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03 dezembro 2011

finisterra


  fim de tarde

de um tempo qualquer


 finos véus

leves
suaves

quase

ocultam a cidade

desvenda-se o rio

em largo oceano

no olhar que se perde

quase melancolia

quase saudade



a  noite

 vem chegando

adejando

nas asas de uma gaivota


perde-se o dia

e em sombras e luz

a noite erra

aqui

onde estou

(apenas eu sei)

é finisterra

10 março 2011

era assim o moinho do braamcamp, antes do incêndio





«Nas proximidades de Alburrica, mas no Bico do Mexilhoeiro, está o Moinho do Braamcamp. As informações que dele possuímos referem a sua existência em meados do século XVIII, altura em que o então proprietário Vasco Lourenço Veloso o reedificou, em virtude de ter ficado bastante destruído pelo terramoto de 1755.
Em 1804, os herdeiros de Vasco Veloso venderam o moinho a Venceslau Braamcamp, Barão do Sobral, que o transforma num dos maiores moinhos de maré do estuário do Tejo. Ganha a designação de moinho do Braamcamp.
Mais tarde é vendido mas já por Abraham Wheelhouse a Robert Reynolds, compondo-se a propriedade então de «casas de habitação, armazéns, casa que foi fábrica de bolachas, moinho e motor de água, terras de semeadura e diversas árvores».
A antiga Quinta do Braamcamp, que no final do século XIX era conhecida por Quinta dos Ingleses (por ter pertencido a diversas famílias de origem britânica) foi adquirida pela Sociedade Nacional de Cortiças em 1897, que adaptou o edifício do moinho às suas actividades industriais, função que mantém até à actualidade».
in  Barreiro - O lugar e a História - CARMONA, Rosalina, ed. Junta de Freguesia do Barreiro, 2009, p. 82-83

Era assim ainda em 2009. Hoje o moinho está em risco de desabar e desaparecer por completo, depois que foi devorado por um incêndio na semana passada. O actual proprietário é o Banco Comercial Português, cujos lucros subriram 625% no início do ano. Não será pois nenhum absurdo esperar que o BCP « respeitando os barreirenses e a sua história, e perante os factos ocorridos, faça as obras necessárias à recuperação do moinho e tome todas as providências adequadas à salvaguarda do património que se encontra na antiga Quinta do Braamcamp» pedaços da história viva e do património do Barreiro.
É por isso que aqui fica o link da petição da Associação Barreiro Património Memória e Futuro http://patrimoniobarreiro.org/, e o convite para todos os que a queiram assinar.



26 fevereiro 2011

hoje o rio é uma brisa azul



hoje


o rio é uma brisa

azul






como um olhar



que fosse uma praia
que se espraia


na maré cheia







ou no vento


que sopra do sul





mas
a calma no rio
é apenas aparente




permanente
é o ir e vir
das ondas sobre a areia

agitando as águas
levemente




o rio


como a vida

passa veloz

por nós

como os pensamentos


ou o vento




registo a frase

escrita na muralha

por mão grafiter

tudo o que vem, vai

mas nem tudo o que vai, volta






17 fevereiro 2011

ramal de beja e outras dores de alma




eu cheguei
apanhei o comboio
que assoprava pela linha
às vezes penso comigo

e digo

triste sorte que é a minha

depois de chegar ao barreiro
embarquei
no vapor que passa o tejo

chora por mim
que eu choro por ti

já deixei o alentejo


esta moda era
cantada por alentejanos
quando as circunstâncias
e a vida,
obrigavam a deixar a terra
onde nasceram

veio-me à memória
a propósito da petição pública
que alguém me enviou
e deixo o link
para quem a quiser assinar

já nos tiraram tanto!
para que não nos tirem isso
também

«RAMAL DE BEJA E OUTRAS DORES DE ALMA »



18 dezembro 2010

como se uma manhã qualquer



manhã
como se uma manhã qualquer

 esta é uma manhã de frio
4 graus na verderena!

até as gaivotas
como adivinhando tempestade
todas em terra
aguardam
serenas

nesta manhã de maré cheia
de rio revoltado na muralha
lisboa brilha ainda mais
e o frio
um frio cortante
que cresta a pele
pele como pão
pão da minha terra
terra como pele
pele como terra lavrada
penso em ti
rapazinho da t-shirt vermelha
desbotada

penso em ti
e nesse olhar
triste
olhar a disfarçar a  tristeza
 que vai pelo mundo

nessa tua t-shirt vermelha
russa
aí parado
ao frio

e eu com vontade de te dar um abraço
e falta-me a coragem

e fico de longe
a olhar-te
sem te dizer
as palavras

que talvez não entendesses
porque o modo de falar
da terra onde nasceste
não é o meu

dizer-te
que és tão humano como eu
tens veias
pele
e sangue
e estás aqui
perdido

e o meu coração partiu-se
nesta manhã de gelo


22 novembro 2010

no outono








adoro no outono
a frescura das manhãs

o cheiro do lume

os primeiros casacos de lã


as neblinas nos telhados

macias

finas

como bordados

amo o outono a despir-se em folhas

douradas

vermelhas

misturadas
com as folhas desenhadas na calçada

adoro as madrugadas frias

e o cheiro da maresia

que me faz acordar

a julgar que é poesia


adoro o rio

picado

agitado
com mil cores

escuro da cor do barro

barro deste barreiro

lavado
lavrado por pescadores

adoro a fruta de outono

castanhas, marmelos e romãs


as despedidas de verão
o mercado e as bancas coloridas
frescas como as manhãs

outono

é o tempo de que mais gosto

mesmo se às vezes
a contra-gosto
os dias me são pequenos
para fazer tudo o que gosto

adoro o outono

22 outubro 2010

o relógio de santa cruz dá horas



o relógio de santa cruz dá horas

mas horas de quê

horas de dormir, horas de acordar, horas de sair de casa, apanhar o autocarro, sair do autocarro apanhar o barco, sair do barco apanhar o metro, sair do metro correr um pouco apanhar o elevador, entrar no escritório a horas de saudar os colegas e ligar o computador.

quando o relógio de santa cruz dá horas, no peito batem saudades. a certas horas tenho saudades de certos sorrisos, quando chegavas a certas horas. está quase na hora de te dar um abraço. são horas de te dizer,e mesmo que o não diga, gosto de ti a todas as horas.


batem horas no relógio de santa cruz e podem ser horas felizes, horas de sorte, horas de azar, horas mortas, horas de chegada, horas de partida. pode ter chegado a hora de alguém um pai, uma mãe, um irmão, um amigo, uma amiga.


às horas que toca o relógio de santa cruz apita a sirene das oficinas. são horas do almoço. horas de escutar o silêncio ensurdecedor quando se desligam os motores das locomotivas em afinação. horas de sair para a rua descer a escadaria, apanhar um pouco de sol, ler o comunicado do sindicato a apelar à greve geral.

o sino do relógio da torre da igreja de santa cruz diz que são horas de sair de casa, passar pelo mercado, passear pela avenida e na companhia da amiga atravessar o parque a caminho do rio, que lisboa já está à espera há horas.

antes do bater das horas no relógio de santa cruz já a fila à porta da segurança social engrossou e dobra a esquina, horas e horas de espera para ouvir a mesma resposta: não há ofertas de emprego, volte cá no dia x às tantas horas.

o relógio de santa cruz dá horas e há corvos negros a grasnar desespero, em cima dos telhados das casas, há horas. nessas horas em que o relógio de santa cruz bate no tempo escutam-se vozes, ou serão corvos a grasnar, o orçamento, a crise, a austeridade, a instabilidade.

agora o relógio de santa cruz está a dar horas, olho e parecem-me horas de esperança. vamos a ver o que isto dá.

08 setembro 2010

ontem pela manhã





















ontem pela manhã



a chuva foi chegando

mansinha

devagar



manhã de setembro



fina como tule



foi-se agitando o rio

em tons de seda lavrada

rumorosa



e

as árvores da bento gonçalves

quando o vento as faz baloiçar

acordam em sons

como alguém a pisar

 a caruma dos pinhais



e é como se

nesses passos

alguém

encontrasse num repente

e puxasse

o fio

das memórias perdidas

escondidas

intemporais



a chuva

com agulhas fininhas

vai-me furando a pele

e ameaça acabar com o meu passeio

pelo barreiro velho



recolho-me

numa rua estreitinha

no alto do hospital

 entro por uma travessinha

sem nome
e em passo lento

 atravesso

num suave retrocesso

um local

fora do tempo



e eis maria vicente

mulher quinhentista

burguesa

do barreiro natural e vivente

à porta de seu hospital

que ali fundou

para a pobreza



num pequeno janelo

dois pares de olhos

verdes

coruscantes

em anelo

espreitam



maria vicente

e suas gatas à janela



entro

e converso com elas


penso na máquina

do tempo

se eu conseguir tirar!...

a fotografia



mas quebro a magia

fogem os gatos

e oiço uma voz

trocista



estas gatas são umas artistas

não se deixam fotografar



ontem pela manhã

a chuva correu a cortina

do verão

e declarou o fim das minhas férias

mas foi em vão

não me apetece voltar

à rotina



vou continuar no verão




24 agosto 2010

há coisas que só no barreiro...







há coisas que só no barreiro...

como esses fins de tarde

em que me debruço da janela

quando o calor já fugiu

para trás do mar

e o rio está á minha espera


no quintal os cães disputam

a minha atenção

o meu olhar


e a gatinha preta

que teve outra ninhada

perdida

(outra vez)

já anda de novo

assanhada


as árvores esperam

 sequiosas

 ansiosas

uma gota de água


é nestes fins de tarde

que amo mais o barreiro


e a poesia chega

súbita

em sons e música


é o jazz

irrompe pela tarde

salta pelas janelas

abertas

dos corticeiros

mesmo ao lado dos penicheiros

e

invade

tudo


pula os muros dos quintais

alaga-se pelas ruas da cidade

e segue

em passo ligeiro

para a esplanada


senta-se

e pede uma água gelada


e fica ali

a apreciar a vida

quase esquecida

de si

09 junho 2010

chuva de verão




a noite escorre pelas vidraças
como a chuva
suave
que numa leve capa
envolve a cidade

fica estranha
a noite sem estrelas

a tempestade
em reflexos roxos
rasga o silêncio
em tonalidades belas

as vagas no rio
arrepiadas de medo
ou de frio
enrolam-se e guardam segredos
de mitos antigos
verdadeiros ou não

é apenas mais uma noite
e a melancolia da chuva de verão

20 abril 2010

sonoridades do barreiro



o barreiro é uma cidade cheia de contrastes, nada monótona, ao contrário do que alguns poderão pensar. quem passear um pouco pelo barreiro pode ouvir as mais diversas sonoridades, desde os gritos das gaivotas que nos sobrevoam acima das cabeças, fazendo crer que estamos numa grande cidade portuária e trazendo-me à lembrança o porto de barcelona. mas isto não tem nada a ver com o facto de o barreiro já ter sido apelidado de barcelona portuguesa, algures no tempo do fascismo, aí pelos 30s 40s. talvez por comparação com a barcelona republicana e vermelha que resistia ao cerco franquista, o barreiro resistia, à sua maneira, aos assaltos da pide, aos olhares furtivos dos bufos às esquinas ou na secção da fábrica ou das oficinas, espiando para ir contar no escritório, quando chegavam os tais de óculos escuros e chapéu nos olhos. eles lá iam disfarçadamente, fazer o relatório ao pide de serviço, que ficava a saber quem fazia o quê, namorava quem, que curso tinha, quantos anos tinha chumbado, porque viajava tanto para o algarve, ah! é porque tinha passe da cp e o que ia lá fazer, ir buscar ovos e galinhas para vender no mercado do barreiro. e que papéis eram aqueles contra a guerra colonial, que tinham aparecido de manhã pelas ruas, e agora já íam a caminho de lisboa para serem arquivados. e quem foi o inteligente que mandou raspar as letras na parede das oficinas do caminho de ferro. raspou tanto que tirou a tinta e escavou as letras na parede. foi o filho da miss estaca, coitado, é um bocado atrasado não lhe explicaram bem, sr. presidente da câmara.veja mas é se mandam rebocar as letras a dizer abaixo a guerra colonial. sim sr. inspector...
tão migã! que vais tã distraídã!
esta sonoridade tão própria do barreiro camarro, quase parece alentejana de tão arrastada, trás-me de volta ao presente.
pois é maria, a pensar na vida, nas voltas que ela dá, felizmente!

17 abril 2010

ainda há pastores no barreiro


estas fotografias foram feitas no verão passado, mas quem quiser este ano ainda pode ver, o homem ainda lá vai pastar o gado nas margens da caldeira do sangue, entre o moinho grande e o do cabo. raridades deste nosso barreiro, enquadradas em molduras de beleza e esplendor.












por entre os altos prédios
num interstício
uma língua de caminho
entre alburrica e as caldeiras dos moinhos
elas aí estão
as ovelhas e o pastor


25 março 2010

resposta da associação griot ao poema primavera com poesia




Rosalina
Em continuidade ao seu poema e porque tb foi uma honra para nós,
aqui fica a nossa contribuição para complementar o seu poema;

como pombos abraçamos
 braviamente a partilha
Como rodopios traçamos
a alegria da maravilha

Se num arco-íris seduzimos
mais de mil cores reunimos
e somos um, 
abraço quente,
primavera luminosa
ou partilha esperançosa


Beijinho
Griot


obrigado
à
Anaína Lourenço
Daniel Martinho
Miguel Sermão
Matamba Joaquim
Ângelo Torres

16 fevereiro 2010

parabéns à freguesia do barreiro


já vão um bocadinho atrasados. foi no dia 12 de fevereiro. mas neste dia havia uma pessoa muito importante que também fazia anos (e não era o presidente da câmara! nem o da junta!) e eu andei muito ocupada a preparar-lhe uma festa surpresa no bejazz. e depois foi o dia dos namorados e andei outra vez muito ocuapada e etc. e tal, como podem ver pelos escritos. de maneira que os parabéns aqui ficam, atrasados mas ainda a tempo. o "bolo" está ali na praça, para que todos o saúdem. 523 anos. e a festa (!) de aniversário foi no bejazz (outra vez, outra noite no bejazz, que chatice ;). este bar jazz é já uma referência de qualidade para o barreiro. ao nível dos melhores. o barreiro tem destas coisas, também. aqui ficam algumas imagens.
e agora e a propósito do aniversário da freguesia,  para quem ainda não me leu, deixo o convite a que o faça, cito a sinopse do livro: barreiro o lugar e a história - séculos xiv-xviii, da autoria de rosalina carmona, editado pela junta de freguesia do barreiro em 2009. para quem quiser adquirir (desculpem a publicidade a mim própria !!!) está à venda na junta do barreiro. e não é caro. a sinopse vem transcrita no boletim da junta e reza assim: «No final do século XVIII, o Barreiro era uma pequena povoação de características ribeirinhas. O modesto núcleo habitacional  não excedia os 600 fogos, ou 2500 habitantes. A população era constituída essencialmente por pescadores, moleiros e pequenos artífices. Criada a freguesia em 12 de Fevereiro de 1487 - logo passou a vila em 1521 - longe ficaram as origens de um lugar, denominado Quinta do Barreiro. Pequeno município da Margem Sul do Tejo, o termo do Barreiro era limitado, quase exclusivamente, ao seu perímetro urbano, cujo alfoz pouco passava de uma légua. Partia a Sul com o Convento da Verderena; a Nascente com terras de Santa Bárbara e o «Chexalinho»; a Norte e Poente com o Tejo e o Coina.
 Da povoação saíam azinhagas e caminhos rurais, que conduziam a terras de cultivo e aos baldios do concelho. A propriedade encontrava-se estruturada em pequenas courelas, onde predominavam os vinhedos, notando-se a ausência de grandes casas fundiárias. As fainas do mar - pesca e exploração de sal - assinalam-se desde a Baixa Idade Média, mas assumem maior relevância, a partir do século XV a moagem, a construção naval e os mesteres gerados pela Expansão marítima. De longe chegam vozes, que rasgam o silêncio do tempo. São documentos que nos contam histórias. Porque este é, também, um livro sobre as gentes do Barreiro.»

12 fevereiro 2010

misérias e vergonhas de um país triste


ó menina (era eu, não havia mais ninguém na paragem do autocarro), pode dizer-me a que horas é o autocarro para santo antónio, não percebo nada dessas letras. pois, são muito pequenas, sem óculos... eu vejo bem, estas letras é que... não percebo. eu é que não percebi logo. só depois quando a outra chegou, então a família, os filhos. estão bons, lá longe. é verdade na alemanha. como o meu. há 30 anos que lá está. netos e tudo. uns vão para a alemanha outros para a suiça, meti a colher. pois. o que vale é falarmos todos os dias, agora com a internet... nós também já temos isso lá em casa, dizia a segunda. nós não. só pelo telefone. ou por carta. mas o meu marido tem sempre preguiça de escrever. então percebi porque não percebia as letras. pouco mais velha que eu (menina!). não andou na escola. percebi a vergonha daquela mãe e avó. a sua pronúncia ratinha. teve de ir trabalhar em vez de ir à escola. eu pelo menos fiz a 4ª, em menina. a minha mãe também nunca aprendeu a ler. o meu pai andou até à 2ª classe. depois a mãe dele morreu, com a pulmónica diziam e o pai, para esquecer a tristeza de uma casa cheia de filhos e de fome, "dedicou-se à bebida". o meu pai, filho mais velho de 5 irmãos, teve de ir trabalhar para o campo, 8, 9? anos, para ajudar a criar os irmãos. a escola só foi retomada depois, na tropa. por isso, talvez, nunca deixou que os filhos, ao menos saissem da escola sem a 4ª. algumas amigas minhas nunca chegaram a completar, sequer aquele nível básico de ensino. isto em meados de 60. parece que foi há muitos anos e afinal, não há assim tantos. compreendi a vergonha de não conhecer as letras, neste país triste, de que nos fala manuela fonseca http://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=220271&mostra=2. país onde se disfarça a miséria mas a vergonha é cada vez maior. país a precisar urgentemente de esperança. de uma nova revolução, que nos faça sorrir e de novo encontrar um caminho como povo.

07 fevereiro 2010

esquinas da vida




quando dobrei a minha esquina
frase solta que ouvi na manhã. ficou-me a bater. todo o dia. pensei que esquina seria aquela. que esquinas seriam as minhas.
 pensei em esquinas no barreiro. esquinas onde em manhãs frias e nevoentas, pessoas, muitas pessoas, dobravam esquinas. a caminho do trabalho.
pensei nos encontros e desencontros das esquinas. camaradas de secção que se esperam à esquina. amantes furtivos que se espreitam à esquina.
crianças que correm ao dobrar da esquina.
noite escura, mãos que trocam panfletos clandestinos, à esquina.
esquina honesta em ângulo recto, noventa graus.
domingo soalheiro à esquina. esquina dos amigos, galhofeira.
esquina de namorar e enamorar.
esquina de escárnio e dizer mal.
esquina da miséria, sífilis e tuberculose.
esquina da denúncia e da traição.
esquina esquinada da vida, afiada como faca.
esquinas do passado.
essas já as dobrámos.
as que me assustam são as do futuro. esquinas negras como a treva.
que não queremos que regressem.
e que nos ameaçam.

05 fevereiro 2010

estribilhos da malta, bocas e frases soltas


as palavras andam no ar. saltam da boca. como os sorrisos. então estás cá!? estou sempre! (às vezes em pensamento) toca a despachar! que são horas. e não te descalces que vais ao petróleo! frases que ninguém sabe como e quando começaram. andam por aí. lá vamos nós, a gracinda, a paula, a rosa. agora chega a licélia com a filha. a anabela, a inês, a teresa, enfim o autocarro cheio arranca. organizem-se! outra. ó eeelllssssaaa! e ela responde lá à frente: acendam a televisão! gargalhada. a malta está bem disposta. como a tarde, de sol. o autocarro já lá vai. do rádio soltam-se sons de um fado antigo, fernando farinha(!!!) fado de um operário. bela voz de fadista barreirense, mas neste ambiente não soa bem. ai meu canário! e esta? é nova. sobre a 25 de Abril (sempre!) lisboa. cada vez mais bela. a seda do tejo, azul e transparente a rasgar-se em espuma, rasto de barco do barreiro. no marquês nota-se já o movimento. a liberdade, em avenida cheia de sol, promete. bandeiras vermelhas e brancas da função pública. o autocarro parou. agora vai tudo à casa de banho. a fila já chega quase à rua. a dos homens vazia! não pode. e chegam eles e vão para a fila, mas desistem logo. azar. da rua chegam acordes “e se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhes as voltas, que i’nda o dia é uma criança”. na rua já está tudo a postos. o megafone ó miguel! ó miguel! bocas trazes o moscatel? ó miguel! olha pra trás que é contigo! e era mesmo. o paulo de carvalho tu vieste em flor e eu te desfolhei… e a lala e a malta de mora. e o zeca quando um homem se põe a pensar…autocarros de avis e de palmela. o hino da intersindical unidade, unidade, unidade, do trabalho contra o capital. pelos restauradores abaixo alguém me chama. e era a maria bárbara e a maria teresa, de pias pois. abraços e adeus que nã posso perder a malta do barreiro. mentiroso! mentiroso! a cantiga enche a praça. petição “pela saída imediata das tropas portuguesas do afeganistão” é um panfleto. direitos conquistados não são para ser roubados. o país não se endireita com políticos de direita. o terreiro em frente aos barcos do barreiro está lhano. as bandeiras esvoaçam com a  brisa que sopra do tejo. injustiças sociais, arre porra que é demais. foi uma boa manifestação. os funcionários públicos merecem respeito. o socrates é um burro, foda-se, caralho. dizia um do porto.

04 fevereiro 2010

o turno das 7





como se fossemos entrar no turno das 7. atravessámos a antiga cuf e à minha frente começam a surgir centenas, milhares de operários, mulheres e homens, a caminho de casa, olhos pisados depois de uma noite inteira de trabalho, cruzando-se com os matinais companheiros que os vão substituir. caldeireiros, chumbeiros, frezadores, lubrificadores, serralheiros, mecânicos, soldadores, torneiros mecâncicos, especialistas químicos, analistas, afinadores, bobinadores, caneleiras, cardadoras, costureiras, estampadores, fiandeiras, ramiladores, tecedeiras, urdidoras. quantos mais… tudo a caminho do trabalho, na urgência do ganha pão. vão enchendo as ruas, que fervilham como sangue quente nas veias. uns de bicicleta, outros a pé e havia também quem chegasse de autocarro, de comboio e de barco. a buzina a chamar para o turno e a fábrica sempre a arfar, 24 horas por dia. ainda era assim na década de 80 quando cá cheguei. mas avista-se já o bairro das palmeiras e a visão desvanece-se. para trás fica o antigo bairro operário, vazio e deserto. não há luzes nas janelas, as portas estão fechadas, não há pessoas nas casas. as fábricas calaram-se. é o silêncio que povoa as ruas e incomoda.

13 dezembro 2009

Família Ferroviária por Manuela Fonseca

Nasci em 30 e Novembro de 1949 – a família alargada, ferroviária, a que pertencia, entre a António José de Almeida e os becos, travessas, ruas e avenidas limítrofes, rejubilou: tinha esperado dez longos anos por mim. E, paradoxo: cheguei tarde e cheguei cedo para ver, ouvir e sentir os comboios: os números das viagens e os percursos sabidos de cor, ditos pelo meu pai e o avô Fonseca (não conheci, infelizmente, o avô Horta ou teriam sido três a referi-los).
Fui educada – criada, como então se dizia – para além do campo do Barreirense e do Ginásio-Sede, quando passou, majestoso, a existir, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições.

Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários enquanto a minha mãe, cognominada Rabicha 3, corria, corria por uma impecável logística do nosso Cristiano da Fonseca Júnior.

(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição da entrega da comida confeccionada: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)