neste dia em que José Saramago interrompeu para sempre a escrita, recordo da sua vasta obra uma passagem de
Levantado do Chão, para mim a mais significativa de todas as histórias que escreveu. respigo justamente um trecho em que o nobel da literatura portuguesa se refere à passagem dos presos políticos alentejanos pela estação ferroviária do barreiro, quando chegavam aqui de comboio escoltados pelos guardas da gnr ou pelos agentes da pide, a caminho das prisões fascistas. na subtileza da sua escrita temperada de fino humor, Saramago descreve os sentimentos de João Mau-Tempo, personagem principal desta história do latifúndio, trabalhador rural alentejano preso na década de 50 por ter participado num levantamento de rancho.
«Passemos agora sobre a viagem, uma vez que não é capítulo admitido na história dos caminhos de ferro em Portugal. É o corpo tão soberano senhor que João Mau-Tempo chegou a dormitar, ao embalo do vagaroso da carruagem e do bater do rodado na junção dos carris trástrás, mas depois abria os olhos angustiado para cada vez descobrir que não ia a sonhar. Depois foi o barco para o Terreiro do Paço, se eu me atirasse à água, são pensamentos negros, acabo comigo, e não de acção heróica, que tem João Mau-Tempo isto de singular de não ter visto nunca cinema e não saber portanto quanto é fácil e aplaudido o salto sem mãos sobre a amaurada, o mergulho impecável e aquele nadar americano que leva o fugitivo ao misterioso barco fretado que afastado espera com a embuçada condessa que para esta acção cometer quebrou os sagrados laços da família e os ditames do património condal. Mas João Mau-Tempo, só mais tarde se virá a saber, é filho de rei e único herdeiro do trono. real, real, por João Mau-Tempo rei de Portugal, aí encosta o barco ao pontão, quem ia adormecido acordou, e quando o preso dá por si estão dois homens na sua frente, Então é só este, perguntam, e aquele que veio de acompanhante responde, Desta vez não há mais.» p. 240