vale a pena ver o filme de Michael Moore. pena é que seja visto por tão pouca gente. basta dizer que não conseguimos vê-lo no Barreiro e tivemos de ir a Almada e connosco apenas havia 12 pessoas na sala! o documentário é um acto de coragem e denúncia, quase individual de Michael Moore, onde o activista cívico nos surge, qual D. Quixote, lutando contra moinhos de vento na mais poderosa nação do mundo capitalista. por esse facto Moore merece o nosso respeito e solidariedade. Michael Moore apresenta ao mundo, com factos e documentos, a verdadeira essência do sistema capitalista, vigente na tão proclamada “maior democracia do mundo”. mostra como gigantescas companhias financeiras dominam o sistema político colocando os seus privados interesses à frente do país e dos cidadãos. como a corrupção domina o esteio da sociedade e como tudo isto conduziu á profunda crise económica que dilacera a América e o mundo ocidental. é esta nação que permite que milhões!!! de cidadãos sejam expulsos de suas casas, percam todos os seus haveres e sejam lançados na mendicidade, que se arroga o direito de dar lições de democracia e de direitos humanos ao mundo. o que vimos no documentário seria impensável acontecer na Europa, sem que se gerassem revoltas, como as que estão a suceder na Grécia actualmente. porque uma das coisas que mais impressiona no documentário é a passividade com que os americanos - tão guerreiros e combatentes no Iraque e no Afeganistão! - aceitam o que lhes está a acontecer. o que sucedeu ao espírito da nação americana que protagonizou o amplo movimento popular, precursor da Revolução Francesa, que conduziu à declaração da Independência dos USA? a mim revolta-me que os americanos aceitem, e ainda agradeçam, às financeiras e imobiliárias, que tudo lhes roubam, pequenas esmolas que lhe atiram. e sobretudo, choca-me a falta de cultura democrática em contestar as leis vigentes.
02 janeiro 2010
27 dezembro 2009
os amigos
como são importantes os amigos
só há pouco tempo descobri como andei distraída sem perceber que tinha tantos
cada um com a sua história, o seu mundo que em alguma parte encaixa no meu
isso faz com que eu me sinta especial
por causa desses tantos amigos e amigas, que eu não sabia que tinha, desconfio que sou uma pessoa melhor e isso faz-me sentir muito bem.
só há pouco tempo descobri como andei distraída sem perceber que tinha tantos
cada um com a sua história, o seu mundo que em alguma parte encaixa no meu
isso faz com que eu me sinta especial
por causa desses tantos amigos e amigas, que eu não sabia que tinha, desconfio que sou uma pessoa melhor e isso faz-me sentir muito bem.
25 dezembro 2009
19 dezembro 2009
16 dezembro 2009
história de natal. fuga para a cidade
quando avistaram a ponte sobre o Tejo já a madrugada adormecia e uma claridade difusa desenhava os contornos de Lisboa. era quase véspera de natal de 1972. para trás ficava uma noite em claro, na camioneta, mais de seis horas de caminho. na cabine quatro pessoas: o motorista que espantava o sono com a própria voz, ela, apertada ao lado da mãe e o mais novo ao colo. lá atrás a mobília, coisa pouca, uma mesa de cozinha, um pequeno fogão a gás, algumas cadeiras, as camas de ferro e os colchões de lã, uma arca com cobertores e pouco mais. no meio de tudo aquilo o pai e o outro irmão. deixaram a aldeia já noite fechada, evitando discretamente a vizinhança. tomaram o caminho do castelo velho, passaram Vale de Lagarinhos e entraram na estrada. avistaram Serpa e logo depois deixaram o seu querido Guadiana e a margem esquerda. a camioneta velha e ronceira não deixava o sono pousar.
havia algum tempo que o pai não falava de outra coisa, que deviam deixar a aldeia! a ver se a pide o largava e lhe perdia o rasto de uma vez. já outros camaradas o tinham feito e dera resultado. e foi assim que abalaram para Alverca. a tia já alugara uma casa, pequena para tanta gente - já lá viviam os dois irmãos mais velhos - num pátio acanhado onde todos os vizinhos eram alentejanos. esse natal, naquela terra desconhecida em que todos se conheciam, passou e não deixou grandes lembranças. apenas foi o primeiro natal iluminado com luz eléctrica mas a ausência da lareira fazia a noite ainda mais fria e longa. talvez as noites do pai agora tivessem madrugadas serenas…
13 dezembro 2009
Família Ferroviária por Manuela Fonseca
Nasci em 30 e Novembro de 1949 – a família alargada, ferroviária, a que pertencia, entre a António José de Almeida e os becos, travessas, ruas e avenidas limítrofes, rejubilou: tinha esperado dez longos anos por mim. E, paradoxo: cheguei tarde e cheguei cedo para ver, ouvir e sentir os comboios: os números das viagens e os percursos sabidos de cor, ditos pelo meu pai e o avô Fonseca (não conheci, infelizmente, o avô Horta ou teriam sido três a referi-los).
Fui educada – criada, como então se dizia – para além do campo do Barreirense e do Ginásio-Sede, quando passou, majestoso, a existir, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições.
Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários enquanto a minha mãe, cognominada Rabicha 3, corria, corria por uma impecável logística do nosso Cristiano da Fonseca Júnior.
(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição da entrega da comida confeccionada: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)
Fui educada – criada, como então se dizia – para além do campo do Barreirense e do Ginásio-Sede, quando passou, majestoso, a existir, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições.
Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários enquanto a minha mãe, cognominada Rabicha 3, corria, corria por uma impecável logística do nosso Cristiano da Fonseca Júnior.
(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição da entrega da comida confeccionada: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)
08 dezembro 2009
inquietação
caminhos velhos
antigas veredas
que vidas
passaram
por vós
que olhares
afagaram
as vossas pedras
redondas
que mãos
colocaram
as pedras
nos valados
quem sussurrou
na curva do monte
que palavras
foram ditas
certo dia
que humanos
passos
me antecederam
de quem são
estas memórias
chegando
do fim
do tempo
perpassando
o meu ser
o que sou eu
quem
sou eu
é sempre a mesma
inquietação
Vimieiro, Março 2006
07 dezembro 2009
gente povo todo o dia
Conheci o Filipe Jorge quando ele andava a escrever este livro. Eu não sabia, é claro. (nem sei se ele imaginava que algum dia viria a editá-lo). Isto foi aí nos anos de 77/78 a 80. Eu tinha 18 ou 19 e ele tinha 22 ou 23 anos. (passaram entretanto 30 anos!) Já tinha terminado o Processo Revolucionário em Curso, o famoso PREC. Mas, no Alentejo a Reforma Agrária resistia, às investidas da lei Barreto que roubava a terra àqueles que sempre a trabalharam, aos ataques diários, espancamentos e prisões, praticadas pela GNR. Nessa altura alguns, MUITOS, de nós (aqui nesta sala estão alguns) fomos revolucionários a tempo inteiro, como ele muito poeticamente escreve no seu livro. Eu acrescento ao tempo inteiro o corpo inteiro. Foi um tempo único nas vidas de todos nós, esse tempo de REVOLUÇÃO. O nosso país já foi palco de algumas revoluções, (e revoltas também) ao longo da sua história, mas há algumas que são especiais (pelo menos para mim) como 1383-85, 1640, 1910 e a nossa: 1974. Foram revoluções em que o POVO ou as mãos do povo, empurrou o carro da história, como se escreve neste livro. E nós temos a sorte de estar vivos e poder dizer que fizemos parte desse povo que, em 1974, transformou o mundo, ao transformar Portugal.
E é desse povo que nos fala Filipe Chinita. É nesse povo que nos reconhecemos, quando o poeta no poema "proposição" fala de abrir portas ao mundo, um mundo novo a ser conquistado por esse povo. Um mundo com ruas e «salas a abarrotar de gente», onde o poeta lê os anos e as vidas nos rostos marcados, nas mãos cheias de nada e de dores antigas. Mãos de trabalho ali à disposição de todos, abertas e francas, «as mãos que tudo fazem». É esta gente povo todo o dia, a quem o poeta lança as suas palavras, no poema "sou convosco". E as palavras, essas «guerrilheiras» rimam com risos e têm «sabor a pão e a revolução».
Neste livro as ideias surgem depuradas, simples de tão claras e profundas. As palavras são apenas as necessárias para dizer. Não precisam de ornamentos. (Ele próprio, o livro, é quase um objecto estético na forma como as e se apresenta).
As palavras podem ser doces cheias de «ternura alegria» e festa, ou podem ser, simplesmente pintura(s) luminosa(s) onde «o céu é de um todo azul».
São palavras feitas acções e convicções, como a preparação do «encontro de amanhã» ou a «assembleia geral» ou «essa coisa da vida e do comunismo».
Podem ser também, como a vida por vezes, muito duras e dolorosas e são-no, nos poemas "traição" e "intermediários". Aqui é a náusea perante aqueles que «cospem para o chão o asco em que vivem».
Nesta escrita, quase uma crónica do quotidiano da revolução, o poeta cresceu com ela, a Revolução, e como pessoa, quando sente que abre «pequenos mundos que sejam» e encontra-se com a poesia. E é extraordinário como a encontra, imagine-se! num «barracão de paredes rebocadas nuas» numa «lâmpada florescente, electricidade de há pouco» ou no «tecto novo coberto de esferovite».
O poeta encontra-se com a poesia na sua «vida de revolucionário(s) humaníssimo(s) de peito aberto».
Sim, tenho de o dizer, reconheci-me, muitas vezes, nestes poemas.
Obrigado ao Filipe Chinita, por este livro e pelo outro que também já saiu este ano: Cantata Pranto e Louvor em memória de Caravela e Casquinha, em co-autoria com Manuel Gusmão.
(para terminar gostava de apenas vos dizer que perdi o contacto com Filipe Jorge em 1980 e apenas voltamos a reencontra-nos este ano, na festa do avante.)
E é desse povo que nos fala Filipe Chinita. É nesse povo que nos reconhecemos, quando o poeta no poema "proposição" fala de abrir portas ao mundo, um mundo novo a ser conquistado por esse povo. Um mundo com ruas e «salas a abarrotar de gente», onde o poeta lê os anos e as vidas nos rostos marcados, nas mãos cheias de nada e de dores antigas. Mãos de trabalho ali à disposição de todos, abertas e francas, «as mãos que tudo fazem». É esta gente povo todo o dia, a quem o poeta lança as suas palavras, no poema "sou convosco". E as palavras, essas «guerrilheiras» rimam com risos e têm «sabor a pão e a revolução».
Neste livro as ideias surgem depuradas, simples de tão claras e profundas. As palavras são apenas as necessárias para dizer. Não precisam de ornamentos. (Ele próprio, o livro, é quase um objecto estético na forma como as e se apresenta).
As palavras podem ser doces cheias de «ternura alegria» e festa, ou podem ser, simplesmente pintura(s) luminosa(s) onde «o céu é de um todo azul».
São palavras feitas acções e convicções, como a preparação do «encontro de amanhã» ou a «assembleia geral» ou «essa coisa da vida e do comunismo».
Podem ser também, como a vida por vezes, muito duras e dolorosas e são-no, nos poemas "traição" e "intermediários". Aqui é a náusea perante aqueles que «cospem para o chão o asco em que vivem».
Nesta escrita, quase uma crónica do quotidiano da revolução, o poeta cresceu com ela, a Revolução, e como pessoa, quando sente que abre «pequenos mundos que sejam» e encontra-se com a poesia. E é extraordinário como a encontra, imagine-se! num «barracão de paredes rebocadas nuas» numa «lâmpada florescente, electricidade de há pouco» ou no «tecto novo coberto de esferovite».
O poeta encontra-se com a poesia na sua «vida de revolucionário(s) humaníssimo(s) de peito aberto».
Sim, tenho de o dizer, reconheci-me, muitas vezes, nestes poemas.
Obrigado ao Filipe Chinita, por este livro e pelo outro que também já saiu este ano: Cantata Pranto e Louvor em memória de Caravela e Casquinha, em co-autoria com Manuel Gusmão.
(para terminar gostava de apenas vos dizer que perdi o contacto com Filipe Jorge em 1980 e apenas voltamos a reencontra-nos este ano, na festa do avante.)
04 dezembro 2009
viver é estar aqui
[...]
. aqui
a
jantar
palavras
a
jorrarem
vinho
noite
de
aproximar
os
homens
coisa
maior
a
escrever
o
dia
a
dia
a
cantar
o
meu
povo
as
horas
duras
a
solidão
acompanhada
a
dar-mo-nos
por
inteiro
sem
esperarmos
nada
em
troca
senão
o
prazer
dessa dádiva
na
irredutível
diferença
de
cada
um
(de
nós)
sermos
um
mais
entre
os
tantos
iguais.
CHINITA, Filipe, gente povo todo o dia, edições avante, 2009, pp.178-182
. aqui
a
jantar
palavras
a
jorrarem
vinho
noite
de
aproximar
os
homens
coisa
maior
a
escrever
o
dia
a
dia
a
cantar
o
meu
povo
as
horas
duras
a
solidão
acompanhada
a
dar-mo-nos
por
inteiro
sem
esperarmos
nada
em
troca
senão
o
prazer
dessa dádiva
na
irredutível
diferença
de
cada
um
(de
nós)
sermos
um
mais
entre
os
tantos
iguais.
CHINITA, Filipe, gente povo todo o dia, edições avante, 2009, pp.178-182
02 dezembro 2009
histórias de comboios. passeio a Caxias
outra vez de comboio. os dois irmãos protestaram, revoltados, só ela é que anda de comboio! mas a mãe não podia deixá-la, era a mais nova. recordava-se ainda da última viagem, com a tia, quando o comboio passou junto à trincheira, na rua do castelo, a mãe a acenar. agora não havia ninguém. a mãe ia ali a seu lado, sentada, envolta no xaile preto. iam visitar o pai. estava a trabalhar muito longe, responderam-lhe quando perguntou porque não aparecia. e os lírios do campo, que sempre lhe trazia na alcofa, à noite. estava à sua espera, há tantos dias. o comboio deslizava veloz, deixando um rasto de nuvens de fumo que tudo cobriam. ninguém para lhe explicar que terra era esta ,ou que estação era aquela. mas reconheceu a casa enflorada, quando ouviu o revisor a anunciar: casa branca. a mãe silenciosa, a viagem aborrecida e longa. por fim, o barreiro e aquele nevoeiro mal cheiroso, que lhe picava os olhos e fazia tosse. à saída do barco, lá estava a tia chica a dar pressa. senão não chegamos a horas da visita. recordava-se vagamente de passar por um bonito jardim, onde queria apanhar flores, mas puxavam-na, sem tempo. vamos não queres ver o pai. quero. chegaram a um portão alto e escuro, um guarda de cada lado. deteve-se assustada. não vou tenho medo. e o choro, alto, ouviu-se. lá seguiram, a puxá-la por um corredor escuro e interminável. quando se deu conta estavam junto do pai, mas não podia subir para o seu colo. os bracitos, desesperadamente, tentavam afastar as grades para passar entre os ferros, como ouvira contar tantas vezes a um dos irmãos, quando fora ver o pai a serpa, mas não conseguia. não se recorda como terminou o passeio a caxias. apenas sabe que foi triste. no regresso, quando chegou ao pé dos irmãos contou-lhe que tinham passado ao tejo, ao ribatejo e ao alentejo.
30 novembro 2009
o poeta Al Mutamid
castelo de aljezur
um apelo chega do fundo do tempo.
cavalga na brisa
faz ondular
o verde das searas
das azinheiras
redondas e rasas
que ficam mais doces.
é o poeta al mutamid.
no seu corcel
do pensamento
transporta mil anos de história.
os mesmos campos
os mesmos homens
as mesmas guerras.
ah! meu poeta
continuamos crianças
não aprendemos nada.
27 novembro 2009
A velha ermida
subimos o monte
ao encontro do passado
não do nosso
que ainda nos não dá saudade.
o passado de outros
anónimo e distante
as azinheiras
redondas
estão em flor.
eis-nos no cimo do monte
as ruínas de uma velha ermida
aqui estão
que preces terão recebido?
que mulheres aqui se curvaram?
que desejos alcançaram?
porque pedem, tanto, as mulheres?
no alto do monte, que preces farei?
não faço preces
desço o monte
alentejo 26 março 2006
histórias de comboios. a primeira viagem
a primeira viagem foi com a tia mais nova, Benta de seu nome. gostava muito dela e o sentimento era mútuo. ainda não tinha 7 anos feitos. por causa da pouca idade e porque tinha passe do caminho de ferro, só pagava um quarto de bilhete. mas foi a tia quem pagou. o comboio partiu. deixou para trás a Caseta, passou na Zurreira, fez a curva na Trincheira e lá estava a mãe no Castelo, a acenar. não se importou. tudo era novidade. à janela a paisagem desfilava, rápida. ó tia o que é aquilo, não sei já passou. e agora? o comboio parou, já chegámos tia, ainda não. que terra é esta tia, é Beja. fica quietinha e dorme, não tenho sono. e agora o que é? é Alvito e Viana do Alentejo. e aquilo o que é tia? é uma cegonha, não é “ti” Benta! as cegonhas são aqueles pássaros que fazem ninhos no Torre do Relógio, mas esta é de tirar água. olhe tia, que estação tão bonita, é Casa Branca, não é a casa enflorada. deve ter sido a última estação que viu.
24 novembro 2009
as actas
nas actas
transparece
o discurso fascista
fala da pátria
de moral
de ginástica e canto coral
de fervor nacionalista.
fina capa de verniz
onde
pressinto-o,
o ódio
se esconde
e a vingança
bruta
e cruel
explode.
23 novembro 2009
liberdade livre
estiveste sempre
aqui
à minha espera
desde que nasci
e assim que cheguei
lancei
raízes em ti.
tomei-te todo
primeiro a alma
depois o corpo.
em ti cresci
fui Primavera
flori.
de meu livre ventre
pari
a semente
da Liberdade livre
livre como o vento
e o pensamento.
nasceu
e é nosso o fruto
só nosso
meu e teu.
rotina
a caminho do trabalho
saio de casa já em cima das 9, um leve nevoeiro envolve a cidade.
abro a porta da rua e uma senhora, velhota simpática que não conheço, diz-me bom dia. sorrio e retribuo o cumprimento e quase caio, para me desviar dos dejectos de cão, em cima do passeio. olho para o mercado 1º de maio e noto a azáfama do costume. desço pela alfredo da silva em passo apressado. o tico-tico está a abarrotar de gulosos.
viro para a miguel bombarda e o trânsito está um caos, rebentou um cano. uma equipa das águas e saneamento tenta consertar a ruptura. logo a seguir, na telha do pão, algumas colegas tomam o pequeno almoço. olá, olá, estás bem, como vais. em frente à câmara a gracinda, a cristina, o sérgio, bom dia, olá, adeus. mais à frente as oficinas da emef e a exposição (e a rita há quantas horas já se levantou e está na sua bancada de trabalho). desço as escadas para o túnel, agora verdinho e limpinho, mais seguro (eu também o torno mais seguro quando passo lá). ao dobrar a esquina afasto-me, por precaução, e aparece-me pela frente um d. sebastião no seu cavalo branco, que é como quem diz, um rapaz (mais ou menos da minha idade), figura alta e espadaúda, cabelo cor do meu, se o meu não fosse ruivo (não é para rir! nunca viram uma alentejana ruiva? pois fiquem sabendo que as há e muitas! e de muitas outras cores).
20 novembro 2009
a saudade o que é
a saudade
não sei o que é
sei que está
cá dentro
bem no fundo
escondida
quietinha
adormecida.
quando acorda
salta
para fora
como se fora
animal selvagem
à solta
ataca
à traição.
sou caçada
desfeita
devorada.
depois
sorrateiramente
lambe os restos
limpa as garras
volta ao covil.
adormece
serenamente
como um bebé.
a saudade
não sei o que é
19 novembro 2009
rotina
hoje não vou à reunião
hoje não vou à reunião de serviço.
voz masculina pergunta porquê.
ora, edifícios municipais!
pra quê, já tantas sugestões têm na gaveta e não servem para nada.
voz masculina de novo mas vai, não fiques fechada na tua concha, assim não ouves ninguém e as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar, ouvindo os outros aprende-se sempre alguma coisa.
pronto, pronto está bem (as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar! tocou no ponto. meto a arrogância na gaveta).
está bem, vou à reunião.
está bem, vou à reunião.
e fui.
e ouvi.
e disse.
e até foi interessante.e ouvi.
e disse.
18 novembro 2009
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