25 setembro 2012
24 setembro 2012
romãs
já podemos comer romãs, descansados. com as chuvas dos últimos dias as romãs ficaram limpas, sadias.
diziam os antigos, os do sul, que davam sezões, as romãs, a quem as comesse antes das primeiras chuvas de outono.
as romãs crescem no verão e amaduram no outono.
gosto muito de romãs. de as comer. de as olhar.
oníricas romãs, lembram-me rubis.
como posso eu lembrar-me de um rubi, se tal nunca vi. é assim o nosso cérebro, uma fábrica de imagens, de coisas que só depois os olhos hão de conhecer.
é isso que faz a humanidade avançar. e recuar. recuos, se de guerras falamos. por muito avançadas, ou modernas, que sejam.
tudo isto só por causa das romãs.
nesta clara e límpida manhã apetecem-me romãs.
vou trabalhar como se comesse romãs.
ah! os antigos também diziam que se devem comer laranjas, pelo menos uma, antes do natal, para livrar de um catarral.
sabedorias de um povo, que sabia mais da terra que do seu próprio corpo.
sou mesmo do campo, eu.
23 setembro 2012
21 setembro 2012
19 setembro 2012
em defesa do pólo ferroviário: passeio de bicicleta
No domingo, 16 de setembro, realizou-se o "Passeio Ferroviário em Bicicleta", um evento que uniu a utilização da bicicleta em meio urbano com a descoberta do património ferroviário do Barreiro, através de um passeio guiado pelos diversos pontos de interesse patrimonial do concelho. Para levar a cabo esta iniciativa, o Movomento iBike Barreiro associou-se ao Movimento Cívico de Salvaguarda do Patriónio Ferroviário do Barreiro.
Sobre a importância da iniciativa, José Encarnação em nome do Movimento Cívico, considera que a mesma "constitui um factor essencial para a construção do futuro que se pretende para o Barreiro", contribuindo para a "preservação, classificação, valorização e divulgação" da cultura ferroviária que é, no seu entender, "um pilar nas referênciasa da memória e da história da cidade".
Já Nuno Paulino, da iBikeBarreiro, também realça a possibilidade de "dar a conhecer o património ferroviário existente na cidade", alertando para a "indefinição do seu futuro e manutenção", mas fala também em "utilizar este passeio para levar os barreirenses a experimentarem viver a cidade em bicicleta..."
ler mais em jornal do barreiro:
18 setembro 2012
a belém!
claro, a manif de dia 29 é importante, mas até lá...
que se lixe a troika!
e o que é importante, também, é que todos paticipem
em todas as manifs
para que derrotemos esta política neo-liberal, capitalista, imperialista e fascista!
e a próxima é já dia 21, em belém!
quem não quiser vir, que fique no restelo
que nós,
embarcamos nas caravelas!
17 setembro 2012
o sonho de pedro passos coelho
por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 11 de Setembro de 2012
Crónica 36/2012
“Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar, e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.
Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventados quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.
Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.
O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar - mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazer algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto) votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.
O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.
Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portar-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à élite.” (jvmalheiros@gmail.com)
16 setembro 2012
os anos que aí vêm hão-de ver a nossa libertação
os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão
nós carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou
abriu rios de sangue no nosso dorso.
nós empunhámos nas galés de césar
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo
na nossa pele.
a terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa
e só nós a fecundámos!
e quem abriu as artérias? quem reasgou os pés?
quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono
e quem cerrou os dentes? quem cerrou os dentes e esperou?
spartacus voltará: milhões de spartacus!
os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação
itinerário
poema de
papiniano carlos
15 setembro 2012
defender o pólo ferroviário do barreiro. passeio de bicicleta
amanhã
já depois da manifestação contra a trioka
quem quiser apareça, mesmo que não vá pedalar (como eu)
o
o movimento cívico de salvaguarda do património ferroviário do barreiro
em parceria com a iBike
promovem com o apoio da junta de freguesia do barreiro
um passeio de bicicleta a vários pontos da cidade
onde falaremos sobre a importância do pólo ferroviário, enquanto paradigma de desenvolvimento quer no passado, quer para o futuro, do concelho
ao mesmo tempo que se alerta para a exisência de um importante conjunto patrimonial edificado
com elevado potencial turístico que justifica e merece ser valorizado e classificado
como parte da memória e da história da cidade ferroviária do barreiro
ver mais informações em: http://patrimoniobarreiro.blogspot.pt/
14 setembro 2012
13 setembro 2012
11 setembro 2012
09 setembro 2012
basta!
linkado do blog http://www.facebook.com/pages/blogue-poesia/128170860528651
será uma grande falta de dignidade, como povo!continuar a aguentar tudo isto sem reagir. ou reagir olhando para o lado
07 setembro 2012
onde está a poesia
hoje a poesia
está apenas no meu olhar
e naquele recanto do jardim
nas raízes daquela árvore exótica
nos olhos do cão vadio
naquele grupo de operários
que chegam do velho porto da cuf
para o seu café de camaradas
nos guindastes
nas altas chaminés
nos castelos de betão
castelos industriais
esses são
os verdadeiros castelos do barreiro
nos barcos dos pescadores
na névoa que envolve o rio
nas velas brancas de um veleiro
naquela velha mulher
do barreiro
que como se no alentejo
ainda
varre a rua à sua porta
todos os dias
naquele grafiti
que incita
questiona tudo
nas velhas casas
ora alegres
do bairro operário
na saudação do jardineiro
no relógio
que da sua torre
me diz
são horas do almoço
no meu olhar
e no teu olhar
afinal
a poesia
anda no ar
livre
livre
nas asas de uma gaivota
05 setembro 2012
"Um canhão pelo cú" por juan josé millás
o artigo que se segue foi publicado em espanha por juan josé millas em 14 de agosto no el país. é um poderoso libelo de denúncia do sistema capitalista global financeiro que governa hoje no mundo. no país de cervantes tem sido amplamente divulgado. por cá nem por isso e alguns mostraram-se incomodados e chocados com a linguagem do mesmo. a mim o que me choca não são as palavras, mas as verdades que ele diz. aqui fica uma tradução que corre na internet:
Um canhão pelo cu
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millás
03 setembro 2012
crónica de uma manhã
de saída para o trabalho. hoje vai estar mais um dia de grande calor. lá terei de levar o meu chapéu branco...
antes passo pela avenida da praia.
que belo dia! que bela, a vida. e este rio que não me cansa, hoje um tudo nada agitado, em cintilações de aragem fresca, que me arrepiam os braços. a serra de sintra, no seu azul de lonjura. não há mariscadores hoje. ainda há dias eram às dezenas, na apanha da amêijoa que, ressurge com fartura. cópia de mariscos e toda a sorte de peixe, como escreviam no século xvi, a propósito da grande riqueza deste este rio. parece que teima em recuperar a sua saúde, este rio milenar. a natureza faz tudo por nós. e veja-se como lhe retribuímos…
antes passo pela avenida da praia.
que belo dia! que bela, a vida. e este rio que não me cansa, hoje um tudo nada agitado, em cintilações de aragem fresca, que me arrepiam os braços. a serra de sintra, no seu azul de lonjura. não há mariscadores hoje. ainda há dias eram às dezenas, na apanha da amêijoa que, ressurge com fartura. cópia de mariscos e toda a sorte de peixe, como escreviam no século xvi, a propósito da grande riqueza deste este rio. parece que teima em recuperar a sua saúde, este rio milenar. a natureza faz tudo por nós. e veja-se como lhe retribuímos…
nesta alameda,
belíssima alameda! que recorda bento gonçalves, líder comunista a quem foi
tirada a vida no campo de concentração do tarrafal, admiro eu lisboa e a vida. que
privilégio poder aqui estar, viva!
sobre lisboa levantam e aterram aviões, num constante vai-e-vem. lá vai a easy jet, é a que passa mais vezes, consigo vislumbrar-lhe as cores e logo o pensamento voa, à velocidade da luz, um dia destes lá vamos, outra vez. a caminho de lausanne.
pela alameda caminheiros matinais, homens e mulheres. tudo malta de meia idade, já. desfrutando, enquanto podem.
um bando de gaivotas mais à frente, em disputa. e eu tenho de me desviar, ou apertar o nariz. porra! porque é que a estação de tratamento, já construída! nunca mais entra em funcionamento?! porque é que continua a despejar a merda todos os dias, em dois sítios! da muralha!? quando isto acabar acho que merece fogo de artifício. isso sim é um benefício. isso é que será qualidade de vida. lá tinha que vir esta referência comezinha, estragar esta minha crónica tão bonita, do quotidiano. mas já deixei a merda pra trás e aqui vou, fazendo mais umas fotos do rio, já lhe perdi a conta. eu devia era ter sido fotógrafa.
um bando de gaivotas mais à frente, em disputa. e eu tenho de me desviar, ou apertar o nariz. porra! porque é que a estação de tratamento, já construída! nunca mais entra em funcionamento?! porque é que continua a despejar a merda todos os dias, em dois sítios! da muralha!? quando isto acabar acho que merece fogo de artifício. isso sim é um benefício. isso é que será qualidade de vida. lá tinha que vir esta referência comezinha, estragar esta minha crónica tão bonita, do quotidiano. mas já deixei a merda pra trás e aqui vou, fazendo mais umas fotos do rio, já lhe perdi a conta. eu devia era ter sido fotógrafa.
pela avenida encontro muitos jovens, de exótica beleza! estes rapazes e raparigas angolanos, na frescura da mocidade com que enchem as ruas do barreiro de algazarra alegre.
(ó pá tu toma cuidado com elas. elas são gatunas di homens! dizia um deles).
já conquistaram todo o bairro operário e continuam a tomar as tantas casas vazias que aí estão, por esse barreiro. muitos dos seus filhos têm de o deixar, por força da desgraça em que este país se vai afundando.
(ó pá tu toma cuidado com elas. elas são gatunas di homens! dizia um deles).
já conquistaram todo o bairro operário e continuam a tomar as tantas casas vazias que aí estão, por esse barreiro. muitos dos seus filhos têm de o deixar, por força da desgraça em que este país se vai afundando.
e chego ao bairro. e aqui está, à minha espera josé antónio marques e os seus mil caderninhos, manuscritos. hei-de me reformar e não acabo a leitura de tudo o que este homem escreveu. escrevia em todos os pedacinhos de papel que apanhava à mão. impressionante! e ainda os passava a limpo. ele queria mesmo que alguém lesse, tomasse conhecimento do que ele deixou, viveu. que grande cronista, ignorado que foi este operário, homem ferroviário, poeta do quotidiano, escritor, jornalista. que riqueza de informação nos deixou. não me cansarei de o divulgar em todos os forúns científicos.
cheguei ao arquivo. talvez à hora de almoço passe tudo para o computador, se não me esquecer de metade...
31 agosto 2012
paisagem
em nós
inscritas no nosso corpo
falam
a nossa voz
nós próprios somos
lugares
do ser
do sentir
do permanecer
do ficar
e do partir
se ontem fomos planície
somos hoje rio
amanhã
quem sabe
quem sabe
mar
ou
para sempre seremos
aquela árvore
que desapareceu
e
queda ficou
no espelho do nosso olhar
uma paisagem
ou eu
29 agosto 2012
a minha angústia
a minha angústia é igual à da teresa, mãe do vasco
a minha angústia é igual à da adriana, mãe do david
e da patrícia
a minha angústia é igual à da mãe do fábio
a minha angústia é igual à da mãe da virgínia
a minha angústia é igual à da eulália, a mãe do carlos
a minha angústia é igual à da mãe filipina, namorada do carlos
a minha angústia é igual à da mulher do vicente
a minha angústia é igual à da serafina
a minha angústia é igual à da augusta, mãe do mauro
a minha angústia é igual à da ana, mãe do luís
a minha angústia é igual à da mãe da sofia
a minha angústia é igual à da mãe do zé
a minha angústia é igual à da mãe do joão
a minha angústia é igual à da teresa, mãe do manel joaquim
e da margarida
e da teresa margarida
a minha angústia é igual à da maria, mãe do bento
a minha angústia é igual à das mães que vão envelhecer com saudades
dos filhos emigrantes
a minha angústia é a angústia de um país
a minha angústia é igual à minha raiva
e não acaba aqui
vai aumentando todos os dias
24 agosto 2012
estórias do latifúndio. pias, baixo alentejo
recordo-me agora, nem sei porquê, quando ía-mos ao poço, buscar "água de beber", em cântaros de barro e enfusas, à cabeça. como custava, e pesava! um cântaro cheio de àgua.
ao fim da tarde, no verão, pela fresquinha lá íamos, mulheres, mães e raparigas, pela linha do comboio, ao poço do estrela. ficava a mais de um quilómetro de distância, mas a água era muito azul e fresca. custava 7 tostões, o cântaro, se não estou em erro. depois era ver, e aprender, a arte e a elegância de colocar sobre a cabeça a enfusa, de modo a não cair e partir-se. autênticos malabarismos e «fenezas», que é outra maneira de dizer proezas.
equilíbrios de mulheres e meninas
bailarinas
jogos e movimentos
flutuantes
balançados
as pernas elevam o corpo
nas ancas o jeito cadenciado
articulado
com a firme haste
do pescoço
na cabeça
coroada
das raparigas
bem levantadas
vão ideias difusas
em barro fresco
no vermelho das enfusas
águas e vida
vidas
direitas que nem um fuso, assim deveríamos chegar à rua do castelo, ao chiadinho, ou ao caganito, cabeças e pescoços dormentes.
já a "água de gastar" ía-se buscar ao poço do comboio. chamava-se assim porque era junto à linha férrea, local onde os comboios a vapor paravam para tomar água. íamos às escondidas, sob a cumplicidade da velha georgina, guarda da passagem de nível. a cp não permitia. a água deste poço não prestava para beber, apesar de ser das mais frescas. servia apenas para os usos da casa. já de lá tinham tirado alguns afogados. lembro-me do caso de uma rapariga de 20 anos, "deixada" do namorado.
até parece que foi há séculos... e no entanto... isto eram os anos 60.
as estórias do latifúndio são assim, não têm fim. surgem, sem quê nem porquê...
19 agosto 2012
estórias do latifúndio. torre vã
por alentejos ignorados e desconhecidos chega-se à aldeia de torre vã, concelho de ourique. que nome estranho. como se pode erguer uma torre vã!? será o vento que a sustenta? será o esforço humano que a suporta? esta herdade/aldeia, quem sabe com origem medieval, dado o topónimo torre (defesa), parece ter tido origem numa grande propriedade senhorial mas, o que lê o nosso olhar é, que esta aldeia do latifúndio foi criada para servir, a uma grande casa agrária que vivia alcandorada no seu trabalho e na exploração de gerações e gerações de famílias rurais.
um grande palácio, domina tudo em redor, e apesar do abandono em que parece estar, e várias dependências, sugere que naquela propriedade viviam os senhores do privilégio. junto a uma ribeira, de que não consegui saber o nome, havia uma casa de fresco, de azul pintada, por dentro e por fora anilada, rodeada de arvoredo. nas margens dessa ribeira crescem, faias e freixos. dentro da casa, adivinha-se, viviam os senhores como altos seres marinhos, claros e arrogantes.
nas cercanias do palácio, em pequenos casebres habitavam homens e mulheres, de pele escura, negros de tanto trabalho. como formigas em carreiro, regavam com gotas do próprio rosto, os canteiros do jardim, a horta, o pomar, as searas, o olival. trabalhavam no sol a sol, de dia. de noite a aldeia velava. assim, que nada faltava aos senhores do privilégio. a aldeia trabalhava, trabalhava, mas o trabalho nunca chegava. a aldeia vivia aprisionada nos muros do latifúndio.
até que um dia rebentou a revolução. e os homens e as mulheres e as crianças e os jovens da aldeia vestiram-se dos sentimentos mais puros, rasgaram os muros e a servidão e ergueram a bandeira da coragem e firmes, e rijos, mudaram o mundo e criaram futuros. e os senhores do privilégio rastejaram, para o brasil e para a suiça e outros esconderijos. por uns tempos acabou o mal e reinou a festa universal, a fraternidade e a liberdade. mas o sonho na aldeia durou pouco - duram pouco os sonhos dos pobres - foi breve, deu em nada. e pouco a pouco os senhores do privilégio voltaram. e lá estão de novo, no palácio. hoje a aldeia voltou a ser murada.
rc
rc
15 agosto 2012
o barreiro era uma terra de promessas. era uma vez...
cristiano da fonseca júnior e sobrinho. foto de manuela fonseca
mas com o comboio chegou, também, a exploração capitalista mais moderna. e nessa terra construíram-se fábricas. o alfredo da silva construiu muitas fábricas. e o barreiro tornava-se, segundo os manuais "a mais moderna vila industrial". nunca se questionando, esses manuais, acerca das condições de vida, miseráveis, dos operários, dos bairros de barracas entre o lavradio e a baixa da banheira. só em 1948 eram mais de 480 barracas, uma enxóvia imensa, onde cresciam crianças e se desenvolviam doenças. xangai, assim lhe chamavam.
e a cuf desenvolvia-se e a exploração intensificava-se e a resistência ao fascismo também. e as prisões enchiam-se de corticeiros, ferroviários e outros operários.
e as altas fábricas do maior potentado capitalista da península ibérica prosseguiam, vomitando gases e fumos venenosos, que tudo queimavam: hortas e pulmões.
e as oficinas alargavam-se e metiam sempre mais gente, chegaram a ser 2000. tocava a buzina ás 6 da tarde, e as ruas vestiam-se de ganga azul. ás segundas feiras cheirava a ganga lavada.
e o comércio crescia e desenvolvia-se. e alguns filhos de operários já chegavam às universidades e davam excelentes engenheiros.
esta é uma história de um barreiro que começou com o caminho de ferro.
hoje encerraram as oficinas gerais do caminho de ferro no barreiro. já não vão abrir quando os seus operários acabarem as férias. ficam em casa.
e o caminho de ferro, que tudo movimentou no barreiro, acaba.
e com ele, uma parte fundamental da história desta terra, e de portugal, desaparece. quando os terrenos das oficinas forem urbanizados, para mais especulação urbana. todos ficaremos mutilados sem as oficinas (primitiva estação ferroviária, anterior a santa apolónia!), o belíssimo edifício romântico da estação fluvial, a cocheira oitocentista (rotunda das máquinas), o bairro ferroviário, o armazém de víveres do arquitecto cottinelli telmo, a estação do lavradio (já toda alterada), a ponte pedonal do bairro das palmeiras (exemplar típico da arquitectura ferroviária).
e sem os ferroviários...
o que vai ser deles!?
o que vai ser o barreiro!?
sem os ferroviários!?...
sem os comboios!?
13 agosto 2012
50 de abril
o que portugal precisa não é um 25 de abril
mas dois
um 25 de abril a dobrar
um 50 de abril!
para limpar toda a corrupção
a merda
o lodaçal
em que bóia portugal!
limpar tudo
correr com a corja
que vive à pala do sistema democrático
mas democrático para quem?
só se for para eles
para quem trabalha e a quem cortam salários,
não é
para quem ficou desempregado,
não é
para quem contribuiu uma vida inteira e agora querem roubar a pensão,
não é
para quem tem de deixar o país, para a emigração,
não é
quem pensam "eles" que são?
a quem querem enganar?
cambada de gatunos e corruptos
que desde os anos 80 governa portugal
e agora vêm dizer que está tudo mal!
vão-se embora!
eles é que têm de emigrar
vão para a comunidade
para o raio que os parta
ou fiquem por lá
não fazem cá falta
mas deixem em paz portugal!
a merda
o lodaçal
em que bóia portugal!
limpar tudo
correr com a corja
que vive à pala do sistema democrático
mas democrático para quem?
só se for para eles
para quem trabalha e a quem cortam salários,
não é
para quem ficou desempregado,
não é
para quem contribuiu uma vida inteira e agora querem roubar a pensão,
não é
para quem tem de deixar o país, para a emigração,
não é
quem pensam "eles" que são?
a quem querem enganar?
cambada de gatunos e corruptos
que desde os anos 80 governa portugal
e agora vêm dizer que está tudo mal!
vão-se embora!
eles é que têm de emigrar
vão para a comunidade
para o raio que os parta
ou fiquem por lá
não fazem cá falta
mas deixem em paz portugal!
07 agosto 2012
e o dia nunca mais nascia
o dia só nascia quando o rebanho
lesto
a caminho do pasto corria
as ovelhas e o pastor abriam a porta
ao dia
pelo céu os astros subiam
mas o dia não nascia
as rolas arrulhavam
"põe-te na rrrua
põe-te na rrrua"
e respondiam
"põe-te na rua tu
põe-te na rua tu"
os melros
de bico amarelo
furavam a escuridão dos figos
as pegas azuis
nas videiras
debicavam
todas as aves esperavam
mas o dia não nascia
só às andorinhas não incomodava
a penumbra da madrugada
mas o dia nunca mais nascia
os abelharucos
a sua plumagem colorida
da cor do mar
e dos dias solares
esvoaçavam
e o dia!? que nunca mais nascia
o vento impaciente sacudia
do arvoredo
as últimas sombras da noite
e todos os medos
mas o dia não nascia
só quando o rebanho e o pastor passavam
então sim
é que o sol
acordava
preguiçava
preguiçava
esfregava os olhos
alongava-se
saltava
da noite para o dia
então os chocalhos tilintavam
alegria
alegria
finalmente
o dia nascia
e eu estava lá
e via
25 julho 2012
20 julho 2012
oncologia barreiro
o serviço de oncologia do hospital do barreiro está em risco de fechar, por falta de médicos. a saída de dois médicos e a dita "impossibilidade" financeira de contratar outros, pode levar ao encerramento desta unidade de saúde vital.
este serviço, que recebe doentes de todo o sul do país, até à bem pouco tempo muito bem apetrechado, com excelentes médicos e com elevados níveis de qualidade, está agora à beira do encerramento.
é a isto que chegámos, com a política de ataques e esvaziamento do serviço nacional de saúde, levada a cabo pelo passos coelho, sob a tutela da troika. destruir tudo quanto representa direitos conquistados com a a revolução de abril, são os objectivos desta corja maldita, que tem um cifrão no lugar do coração.
estão em causa direitos básicos, como a saúde.
não será caso para o povo do barreiro se revoltar? ocupar o hospital!? pelo menos protestar!
como quando tentaram encerrar as urgências pediátricas, e não conseguiram.
mas o povo do barreiro, e as suas elites, parecem não dar por nada e é bem possível que isto venha a acontecer...
18 julho 2012
11 julho 2012
eu nasci num castelo
monte da bolarina, pias
eu nasci num castelo
mas não sou uma princesa
amo o meu castelo
para mim é sempre belo
castelo de noites estreladas
calmosas
onde eu menina
sonhava
quando sobre a manta
me estendia
nas pedras mornas da rua
olhando os astros
e o espaço
e pedia
"ó pai conte lá
outra vez
o conto do homem na lua"
eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo
castelo de noites estreladas
calmosas
onde eu menina
sonhava
quando sobre a manta
me estendia
nas pedras mornas da rua
olhando os astros
e o espaço
e pedia
"ó pai conte lá
outra vez
o conto do homem na lua"
eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo
na rua do meu castelo
não há palácios nem princesas
e as pedras e as casas não têm idade
mas falam comigo
sinto-as macias
perderam a aspereza
ficaram lisas
doces
sabem
o meu castelo...
como fica longe
mas para mim
está sempre perto
mas para mim
está sempre perto
estou sempre a vê-lo
e o que digo é tão certo
que não tenho pena em dizê-lo
eu
não sendo uma princesa
querendo
podia sê-lo
pois
eu
eu
nasci num castelo
05 julho 2012
emigrantes
quando passo naquele
jardim
o jardineiro sorri para
mim
desejando-me
“bom dia di
trabalho”
a sua voz de pássaro
alegre
sempre a cantar
que trouxe
das ilhas
verdes
do verde mar
deixa-me a pensar
no preço
que teve de pagar
deixar o seu país
para emigrar
trabalhar
em portugal
na sua pele
cor da sua terra
escura
brilha a alegria
da vida
em pérolas
na alva dentadura
no seu passo de coxear
posso adivinhar
a vida deste jardineiro
não
são flores
é
ou foi dura
numa obra qualquer
desta
terra
perdeu uma parte de si
do seu corpo
como se combatente
de uma
guerra
quem sabe se por isso
é agora jardineiro de serviço
neste
horto
nas contas
das grandes
empreitadas
dos exploradores
do mundo
não constam
as vidas roubadas
as famílias apartadas
o quanto pagam os emigrantes
quanto custam as suas dores
sem saber
este jardineiro
que oferece sorrisos
como flores
alegra o meu dia
tratando o seu jardim
como se fizesse amor
ou poesia
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