23 novembro 2009

liberdade livre


estiveste sempre
aqui
à minha espera
desde que nasci
e assim que cheguei
lancei
raízes em ti.
tomei-te todo
primeiro a alma
depois o corpo.
em ti cresci
fui Primavera
flori.
de meu livre ventre
pari
a semente
da Liberdade livre
livre como o vento
e o pensamento.
nasceu
e é nosso o fruto
só nosso
meu e teu.


rotina



a caminho do trabalho

saio de casa já em cima das 9, um leve nevoeiro envolve a cidade.
abro a porta da rua e uma senhora, velhota simpática que não conheço, diz-me bom dia. sorrio e retribuo o cumprimento e quase caio, para me desviar dos dejectos de cão, em cima do passeio. olho para o mercado 1º de maio e noto a azáfama do costume. desço pela alfredo da silva em passo apressado. o tico-tico está a abarrotar de gulosos.
viro para a miguel bombarda e o trânsito está um caos, rebentou um cano. uma equipa das águas e saneamento tenta consertar a ruptura. logo a seguir, na telha do pão, algumas colegas tomam o pequeno almoço. olá, olá, estás bem, como vais. em frente à câmara a gracinda, a cristina, o sérgio, bom dia, olá, adeus. mais à frente as oficinas da emef e a exposição (e a rita há quantas horas já se levantou e está na sua bancada de trabalho). desço as escadas para o túnel, agora verdinho e limpinho, mais seguro (eu também o torno mais seguro quando passo lá). ao dobrar a esquina afasto-me, por precaução, e aparece-me pela frente um d. sebastião no seu cavalo branco, que é como quem diz, um rapaz (mais ou menos da minha idade), figura alta e espadaúda, cabelo cor do meu, se o meu não fosse ruivo (não é para rir! nunca viram uma alentejana ruiva? pois fiquem sabendo que as há e muitas! e de muitas outras cores).

20 novembro 2009

a saudade o que é










a saudade
não sei o que é

sei que está
cá dentro

bem no fundo
escondida

quietinha

adormecida.

quando acorda
salta
para fora

como se fora
animal selvagem

à solta
ataca
à traição.

sou caçada
desfeita
devorada.

depois

sorrateiramente

lambe os restos

limpa as garras

volta ao covil.

adormece

serenamente
como um bebé.

a saudade

não sei o que é


19 novembro 2009

retrato de família






nesta família faltam algumas pessoas

falta a mãe, não quis ficar sem o pai

o pai está preso, em caxias, e não dorme. não o deixam

falta o irmão mais velho, teve de ir trabalhar para bombel,

muito longe de casa, perto de vendas novas

e falta o mais novo.

só há-de nascer no ano seguinte.

rotina


hoje não vou à reunião




hoje não vou à reunião de serviço.
voz masculina pergunta porquê.
ora, edifícios municipais!
pra quê, já tantas sugestões têm na gaveta e não servem para nada.
voz masculina de novo mas vai, não fiques fechada na tua concha, assim não ouves ninguém e as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar, ouvindo os outros aprende-se sempre alguma coisa.
 pronto, pronto está bem (as pessoas têm sempre alguma coisa para nos ensinar! tocou no ponto. meto a arrogância na gaveta).
 está bem, vou à reunião.
e fui.
e ouvi.
e disse.
e até foi interessante.

18 novembro 2009

só planície


planície

só planura

longínqua

infinita

onde só a tristeza cresce

rasteira.


uma ou outra azinheira

redonda

rasa

a custo ergue-se

do chão

logo vergada

 pelo vento

mágoa

 solidão.


esta é a paisagem

este é o mo(n)te.