16 fevereiro 2013

adivinhando chuva


acordei neste sábado ao som da flauta do amola-tesouras.
adivinha chuva, dizem, 
e geralmente é em dias  assim, escuros como o de hoje, que aparece. 
deve ser das poucas alturas em que tem trabalho...

ali está, em frente aos cabeleireiros glória, na rua vasco da gama,
 aquele homem, ainda jovem, magro, com ar de mau passadio,
na sua bicicleta, amolando as tesouras da cabeleireira.

pergunto-me como pode sobreviver esta pessoa, amolando tesouras, ou facas...mas quem é que amola facas, ou amanha guarda-chuvas, se os chineses os vendem por meio tostão?!

deve ter família...

andando por aí, de terra em terra...

é um tendeiro, "uma espécie de cigano" (dizia-se lá no alentejo com um misto de temor, ou inveja),
 sinónimo de gente que, sem ser marginal, vivia, por sua livre escolha, à margem da sociedade.

a sua profissão é um perfeito anacronismo histórico, neste tempo digital

eu não desejo mal ao tendeiro, mas gostava que hoje o sol brilhasse.

e enquanto o sol não chega, vou preparar-me para mais uma manifestação


15 fevereiro 2013

revolta-te nas ruas



mas não percas mais tempo
começa já este sábado
16 de fevereiro 2013
numa qualquer capital de distrito
mais perto de ti


13 fevereiro 2013

o menino da praia dos amendoins

o menino da praia dos amendoins

na praia dos amendoins tomava-se banho em qualquer altura do ano. bastava uma pessoa querer, mesmo que o sol aquecesse pouco... até nos dias invernosos, quando um vento fininho, de norte, soprava afiado, como gumes de facas amoladas enfiando-se debaixo da pele... ainda assim,os rapazes, destemidos, iam ao banho. 

sapatos (quem os não tinha era menos esse trabalho), calças, camisolas e cuecas voavam pelos ares. os corpos franzinos, em pelota, arrepiados. como se todos os grãos de areia da praia tivessem voado para se colar à pele. 

desatavam-se todos os nós nas pernas e a corrida só terminava quando a água, gelada, roçava a virilha. mergulho rápido e toca a fugir.

a praia dos amendoins fica mesmo ao lado do porto da cuf. é um minúsculo areal amarelado, continuamente lavado por um sal de sabor desconhecido, que a torna daquela cor. 

em certos dias, a praia dos amendoins fica envolta em bruma cinzenta e tem o cheiro dos ovos podres, quando se partem (como quando o menino os vai buscar à estação do barreiro-a,na pasteleira. os ovos vêm do algarveenvoltos em palha, dentro de cestos de cana) e a água fica cor de prata e os corpos prateados, brilham...


a pasteleira. transportava ovos, que se vendiam para a pastelaria da dona zulmira, para o sr. real e outras casas do barreiro

às vezes, as sirenes dos barcos dos amendoins acordavam o menino mais cedo. saltava da cama, vestindo-se à pressa. a mãe já saira, com os ovos para o mercado, o pai não se sabe quando volta... que uma máquina a vapor tem lá os seus caprichos e se lhe dá para avariar na serra do algarve... não se pode adivinhar quando chegará ao barreiro.


o menino, com asas nos pés, alcança a praia num ai. é o primeiro a chegar. a praia ainda vazia... da cor que ele mais gosta, toda coberta de amendoins. só para ele. 

hoje, a escola conde ferreira bem pode esperar. 

no porto, os barcos prosseguem a sua azáfama interminável, na descarga dos amendoins para a fábrica dos óleos.
 


09 fevereiro 2013

princesa do amendoal


passeias pelo amendoal 
o teu olhar doce
de tristeza

és princesa
presa
de uma lenda antiga

é antiga 
a lenda do amor

mas a tristeza
princesa
não a deixes presa
solta-a

o amendoal
é a vida

06 fevereiro 2013

nas tuas mãos



nas tuas mãos
guardas
belas
frágeis
delicadas
pétalas
de amendoeiras em flor

ao pé delas
belíssimas são
as tuas frágeis
delicadas
e humanas
mãos