05 setembro 2012

"Um canhão pelo cú" por juan josé millás


o artigo que se segue foi publicado em espanha por juan josé millas em 14 de agosto no el país. é um poderoso libelo de denúncia do sistema capitalista global financeiro que governa hoje no mundo. no país de cervantes tem sido amplamente divulgado. por cá nem por isso e alguns mostraram-se incomodados e chocados com a linguagem do mesmo. a mim o que me choca não são as palavras, mas as verdades que ele diz. aqui fica uma tradução que corre na internet:



Um canhão pelo cu
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millás



03 setembro 2012

crónica de uma manhã



de saída para o trabalho. hoje vai estar mais um dia de grande calor. lá terei de levar o meu chapéu branco...
antes passo pela avenida da praia.
que belo dia! que bela, a vida. e este rio que não me cansa, hoje um tudo nada agitado, em cintilações de aragem fresca, que me arrepiam os braços. a serra de sintra, no seu azul de lonjura. não há mariscadores hoje. ainda há dias eram às dezenas, na apanha da amêijoa que, ressurge com fartura. cópia de mariscos e toda a sorte de peixe, como escreviam no século xvi, a propósito da grande riqueza deste este rio.  parece que teima em recuperar a sua saúde, este rio milenar. a natureza faz tudo por nós. e veja-se como lhe retribuímos…
nesta alameda, belíssima alameda! que recorda bento gonçalves, líder comunista a quem foi tirada a vida no campo de concentração do tarrafal, admiro eu lisboa e a vida. que privilégio poder aqui estar, viva!



sobre lisboa levantam e aterram aviões, num constante vai-e-vem. lá vai a easy jet, é a que passa mais vezes, consigo vislumbrar-lhe as cores e logo o pensamento voa,  à velocidade da luz, um dia destes lá vamos, outra vez. a caminho de lausanne.
pela alameda  caminheiros matinais,   homens e mulheres. tudo malta de meia idade, já. desfrutando, enquanto podem. 
um bando de gaivotas mais à frente, em disputa. e eu tenho de me desviar, ou apertar o nariz. porra! porque é que a estação de tratamento, já construída! nunca mais entra em funcionamento?! porque é que continua a despejar a merda todos os dias, em dois sítios! da muralha!? quando isto acabar acho que merece fogo de artifício. isso sim é um benefício. isso é que será qualidade de vida. lá tinha que vir esta referência comezinha, estragar esta minha crónica tão bonita, do quotidiano. mas já deixei a merda pra trás e aqui vou, fazendo mais umas fotos do rio, já lhe perdi a conta. eu devia era ter sido fotógrafa. 
pela avenida encontro muitos jovens, de exótica beleza! estes rapazes e raparigas angolanos, na frescura da mocidade com que enchem as ruas do barreiro de algazarra alegre
(ó pá tu toma cuidado com elas. elas são gatunas di homens! dizia um deles).



já conquistaram todo o bairro operário e continuam a tomar as tantas casas vazias que aí estão, por esse barreiro. muitos dos seus filhos têm de o deixar, por força da desgraça em que este país se vai afundando.
e chego ao bairro. e aqui está, à minha espera josé antónio marques e os seus mil caderninhos, manuscritos. hei-de me reformar e não acabo a leitura de tudo o que este homem escreveu. escrevia em todos os pedacinhos de papel que apanhava à mão. impressionante! e ainda os passava a limpo. ele queria mesmo que alguém lesse, tomasse conhecimento do que ele deixou, viveu. que grande cronista, ignorado que foi este operário, homem ferroviário, poeta do quotidiano, escritor, jornalista. que riqueza de informação nos deixou. não me cansarei de o divulgar em todos os forúns científicos.
cheguei ao arquivo. talvez à hora de almoço passe tudo para o computador, se não me esquecer de metade...

31 agosto 2012

paisagem



as paisagens viajam
em nós
inscritas no nosso corpo
falam
a nossa voz

nós próprios somos
lugares
do ser
do sentir
do permanecer
do ficar
e do partir

se ontem fomos planície
 somos hoje rio
amanhã
 quem sabe
mar

ou
para sempre seremos
aquela árvore
que desapareceu
e
queda ficou
no espelho do nosso olhar

uma paisagem
ou eu

29 agosto 2012

a minha angústia



a minha angústia é igual à da teresa, mãe do vasco
a minha angústia é igual à da adriana, mãe do david
e da patrícia
a minha angústia é igual à da mãe do fábio
a minha angústia é igual à da mãe da virgínia
a minha angústia é igual à da eulália, a mãe do carlos
a minha angústia é igual à da mãe filipina, namorada do carlos
a minha angústia é igual à da mulher do vicente
a minha angústia é igual à da serafina
a minha angústia é igual à da augusta, mãe do mauro
a minha angústia é igual à da ana, mãe do luís
a minha angústia é igual à da mãe da sofia
a minha angústia é igual à da mãe do zé
a minha angústia é igual à da mãe do joão
a minha angústia é igual à da teresa, mãe do manel joaquim
 e da margarida
e da teresa margarida
a minha angústia é igual à da maria, mãe do bento


a minha angústia é igual à das mães que vão envelhecer com saudades
dos filhos emigrantes

a minha angústia é a angústia de um país

a minha angústia é igual à minha raiva

e não acaba aqui

vai aumentando todos os dias


24 agosto 2012

estórias do latifúndio. pias, baixo alentejo


como era difícil a vida nas aldeias do latifúndio! tudo era difícil. para as crianças ainda mais. tinhamos de crescer depressa. e crescíamos.  a aprendizagem da vida começava muito cedo. ficava-se adulto, independentemente da idade, quando se começava a trabalhar. e nunca mais se parava.

recordo-me agora,  nem sei porquê, quando ía-mos ao poço, buscar "água de beber", em cântaros de barro e enfusas, à cabeça.  como custava, e pesava! um cântaro cheio de àgua.
ao fim da tarde, no verão, pela fresquinha lá íamos, mulheres, mães e raparigas, pela linha do comboio, ao poço do estrela. ficava a mais de um quilómetro de distância, mas a água era muito azul e fresca. custava 7 tostões, o cântaro, se não estou em erro. depois era ver,  e aprender, a arte e a elegância de colocar sobre a cabeça a enfusa, de modo a não  cair e partir-se.  autênticos malabarismos e «fenezas», que é outra maneira de dizer proezas.

equilíbrios de mulheres e meninas
bailarinas
jogos e movimentos
flutuantes
balançados

as pernas elevam o corpo
nas ancas o jeito cadenciado
articulado
com a firme haste
do pescoço

na cabeça
coroada
das raparigas
bem levantadas
vão ideias difusas
em barro fresco
no vermelho das enfusas
águas e vida
vidas

direitas que nem um fuso, assim deveríamos chegar à rua do castelo, ao chiadinho, ou ao caganito, cabeças e pescoços dormentes. 
já a "água de gastar" ía-se buscar ao poço do comboio. chamava-se assim porque era junto à linha férrea, local onde os comboios a vapor paravam para tomar água. íamos às escondidas, sob a cumplicidade da velha georgina, guarda da passagem de nível. a cp não permitia. a água deste poço não prestava para beber, apesar de ser das mais frescas. servia apenas para os usos da casa. já de lá tinham tirado alguns afogados. lembro-me do caso de uma rapariga de 20 anos, "deixada" do namorado.

até parece que foi há séculos... e no entanto... isto eram os anos 60.

as estórias do latifúndio são assim, não têm fim. surgem,  sem quê nem porquê... 

19 agosto 2012

estórias do latifúndio. torre vã



por alentejos ignorados e desconhecidos chega-se à aldeia de torre vã, concelho de ourique. que nome  estranho. como se pode erguer uma torre vã!? será o vento que a sustenta? será o esforço humano que a suporta? esta herdade/aldeia, quem sabe com origem medieval, dado o topónimo torre (defesa), parece ter tido origem numa grande propriedade senhorial mas, o que lê o nosso olhar é, que esta aldeia do latifúndio foi criada para servir, a uma grande casa agrária que vivia alcandorada no seu trabalho e  na exploração de gerações e gerações de famílias rurais.


um grande palácio, domina tudo em redor, e apesar do abandono em que parece estar, e várias dependências, sugere que naquela propriedade viviam os senhores do privilégio. junto a uma ribeira, de que não consegui saber o nome, havia uma casa de fresco, de azul pintada, por dentro e por fora anilada, rodeada de arvoredo. nas margens dessa ribeira crescem, faias e freixos. dentro da casa, adivinha-se, viviam os senhores como altos seres marinhos, claros e arrogantes.




nas cercanias do palácio, em pequenos casebres habitavam homens e mulheres, de pele escura, negros de tanto trabalho. como formigas em carreiro, regavam com gotas do próprio rosto, os canteiros do jardim, a horta, o pomar, as searas, o olival. trabalhavam no sol a sol, de dia. de noite a aldeia velava. assim, que nada faltava aos senhores do privilégio. a aldeia trabalhava, trabalhava, mas o trabalho nunca chegava. a aldeia vivia aprisionada nos muros do latifúndio. 


até que um dia rebentou a revolução. e os homens e as mulheres e as crianças e os jovens da aldeia vestiram-se dos sentimentos mais puros, rasgaram os muros e a servidão e ergueram a bandeira da coragem e firmes, e rijos, mudaram o mundo e criaram futuros. e os senhores do privilégio rastejaram, para o brasil e para a suiça e outros esconderijos. por uns tempos acabou o mal e reinou a festa universal, a fraternidade e a liberdade. mas o sonho na aldeia durou pouco - duram pouco os sonhos dos pobres - foi breve, deu em nada. e pouco a pouco os senhores do privilégio voltaram. e lá estão de novo, no palácio. hoje a aldeia voltou a ser murada.

rc

15 agosto 2012

o barreiro era uma terra de promessas. era uma vez...

cristiano da fonseca júnior e sobrinho. foto de manuela fonseca

sim, era uma vez uma terra chamada barreiro, que até meados do século xix vivia na idade média e de repente, com o comboio entrou na modernidade. uma terra que cresceu, e se desenvolveu graças ao caminho de ferro. sim, que o comboio sempre foi, e ainda é, modernidade e progresso. e graças às populações que aqui afluíam em busca de trabalho. o barreiro era uma terra de promessas. e no comboio chegava o trigo, das grandes planícies do sul alentejano e muitos, muitos alentejanos, que consigo traziam a sua fala do sul. e é por isso que, ás vezes, os barreirenses parecem alentejanos na fala. e chegava também a cortiça, que de comboio vinha. e nos comboios de carga, escondidos, muitos algarvios. e depois já vinham com bilhete. e outros a pé, pela linha. até ao barreiro.
mas com o comboio chegou, também, a exploração capitalista mais moderna. e nessa terra construíram-se fábricas. o alfredo da silva construiu muitas fábricas. e o barreiro tornava-se, segundo os manuais "a mais moderna vila industrial". nunca se questionando, esses manuais, acerca das condições de vida, miseráveis, dos operários, dos bairros de barracas entre o lavradio e a baixa da banheira. só em 1948 eram mais de 480 barracas, uma enxóvia imensa, onde cresciam crianças e se desenvolviam doenças. xangai, assim lhe chamavam.
e a cuf desenvolvia-se e a exploração intensificava-se e a resistência ao fascismo também. e as prisões enchiam-se de corticeiros, ferroviários e outros operários.
e as altas fábricas do maior potentado capitalista da península ibérica prosseguiam, vomitando gases e fumos venenosos, que tudo queimavam: hortas e pulmões.
e as oficinas alargavam-se e metiam sempre mais gente, chegaram a ser 2000. tocava a buzina ás 6 da tarde, e as ruas vestiam-se de ganga azul. ás segundas feiras cheirava a ganga lavada.
e o comércio crescia e desenvolvia-se. e alguns filhos de operários já chegavam às universidades e davam excelentes engenheiros.
esta é uma história de um barreiro que começou com o caminho de ferro.

hoje encerraram as oficinas gerais do caminho de ferro no barreiro. já não vão abrir quando os seus operários acabarem as férias. ficam em casa.
e o caminho de ferro, que tudo movimentou no barreiro, acaba.
e com ele, uma parte fundamental da história desta terra, e de portugal, desaparece. quando os terrenos das oficinas forem urbanizados, para mais especulação urbana. todos ficaremos mutilados sem as oficinas (primitiva estação ferroviária, anterior a santa apolónia!), o belíssimo edifício romântico da estação fluvial, a cocheira oitocentista (rotunda das máquinas), o bairro ferroviário, o armazém de víveres do arquitecto cottinelli telmo, a estação do lavradio (já toda alterada), a ponte pedonal do bairro das palmeiras (exemplar típico da arquitectura ferroviária).
e sem os ferroviários...
o que vai ser deles!?

o que vai ser o barreiro!?
sem os ferroviários!?...
sem os comboios!?

13 agosto 2012

50 de abril




o que portugal  precisa não é  um 25 de abril
mas dois

um 25 de abril a dobrar

 um 50 de abril!

para limpar toda a corrupção
a merda
o lodaçal
em que bóia portugal!

limpar tudo
correr com a corja
que vive à pala do sistema democrático

mas democrático para quem?
só se for para eles

para quem trabalha e a quem cortam salários,
não é
para quem ficou desempregado,
 não é
para quem contribuiu uma vida inteira e agora querem roubar a pensão,
 não é
para quem tem de deixar o país, para a emigração,
não é

quem pensam "eles" que são?
a quem querem enganar?

cambada de gatunos e corruptos
que desde os anos 80 governa portugal

 e agora vêm dizer que está tudo mal!

vão-se embora!
eles é que têm de emigrar
vão para a comunidade
 para o raio que os parta
ou fiquem por lá
não fazem cá falta

mas deixem em paz portugal!

07 agosto 2012

e o dia nunca mais nascia



o dia só nascia quando o rebanho 
lesto
a caminho do pasto corria

as ovelhas e o pastor abriam a porta
ao dia

pelo céu os astros subiam
mas o dia não nascia


as rolas arrulhavam
"põe-te na rrrua
põe-te na rrrua"
e respondiam 
"põe-te na rua tu
põe-te na rua tu"

os melros
de bico amarelo
furavam a escuridão dos figos 

as pegas azuis
nas videiras
debicavam

todas as aves esperavam

mas o dia não nascia

só às andorinhas não incomodava
a penumbra da madrugada

mas o dia nunca mais nascia



os abelharucos

 a sua plumagem colorida
da cor do mar
e dos dias solares

esvoaçavam

e o dia!? que nunca mais nascia



o vento impaciente sacudia
do arvoredo
as últimas sombras da noite
e todos os medos

mas o dia não nascia

só quando o rebanho e o pastor passavam
então sim

é que o sol
acordava
preguiçava
esfregava os olhos
alongava-se
saltava
da noite para o dia



então os chocalhos tilintavam
alegria

 finalmente 
o dia nascia


e eu estava lá
e via

25 julho 2012

tempo de mãe



vem cá 
andorinha minha

vem  a meus braços
pousar
que te quero com abraços
alimentar


enquanto aqui estás
todo o tempo é primavera

e eu
dou
um pouco de paz
a esta minha
constante espera

20 julho 2012

oncologia barreiro




o serviço de oncologia do hospital do barreiro está em risco de fechar, por falta de médicos. a saída de dois médicos e a dita "impossibilidade" financeira de contratar outros,  pode levar ao encerramento  desta unidade de saúde vital.
este serviço, que recebe doentes de todo o sul do país, até à bem pouco tempo muito bem apetrechado, com excelentes médicos e com elevados níveis de qualidade, está agora à beira do encerramento.
é a isto que chegámos, com a política de ataques e esvaziamento do serviço nacional de saúde, levada a cabo pelo passos coelho, sob a tutela da troika. destruir tudo quanto representa direitos conquistados com a a revolução de abril, são os objectivos desta corja maldita, que tem um cifrão no lugar do coração.

estão em causa direitos básicos, como a saúde.
não será caso para o povo do barreiro se revoltar? ocupar o hospital!? pelo menos protestar!
como quando tentaram encerrar as urgências pediátricas, e não conseguiram.

mas o povo do barreiro, e as suas elites, parecem não dar por nada e é bem possível que isto venha a acontecer...

18 julho 2012

correio aéreo das saudades


esta luz
este rio
estas manhãs
este sol a nascer


este entardecer
esta cidade
esta paisagem

a falta que podem fazer


por isso as envio
 para ti
no correio aéreo das saudades



mas
já falta pouco
para que possas
de novo
voltar 
a ver
esta terra
onde vieste nascer


boa viagem!

11 julho 2012

eu nasci num castelo



monte da bolarina, pias


eu nasci num castelo

mas não sou uma princesa

amo o meu castelo

para mim é sempre belo


castelo de noites estreladas

calmosas

onde eu menina

sonhava

quando sobre a manta

me estendia

nas pedras mornas da rua

olhando os astros

e o espaço

e pedia

"ó pai conte lá

outra vez

o conto do homem na lua"

eu não sou uma princesa
nem sinto paixão em não sê-lo
mas nasci num castelo


na rua do meu castelo

não há palácios nem princesas

e as pedras e as casas não têm idade

mas falam comigo

sinto-as macias

perderam a aspereza

ficaram lisas

doces


sabem

a saudade


o meu castelo...

como fica longe

mas para mim

está sempre perto

estou sempre a vê-lo



e o que digo é tão certo

que não tenho pena em dizê-lo

eu

 não sendo uma princesa

querendo

podia sê-lo

pois

eu

nasci num castelo

05 julho 2012

emigrantes




quando passo naquele jardim
o jardineiro sorri para mim
desejando-me 
“bom dia di trabalho”

a sua voz de pássaro
alegre
sempre a cantar
 que trouxe 
das  ilhas
verdes
do verde mar 

deixa-me a pensar

no preço
que teve de pagar


deixar o seu país
para emigrar
trabalhar
em portugal

na sua pele
 cor da sua terra
escura
brilha a alegria
da vida 

em pérolas 
na alva dentadura

no seu passo de coxear
posso adivinhar
a vida deste jardineiro
 não são flores
é
ou foi dura

numa obra qualquer 
desta terra
perdeu uma parte de si
do seu corpo
como se combatente 
de uma guerra

quem sabe se por isso
é agora jardineiro de serviço
neste horto

nas contas 
das grandes empreitadas
dos exploradores
do mundo 
não constam
as vidas roubadas
as famílias apartadas

o quanto pagam os emigrantes
quanto custam as suas dores


sem saber
este jardineiro
que oferece sorrisos
como flores
alegra o meu dia
tratando o seu jardim
como se fizesse amor
ou poesia


02 julho 2012

muito à frente no tempo


ontem, quando passava na autoestrada do sul a caminho do barreiro, avistei ao longe a igreja de messejana. 

do alto do seu cabeço, dominando várias légua em redor brilhava, branca de cal, recortada na paisagem
ondulante e azul do calor.

lembrei-me daquela história antiiiiga!, que se contava e muito arreliava os amigos de messejana. era o caso 

da praia. os de messejana desejavam fazer da sua ribeira uma praia.

pudera! com os calores que ali fazem, esturricando tudo....mas não os sonhos. 

com a história da praia tornaram-se alvo de chacota durante várias gerações.

actualmente é coisa comum fazerem-se praias aqui ou ali e hoje ninguém acharia disparatada a ideia.

a verdade é que esta história só demonstra como o povo de messejana estava muito à frente do seu tempo.

ainda hoje não têm praia, mas aquilo que eles sonharam, outros o fizeram.

diz miguel torga que o que importa é partir. pois neste caso o que importa mesmo, é o sonho. e não desistir dele. 

quem sabe um dia ...

enquanto não têm a sua praia eu ofereço-lhes esta, que trouxe especialmente do algarve para eles.


27 junho 2012

lisboa de ponte a ponte




da serra do louro
quanto pode a vista alcançar...
entre o sado e o tejo
todo o mundo é meu


à bolina no mar da palha,
aproveitando, o vento e a maré
vogam velas do barreiro


apenas em dias escuros
a luz incide, directa
na silhueta da ponte


eu, aqui de longe, tento capturá-la
e sem querer, a este pombo,
 ligeiro,
que aqui ficou prisioneiro


dias e dias de calmaria
lisboa de cores mil
hoje o tejo é de prata


na colina do castelo...
será que apenas eu consigo vê-lo?


mais belo, ainda, ao entardecer



na baixa-mar o tejo desvenda-se
em "ilhas afortunadas"


terreiro dos  passos  mil


tejo de seda
tejo veloz
deslizando
a caminho da foz


"o que importa é partir"


uma ponte no coração
com nome de revolução

vista daqui, lisboa começa em almada
e o tejo
é um pego largo
de águas mansas



a ponte espreita
sobre a língua de areia, estreita
na maré cheia de alburrica

20 junho 2012

alentejanos em extinção


mondadeiras, dórdio gomes, 1932


o passos coelho quer acabar com as maternidades das cidades de beja, évora e portalegre

... que não nascem crianças suficientes para as manter em funcionamento!!!

mas agora até as maternidades  têm que dar lucro!!

... e as escolas!?

e os serviços de saúde!?...

e os correios!?...

 e as juntas de freguesia!?...

etc., etc., etc.,

se já são poucas as crianças que nascem no alentejo

 cada vez serão ainda menos

pois têm de ir nascer... 

sabe-se lá aonde...


por este andar,
 os alentejanos vão desaparecer do mapa

12 junho 2012

à pesca no barreiro



para quem pensava que já não havia pesca no barreiro
com os novos tempos, ela aí está de volta



as poitas flutuam
no sereno deslumbramento

  


 regresso da faina


o desemprego obriga
e o moinho gigante, sempre de vigia




 amanhã é outro dia
 moinho do bento



e ainda faltam alguns nesta família...



traineiras, a caminho da doca da cp
quem sabe os mares que já navegaram



é preciso paciência, talvez pique...
e a desindustrialização em pano de fundo



sempre a música das conchas




a crise, o desemprego...
 e os novos pescadores


o guincho do cais  
na bento gonçalves



 antigo cais da mercantil



há peixinho para todos



o mouraria , velho cacilheiro, veio parar ao barreiro
afinal, não foram só os alentejanos...



na antiga doca da cp


junto á capitania, na miguel pais




caprichos da maré
na praia de alburrica




o artista passou por aqui, 
talvez entre uma pichagem e outra
um olhar sobre lisboa 
muro do mexilhoeiro



...sem dúvida!
 muro da antiga fábrica de cortiça braamcamp



...e nada como uma vela 
vermelha
para alegrar o dia