09 junho 2010

chuva de verão




a noite escorre pelas vidraças
como a chuva
suave
que numa leve capa
envolve a cidade

fica estranha
a noite sem estrelas

a tempestade
em reflexos roxos
rasga o silêncio
em tonalidades belas

as vagas no rio
arrepiadas de medo
ou de frio
enrolam-se e guardam segredos
de mitos antigos
verdadeiros ou não

é apenas mais uma noite
e a melancolia da chuva de verão

24 maio 2010

poema de sidónio muralha




parar. parar não paro.
esquecer. esquecer não esqueço.
se carácter custa caro
pago o preço

pago embora seja raro.
mas o homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso

um rio, só se for claro.
correr, sim, mas sem tropeço.
mas se tropeças não paro
- não paro nem mereço.

e que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.

sidónio muralha
poemas de abril, prelo, 1974



19 maio 2010

inteireza




não sei não ser sincero,
nem o quero.
se o não fosse,
o que eu dissesse,
o que eu fizesse,
poderia ser mais belo, seria mais prudente,
dar-me-ia um mais doce sossego do que tenho,
mas o que não teria, com certeza,
era esta singeleza,
era esta inteireza,
que mantenho,
em manter-me comigo intransigente.

Armindo Rodrigues
O Poeta Perguntador



14 maio 2010

este nosso tempo sombrio

entre a festa do futebol e a visita do papa passam em roda-pé notícias do aumento dos impostos, da criação de novos impostos agora chamados taxas especiais, da redução dos salários e das reformas e do subsídio de desemprego, do corte dos direitos de quem trabalha. será isto uma república demcrática, laica,  livre e desenvolvida? a impressão que tenho é que vivo em itália, o primeiro ministro é berllusconi, a imprensa foi comprada pelo governo e a máfia assaltou poder.

10 maio 2010

o povo grego resiste




o povo grego é um exemplo de resistênciapara os povos da europa e do mundo
 à ofensiva do capitalismo global

05 maio 2010

de volta a setúbal... se não fosse a grécia

o que me apetecia mesmo era falar de setúbal. a azáfama do porto de setúbal em dia de trabalho. tudo na labuta. os pescadores de volta das redes e dos barcos. trabalhadores do porto manobram guinchos de puxar os barcos para terra, outros em pequenas reparações, alguns velhos, antigos pescadores, sentados à conversa. poucos turistas em passeio. muitos pescadores com os apetrechos montados, a pescar na muralha. uma mulher pescadora, de bmw ainda dá mais nas vistas. a figura alta e esguia de um homem de pé, pele tostada pelo ar salgado.  olha o rio azul que se reflecte no seu olhar, fumando calmamente. talvez numa pausa antes de recomeçar a faina. aprecia... qualquer coisa, ou pessoa que lhe passe pela frente. o cheiro do peixe e da maré, à primeira sensação desagradável,  logo se torna natural quando nos damos conta do local em que nos encontramos. é o odor forte e característico de um porto de mar e da lota vizinha. a vista das embarcações de pesca. indescritivel beleza! mil fotografias e não conseguiríamos captá-la, ou todo o labor que envolve essa faina pesada e perigosa, que ainda é a pesca. o colorido dos barcos, arrumados em duas ou três ordens, o seu baloiçar suave nas águas, os gritos das gaivotas e as disputas pelo peixe, a ingenuidade dos nomes inscritos na proa e na popa. sempre a fé, a mística, o nome de alguém querido em reverência temente. à imponderabilidade. em terra, antigas barcaças desoladas,  sem préstimo, contapõem a sua desordem. seriam precisas horas e horas para descrever um dia de trabalho e todas as sensações que nos assaltam. as músicas que nos afloram a lembrança, como se já as tivessemos escutado antes, ali naquele preciso local...os poemas que escrevemos mentalmente e não passámos para o papel...talvez num outro dia, mais inspirado..e . era disto tudo que gostaria de falar se não fosse a grécia e a luta de massas e toda a violência que envolve a exploração capitalista e a resistência que é preciso opôr-lhe.



















30 abril 2010

maio maduro maio


Maio maduro Maio
quem te pintou
quem te quebrou o encanto
nunca te amou
raiava o sol já no sul
e uma falua vinha
lá de Istambul

sempre depois da sesta
chamando as flores
era o dia da festa
Maio de amores
era o dia de cantar
e uma falua andava
ao longe a varar


Maio com meu amigo
quem dera já
sempre no mês do trigo
se cantará
qu'importa a fúria do mar
que a voz não te esmoreça
vamos lutar

numa rua comprida
el rei-pastor
vende o soro da vida
que mata a dor
anda ver, Maio nasceu
que a voz não te esmoreça
a turba rompeu

Zeca Afonso


28 abril 2010

cinismo e bloco central



cavaco tanto pediu, as agências tanto ameaçaram...estava-se mesmo a ver no que isto ia dar. as agências,  quem são esses? são representativos de quem, esses das agências? são os nossos patrões globais, aqueles que não têm rosto, têm mas escondem-no. democracia?  democracia sim senhor, somos muito democratas, até admitimos que façam greves e manifestações. veja-se se isto não é o cúmulo da democracia, querem mais. ditadura? não senhor, ditadura não mas quem manda somos nós e ponham-se mas é a pau, senão ainda nos armamos em salvadores da pátria, que até já somos! para salvar a democracia! os gestores e os prémios vergonhosos? não são vergonhosos, são merecidos atingiram os objectivos. administração pública? salários minimos? desemprego? não há dinheiro, o país precisa de sacrífícios. vamos fazer auditorias às prestações sociais. grécia? lixo, a grécia? pois, e toca a aplicar o nosso plano de exploração capitalista! o voto? vocês votam em quem nós quisermos. uma frente unida, de esquerda contra o bloco central?  nós não deixamos!
a ver vamos!

26 abril 2010

pescarias em setúbal


belíssimo cenário o da arrábida, serra mãe de sebastião da gama, num verde refulgente de pinheiros bravos, coroada pela fortaleza três vezes filipina (construída por filipe I, denominda de s. filipe, sob o risco de fillipo terzi). a seus pés, entre a serra e o sado azul de golfinhos, a cidade de bocage . caminhando pelo cais sente-se o rio, que se enrola em pequenas ondas num marulhar de conchas, alongando-se na estreita língua de areia que a maré baixa descobriu. que paz! que sossego! traineiras regressam da pesca, quem sabe se carregadas de sarrdinha e carrapau. a brisa leve sopra nas faces e enfuna velas nas roupas. os pescadores da muralha lançam o isco para longe... com sorte virá um robalo, mas se for massacote ou alcorraz também não é mau. já umas esquilhas só mesmo no prato. ou uma sarda escalada, mas só se for com bastante sal e orégãos, para disfarçar o sabor do pechum desses petiscos de pobres e antigos pescadores. salmonete é só para quem lhe pode chegar. um cargueiro chinês abandona o porto da cidade sadina, enquanto os ferrys não param na sua canseira de trasvessias. o sado, um tudo nada picado por alguma aragem, oferece uma superfície de de diamantes faiscando ao sol, agora um pouco mais forte. apetece deitar na relva e preguiçar, lentamente.