04 novembro 2010

madrugadas claras



algures

num alentejo fundo

tanto como o vale do guadiana

entre serras

a de serpa e a de mértola

as noites são mais azuis

iluminadas
apenas
pelas estrelas

o ar leve
tanto

transporta-nos
até júpiter e suas luas

alentejo tão fundo como a noite
como o céu

as palavras são poucas

e

 gastas

é preciso inventar novas

que escrevam esse céu

essa planície
quase
infinita

essas madrugadas
claras

envoltas em tules finos
 de névoas

e os dias trabalhosos
longos
ainda que o sol se esconda cedo

dias de trabalho
esforçoso

 breves

para mim

não para outros

22 outubro 2010

o relógio de santa cruz dá horas



o relógio de santa cruz dá horas

mas horas de quê

horas de dormir, horas de acordar, horas de sair de casa, apanhar o autocarro, sair do autocarro apanhar o barco, sair do barco apanhar o metro, sair do metro correr um pouco apanhar o elevador, entrar no escritório a horas de saudar os colegas e ligar o computador.

quando o relógio de santa cruz dá horas, no peito batem saudades. a certas horas tenho saudades de certos sorrisos, quando chegavas a certas horas. está quase na hora de te dar um abraço. são horas de te dizer,e mesmo que o não diga, gosto de ti a todas as horas.


batem horas no relógio de santa cruz e podem ser horas felizes, horas de sorte, horas de azar, horas mortas, horas de chegada, horas de partida. pode ter chegado a hora de alguém um pai, uma mãe, um irmão, um amigo, uma amiga.


às horas que toca o relógio de santa cruz apita a sirene das oficinas. são horas do almoço. horas de escutar o silêncio ensurdecedor quando se desligam os motores das locomotivas em afinação. horas de sair para a rua descer a escadaria, apanhar um pouco de sol, ler o comunicado do sindicato a apelar à greve geral.

o sino do relógio da torre da igreja de santa cruz diz que são horas de sair de casa, passar pelo mercado, passear pela avenida e na companhia da amiga atravessar o parque a caminho do rio, que lisboa já está à espera há horas.

antes do bater das horas no relógio de santa cruz já a fila à porta da segurança social engrossou e dobra a esquina, horas e horas de espera para ouvir a mesma resposta: não há ofertas de emprego, volte cá no dia x às tantas horas.

o relógio de santa cruz dá horas e há corvos negros a grasnar desespero, em cima dos telhados das casas, há horas. nessas horas em que o relógio de santa cruz bate no tempo escutam-se vozes, ou serão corvos a grasnar, o orçamento, a crise, a austeridade, a instabilidade.

agora o relógio de santa cruz está a dar horas, olho e parecem-me horas de esperança. vamos a ver o que isto dá.

20 outubro 2010

esta cidade


foto: josé encarnação

chego

ainda com a luz e o espanto da planície

no olhar

debruço-me sobre a cidade na outra margem

turbilhão de  luzes

cidade do meu enleio

que me desarma

sempre à espera do meu olhar


cidade de angústia

e ainda assim que eu amo


esta cidade

este país

que não adormece

nem acorda

e me entristece

03 outubro 2010

hoje não quero o silêncio




hoje não quero silêncios

de bosques imaginados

não quero o silêncio dos rios perdidos

encantados

não quero silêncios de penumbras

transparentes


hoje não quero o passado


não quero as vozes ausentes

hoje não quero o silêncio das aldeias


hoje quero o presente


hoje quero bandeiras

vermelhas

vermelhas

como o sangue

que corre nas veias

26 setembro 2010

as palavras




as palavras

como são importantes

nas nossas vidas



com elas vestimos sentimentos

pintamos esperança


ou cortamos a rosa

cerce



às vezes parecem banais



as palavras



e a necessidade

de serem

não mais

que



apenas

autênticas



08 setembro 2010

ontem pela manhã





















ontem pela manhã



a chuva foi chegando

mansinha

devagar



manhã de setembro



fina como tule



foi-se agitando o rio

em tons de seda lavrada

rumorosa



e

as árvores da bento gonçalves

quando o vento as faz baloiçar

acordam em sons

como alguém a pisar

 a caruma dos pinhais



e é como se

nesses passos

alguém

encontrasse num repente

e puxasse

o fio

das memórias perdidas

escondidas

intemporais



a chuva

com agulhas fininhas

vai-me furando a pele

e ameaça acabar com o meu passeio

pelo barreiro velho



recolho-me

numa rua estreitinha

no alto do hospital

 entro por uma travessinha

sem nome
e em passo lento

 atravesso

num suave retrocesso

um local

fora do tempo



e eis maria vicente

mulher quinhentista

burguesa

do barreiro natural e vivente

à porta de seu hospital

que ali fundou

para a pobreza



num pequeno janelo

dois pares de olhos

verdes

coruscantes

em anelo

espreitam



maria vicente

e suas gatas à janela



entro

e converso com elas


penso na máquina

do tempo

se eu conseguir tirar!...

a fotografia



mas quebro a magia

fogem os gatos

e oiço uma voz

trocista



estas gatas são umas artistas

não se deixam fotografar



ontem pela manhã

a chuva correu a cortina

do verão

e declarou o fim das minhas férias

mas foi em vão

não me apetece voltar

à rotina



vou continuar no verão




30 agosto 2010

tempo de partir





manhã fresca 

fim de estiagem

tempo

de reunir

forças

preparar

a

dura

 viagem


partir


pensando em voltar

voando

voando


quem sabe

o que levam na alma 

o que as faz regressar


quantas

quando


se

voltarão


ou não


boa viagem!

24 agosto 2010

há coisas que só no barreiro...







há coisas que só no barreiro...

como esses fins de tarde

em que me debruço da janela

quando o calor já fugiu

para trás do mar

e o rio está á minha espera


no quintal os cães disputam

a minha atenção

o meu olhar


e a gatinha preta

que teve outra ninhada

perdida

(outra vez)

já anda de novo

assanhada


as árvores esperam

 sequiosas

 ansiosas

uma gota de água


é nestes fins de tarde

que amo mais o barreiro


e a poesia chega

súbita

em sons e música


é o jazz

irrompe pela tarde

salta pelas janelas

abertas

dos corticeiros

mesmo ao lado dos penicheiros

e

invade

tudo


pula os muros dos quintais

alaga-se pelas ruas da cidade

e segue

em passo ligeiro

para a esplanada


senta-se

e pede uma água gelada


e fica ali

a apreciar a vida

quase esquecida

de si

16 agosto 2010

noites de verão


a lua inunda o céu

como uma praia

o calor sobe da terra

e eleva-se no ar o cheiro a palha


 às primeiras horas da madrugada

adoçam perfumes

tocados pelo orvalho


se estivesses aqui

sentirias

a aragem

e o perfume

que solta

o canteiro dos orégãos

11 agosto 2010

oceano ascendente





sentada nos portados

apanhando o fresco ar

a noite

é bela

sem estrelas

apenas luar


o céu

um mar de prata

com sardinhas

ou meteoritos

a saltar

deito-me no chão

e está quente


numa vertigem

deixo-me levar


lentamente

no oceano ascendente


não sei

se vou regressar

03 agosto 2010











alta vai
a águia
que voa acima do castelo

uma leve aragem
ainda fresca
sopra no pasto
e faz subir pela encosta
o latir dos cães
e o cantar dos galos

na aldeia de baixo
o calor
derrete as vozes
das mulheres

o sino da torre acorda o silêncio
é meio dia

ao lado alguém pergunta
it's closed?
refere-se ao posto de turismo
yes, i think so
é a resposta

o vazio enche as ruas
no castelo de évora monte

são horas do almoço

29 julho 2010

hoje a solidão


hoje a solidão

é branca

como a cal


rasa

como campa


é uma estrada aberta

na planície deserta

sem fim à vista


infinita


amanhã

sabe-se lá

a cor que terá

22 julho 2010

ao fim da tarde



no largo da aldeia

a meio da tarde

naquela taberna

vendem-se coiratos

e fazem-se seguros


os homens sentados à porta

esperam o fim da tarde


os copos na mão

mirando a planície

seca

ondulante de calor


o pasto quase branco

o branco das casas

a cal

faiscando ao sol


e a planície distante

os homens alongando o olhar

até à lonjura


vão sorvendo pequenos goles

de solidão

com sabor a vinho


e sentem saudades

de um tempo não vivido

antigo

como sempre foi o futuro

16 julho 2010

estava mesmo bom! o caspacho...





pois o caspachinho estava mesmo bom! (caspacho não é erro é um regionalismo de pias).
o caspacho, receita simples e fresca. o pão alentejano, naturalmente, o tomate e o pepino. tudo muito migadinho. às vezes também pedacinhos de pimento verde. flor de orégãos triturados entre as mãos, por cima do tomate e umas pedrinhas de sal em cima, para tomar gosto. mas antes já os dois dentes de alho, não muito grandes para não ficar indigesto, haviam sido esmagados com sal no fundo da pelingana (quem não souber o que é procure no léxico pieiro). dá-se assim umas pisadelas no tomate e no pepino para extrair os sucos e depois despeja-se água bem fresca, azeite de moura e bastante vinagre. tem de ser. mexe-se muito bem para misturar o azeite com a água, mas é claro que não se consegue! o azeite é como a verdade e vem sempre ao de cima. verdades do povo, como o caspacho. depois de já estar toda a gente sentada à mesa juntam-se as sopas e tira-se logo para os pratos. que sabem bem é rijinhas e não moles. como certas coisas, enfim. acompanha-se com carapauzinhos fritos, ou uns niquinhos de presunto, mas havendo peixe não há necessidade. e azeitonas, não podiam faltar. e está pronto um grande banquete. e uma grande barrigada, mas barrigadas destas, venham elas...

aquela cidade II












































é estranha aquela cidade

ali correm rios de petróleo
petróleo nos táxis amarelos, aos milhares
petróleo nos camiões ruidosos, dia e noite, percorrendo a cidade
petróleo nas ruas de alcatrão
petróleo nas pastilhas elásticas pisadas nos passeios
petróleo nos plásticos dos talheres e nos pratos dos restaurantes de fast food
petróleo no ar condicionado do quarto de hotel
petróleo nas lojas para onde fugimos dos 42 graus celsius que abrasam a cidade
petróleo em milhões de luzes de janelas, nos escritórios vazios à noite

naquela cidade respira-se petróleo

aquela cidade quase sucumbe às toneladas de lixo em sacos de plástico preto
e ao fedor que deles emana aescorrer pelos passeios

aquela cidade é mesmo estranha

naquela cidade busquei a poesia
e não descobri gaivotas

os arquitectos daquela cidade esqueceram-se das praças
da arte pública
das fontes
dos jardins
e dos canteiros com flores

naquela cidade não há gaivotas

naquela cidade estranha eu não poderia viver

aquela cidade é nova york

10 julho 2010

aquela cidade























naquela cidade as casas nasceram da terra
como as árvores


e subiram no céu




aquela cidade é uma floresta
selvagem
mas sem árvores
apenas casas

casas gigantes
ferozes
hostis
ocupando a floresta antiga



aquelas casas expulsaram os homens
e agora vivem ali
como se fossem homens

casas
que na noite
parecem vazias
com milhões olhos
luzes
vigiando os homens
e o mundo

os índios
habitantes daquela cidade
foram expulsos

chegaram outros
homens
construiram um muro
naquela rua
e naquela lingua
chamaram-lhe wall street

dali
da rua do muro
daquela cidade
as casas
belas
e desumanas
governam o mundo
dos homens

como se fossem homens

aquela cidade é nova york

25 junho 2010

o rio da minha infância




























o rio que corre na minha aldeia já não é o mesmo. mas tem o mesmo nome, segue o mesmo curso e vai desaguar no mesmo exacto ponto da margem esquerda do guadiana. as suas águas antes corriam livres e hoje perdem-se no caminho, presas como ovelhas em apriscos, a que chamamos barragens. o nome do rio deram-lho os habitantes da minha aldeia. há tantos séculos que ninguém se lembra já do seu significado. vá-se lá saber o quer dizer enxoé. nas margens deste rio sonhavam os pescadores de ribeiras apanhar pardelhas nas suas nassas, aparelhos de pesca tão antigos como os homens, da minha aldeia. mas a minha aldeia também já não é a mesma. hoje a minha aldeia é uma vila e as ruas onde brinquei e corri,  cheias de gente rumorosa, estão agora povoadas de fantasmas, mulheres velhas e gastas pela ausência de maridos,  filhos e netos. as suas mãos vazias agitam lenços brancos, molhados de lembranças. a minha aldeia já viu partir tanta gente! acho que também o rio partiu. apenas a ponte persiste em ficar, presa ao tempo dos homens. talvez ela sonhe também em partir, em busca do rio da minha infância.

18 junho 2010

José Saramago para sempre Levantado do Chão



neste dia em que José Saramago interrompeu para sempre a escrita, recordo da sua vasta obra uma passagem de Levantado do Chão, para mim a mais significativa de todas as histórias que escreveu. respigo justamente um trecho em que o nobel da literatura portuguesa  se refere à passagem dos presos políticos alentejanos pela estação ferroviária do barreiro, quando chegavam aqui de comboio escoltados pelos guardas da gnr ou pelos agentes da pide, a caminho das prisões fascistas. na subtileza da sua escrita temperada de fino humor, Saramago descreve os sentimentos de João Mau-Tempo, personagem principal desta história do latifúndio, trabalhador rural alentejano preso na década de 50 por ter participado num levantamento de rancho.
«Passemos agora sobre a viagem, uma vez que não é capítulo admitido na história dos caminhos de ferro em Portugal. É o corpo tão soberano senhor que João Mau-Tempo chegou a dormitar, ao embalo do vagaroso da carruagem e do bater do rodado na junção dos carris trástrás, mas depois abria os olhos angustiado para cada vez descobrir que não ia a sonhar. Depois foi o barco para o Terreiro do Paço, se eu me atirasse à água, são pensamentos negros, acabo comigo, e não de acção heróica, que tem João Mau-Tempo isto de singular de não ter visto nunca cinema e não saber portanto quanto é fácil e aplaudido o salto sem mãos sobre a amaurada, o mergulho impecável e aquele nadar americano que leva o fugitivo ao misterioso barco fretado que afastado espera com a embuçada condessa que para esta acção cometer quebrou os sagrados laços da família e os ditames do património condal. Mas João Mau-Tempo, só mais tarde se virá a saber, é filho de rei e único herdeiro do trono. real, real, por João Mau-Tempo rei de Portugal, aí encosta o barco ao pontão, quem ia adormecido acordou, e quando o preso dá por si estão dois homens na sua frente, Então é só este, perguntam, e aquele que veio de acompanhante responde, Desta vez não há mais.» p. 240