10 março 2011

era assim o moinho do braamcamp, antes do incêndio





«Nas proximidades de Alburrica, mas no Bico do Mexilhoeiro, está o Moinho do Braamcamp. As informações que dele possuímos referem a sua existência em meados do século XVIII, altura em que o então proprietário Vasco Lourenço Veloso o reedificou, em virtude de ter ficado bastante destruído pelo terramoto de 1755.
Em 1804, os herdeiros de Vasco Veloso venderam o moinho a Venceslau Braamcamp, Barão do Sobral, que o transforma num dos maiores moinhos de maré do estuário do Tejo. Ganha a designação de moinho do Braamcamp.
Mais tarde é vendido mas já por Abraham Wheelhouse a Robert Reynolds, compondo-se a propriedade então de «casas de habitação, armazéns, casa que foi fábrica de bolachas, moinho e motor de água, terras de semeadura e diversas árvores».
A antiga Quinta do Braamcamp, que no final do século XIX era conhecida por Quinta dos Ingleses (por ter pertencido a diversas famílias de origem britânica) foi adquirida pela Sociedade Nacional de Cortiças em 1897, que adaptou o edifício do moinho às suas actividades industriais, função que mantém até à actualidade».
in  Barreiro - O lugar e a História - CARMONA, Rosalina, ed. Junta de Freguesia do Barreiro, 2009, p. 82-83

Era assim ainda em 2009. Hoje o moinho está em risco de desabar e desaparecer por completo, depois que foi devorado por um incêndio na semana passada. O actual proprietário é o Banco Comercial Português, cujos lucros subriram 625% no início do ano. Não será pois nenhum absurdo esperar que o BCP « respeitando os barreirenses e a sua história, e perante os factos ocorridos, faça as obras necessárias à recuperação do moinho e tome todas as providências adequadas à salvaguarda do património que se encontra na antiga Quinta do Braamcamp» pedaços da história viva e do património do Barreiro.
É por isso que aqui fica o link da petição da Associação Barreiro Património Memória e Futuro http://patrimoniobarreiro.org/, e o convite para todos os que a queiram assinar.



26 fevereiro 2011

hoje o rio é uma brisa azul



hoje


o rio é uma brisa

azul






como um olhar



que fosse uma praia
que se espraia


na maré cheia







ou no vento


que sopra do sul





mas
a calma no rio
é apenas aparente




permanente
é o ir e vir
das ondas sobre a areia

agitando as águas
levemente




o rio


como a vida

passa veloz

por nós

como os pensamentos


ou o vento




registo a frase

escrita na muralha

por mão grafiter

tudo o que vem, vai

mas nem tudo o que vai, volta






17 fevereiro 2011

ramal de beja e outras dores de alma




eu cheguei
apanhei o comboio
que assoprava pela linha
às vezes penso comigo

e digo

triste sorte que é a minha

depois de chegar ao barreiro
embarquei
no vapor que passa o tejo

chora por mim
que eu choro por ti

já deixei o alentejo


esta moda era
cantada por alentejanos
quando as circunstâncias
e a vida,
obrigavam a deixar a terra
onde nasceram

veio-me à memória
a propósito da petição pública
que alguém me enviou
e deixo o link
para quem a quiser assinar

já nos tiraram tanto!
para que não nos tirem isso
também

«RAMAL DE BEJA E OUTRAS DORES DE ALMA »



14 fevereiro 2011

cal

a propósito

do livro de josé luis peixoto

e da sua escrita

clara
e
limpa

como a cal

das paredes
e
 portados

da bela
e
luminosa

cidade

de

serpa
























































 
 

31 janeiro 2011

terras de endovélico


horizonte sem limites


nas margens desta ribeira nascem poejos...

hoje não há queijos
talvez
para a próxima vez

a planície
como se fosse o olhar
pela serra d'ossa
à vila do alandroal

terras de endovélico
divindade da idade do ferro
pré-latina
deus da medicina
terras de homens curandeiros

cristianização de antigos sitios pré-históricos


castelo de terena

largo do castelo velho
como dói
o vazio das ruas

sombras do passado

por esta gateira não passam mais gatos


ao fim da tarde
o olhar chega mais longe

perde-se o olhar
de tanto olhar

a noite vem
de mansinho
embrulhada
em xaile de frio
fininho

23 janeiro 2011

história de uma noite fria





era uma vez

uma noite fria
num país distante

nessa noite
a neve
 caía
caía
e 
ao cair
transformava-se
 em luz

nesse país estranho
 nessa noite fria
havia
uma semente


que nascia
alagando
a raíz da noite
no último dia
 do ano

naquela noite 
em terra distante 
e fria

 num repente

a noite
escura
ficou mais quente
da chama que em nós ardia

e a noite fêz-se branca
 branca
de tanta luz
de esperança

tanta

24 dezembro 2010



apesar da crise

apesar do desemprego

apesar das agências de rating

apesar da neve

apesar do frio

apesar da noite

apesar dos pesares

há a família

há a amizade

há a solidariedade

há a vontade de paz

porque a esperança também pode ser rubra
como as papoilas


para que 2011 seja um ano melhor


porque o natal pode ser um dia qualquer

18 dezembro 2010

como se uma manhã qualquer



manhã
como se uma manhã qualquer

 esta é uma manhã de frio
4 graus na verderena!

até as gaivotas
como adivinhando tempestade
todas em terra
aguardam
serenas

nesta manhã de maré cheia
de rio revoltado na muralha
lisboa brilha ainda mais
e o frio
um frio cortante
que cresta a pele
pele como pão
pão da minha terra
terra como pele
pele como terra lavrada
penso em ti
rapazinho da t-shirt vermelha
desbotada

penso em ti
e nesse olhar
triste
olhar a disfarçar a  tristeza
 que vai pelo mundo

nessa tua t-shirt vermelha
russa
aí parado
ao frio

e eu com vontade de te dar um abraço
e falta-me a coragem

e fico de longe
a olhar-te
sem te dizer
as palavras

que talvez não entendesses
porque o modo de falar
da terra onde nasceste
não é o meu

dizer-te
que és tão humano como eu
tens veias
pele
e sangue
e estás aqui
perdido

e o meu coração partiu-se
nesta manhã de gelo


22 novembro 2010

no outono








adoro no outono
a frescura das manhãs

o cheiro do lume

os primeiros casacos de lã


as neblinas nos telhados

macias

finas

como bordados

amo o outono a despir-se em folhas

douradas

vermelhas

misturadas
com as folhas desenhadas na calçada

adoro as madrugadas frias

e o cheiro da maresia

que me faz acordar

a julgar que é poesia


adoro o rio

picado

agitado
com mil cores

escuro da cor do barro

barro deste barreiro

lavado
lavrado por pescadores

adoro a fruta de outono

castanhas, marmelos e romãs


as despedidas de verão
o mercado e as bancas coloridas
frescas como as manhãs

outono

é o tempo de que mais gosto

mesmo se às vezes
a contra-gosto
os dias me são pequenos
para fazer tudo o que gosto

adoro o outono

08 novembro 2010

foi para isto que se construiu alqueva?

chocante exploração dos recursos, com vista à produção maciça de lucro
sem qualquer preocupação com o futuro



beleza e racionalidade do olival tradicional




o alentejo está a mudar
a paisagem que eu conheci está a desaparecer
rápida e dramaticamente
qualquer dia não conheço o lugar onde nasci

a planície, terra do pão, já não existe
ninguém cultiva hoje pão, no alentejo

as melhores terras da planície estão agora a ser transformadas em campos de produção de azeite
olivais de produção massiva e intensiva
olivais para produzir apenas por uma dúzia de anos
com árvores controladas para que não cresçam mais que até à altura das máquinas que vão apanhar o fruto
olivais hibridos
com oliveiras fabricadas em laboratórios
que produzem bagas redondinhas, em vez de azeitonas
bagas de oliva

bagas que são, várias vezes ao dia, regadas e pulverizadas para que cresçam e amadureçam rapidamente
é impressionante a quantidade de produtos químicos que são descarregados para os solos, todos os dias, a toda a hora para que não nasçam ervas e morram todos os insectos



entretanto o olival tradicional vai desaparecendo e a produção de cereais que lhe estava associada é quase residual e vai dando lugar a este fenómemo de produção intensissima cujo desfecho é previsível, quanto ao esgotamento dos solos

e ainda pior! é que toda a riqueza produzida não fica no país, porque os donos dos olivais não são portugueses
nem contribuem para o desenvolvimento local, porque empregam escassa mão de obra e destroem a nossa agricultura
além dos benefícios que ainda recebem, pois nem sequer a água da rega pagam durante dois anos

foi para isto que se construíu alqueva?
não creio

e os agricultores alentejanos? porque estão de braços cruzados?



aflige-me e choca-me ver aquilo em que o alentejo está a ser transformado

quando alguém acordar para este problema pode ser tarde demais