifesto comunista, publicado por marx e engels
manifesto enquanto panfleto de denúncia e recusa da socieadade capitalista e apelo à tomada de consciência dos proletários contra o seu inimigo de classe, o capital
 mais de 150 anos depois o texto continua profundamente actual


no tempo presente, face à política de destruição da sociedade democrática, da liberdade e dos direitos do povo e dos trabalhadores
os portugueses começam a assumir e a desfraldar manifestos
aqui e ali surgem os mais diversos manifestos
justamente de recusa deste caminho destrutivo
caminho já bastamente conhecido de todos os prolétários
ei-los 
alguns dos manifestos de que vamos tomando conhecimento:
surgiu em 2011 o manifesto em defesa da cultura


em setembro de 2012 foi o manifesto em defesa do pólo ferroviário do barreiro


ainda no mesmo mês o manifesto dos artistas contra a troika


depois o manifesto do design


agora o manifesto dos jornalistas 


quem é que vem a seguir?

vá, continuem a manifestar-se