31 janeiro 2013

26 janeiro 2013

a vida


hoje brilha o sol

fosse a vida assim
simples
bela
como o trinar das aves
que escuto
escondidas na folhagem
dos laranjais
que ainda existem
pelo barreiro velho
em velhos quintais
como se anunciassem a primavera

do seu gorjeio
saltam colcheias
como as que me chegam
em certos dias
vindas
da cooperativa dos corticeiros
 escola de jazz do barreiro

as aves
cantam
 [em]cantos que soltam
como se à sua volta
tudo fossem campos
verdes

é essa esperança
que me diz
que a primavera há-de chegar
um dia destes


24 janeiro 2013

o tempo. revisitado


sob a terra húmida
no recorte
em camadas de tempo
as marcas

breves
fugidias
à espera de ser encontradas

quem as deixou não sonhava
ou sequer imaginou
o que elas representavam
para quem as encontrou

pedras
muros
casas
oficinas

que histórias abrigam essas paredes
quantos abraços 
mãos que se tocaram

os carinhos e os afagos
trocados
entre o dono e o pequeno cão
sepultado com cuidado

marcas
civilização
distantes

tempo terrível
(e hoje não é?)

mais de dois mil anos
naquele pedacinho de terra
lavrada
semeada
onde já cresceram searas

nesse bocado de terra
sucessivamente ocupado
vivido
por eles
por nós
homens
mulheres

diferentes os tempos
quase o mesmo modo de pensar

ainda agora
será a terra que o condiciona, ao modo de pensar?

quem o saberá?
aqui neste presente passado
encontrei-me com essas marcas
ou elas encontraram-se em mim

23 janeiro 2013

caos no cais


amanhecia no cais
 e a mais serena luz nascia
anunciando um 
outro
dia

o que nos trará 
de novo
o novo
dia

no porto do barreiro
 velho cais da cuf
nascia
o caos de um novo dia


18 janeiro 2013

falemos agora de decência


texto do escritor mário de carvalho que me foi enviado por e-mail, que agradeço
Falemos agora de decência. É um conceito que não tem que ver com o sapatinho de vela no verão, o esgoleiramento da camisinha branca ao fim-de-semana, os gestos miúdos do chazinho ou a mãozinha no volante do Porshe, nem com os objectos «de marca» que irmanam paradoxalmente os extremos do espectro social. Vadios de cima e vadios de baixo (Eça confrontava-os no Chiado) entusiasmam-se pelos mesmos efeitos. Apuradas as razões, hão-de encontrar-se num subterrâneo fio de ligação, mais ou menos disfarçado: frivolidade iletrada. Aos de cima, chamou a doutora Isabel Jonet «elite», por manifesto equívoco. Como se no país não existissem cientistas, arquitectos, engenheiros, artistas, professores, médicos, advogados, e tudo tivesse que rasar-se pela bitola de alguns economistas, banqueiros, «gestores» e ociosos.
Um dos preceitos estruturantes que escora o nosso ordenamento jurídico e funda a confiança nos comportamentos eticamente regulados vem do direito romano e das ancestrais práticas de boa-fé e exprime-se no brocardo: «pacta sunt servanda», ou seja, os compromissos são para se cumprirem. E sobre isto não há expedientes de contabilistas, não há casuísticas habilidosas, não há reservas mentais, não há passes de futebolista atendíveis. Há uma obrigação? Cumpra-se.
Mas a plutocracia que tem mandado nos destinos dos portugueses transportou para o Estado os seus pequenos hábitos de manobrismo, de expedientes, habilidades, truques, quando não de falcatrua, que retiraram à entidade a sua natureza de «pessoa de Bem». Ser «de bem» é uma noção que está fora do alcance de quem apenas acha meritórios o lucro e as negociatas. Coisa abstracta e «intelectual», própria de «otários» para utilizar a linguagem das cadeias que acaba por não ser muito diferente, numa perspectiva de extremos tangenciais
É assim que vemos governantes a colocarem o Estado Português na situação de violar os compromissos tomados para com os seus trabalhadores e aposentados. A ignorar prazos contratuais. A incumprir as promessas juradas perante o seu eleitorado. A fazer negaças às própria constituição. De modo tão flagrante e provocatório que lhes fez perder a legitimidade formal que detinham à partida.
Ora quem se coloca fora da lei está a pedir um tratamento fora da lei. Mas eles não estão apenas a pedir pedradas. Estão a pedir o confisco dos seus relvados, dos seus automóveis, das suas casas, das suas piscinas, dos seus valores mobiliários, dos seus quadros, dos seus cavalos, das suas jóias e luxos e a supressão de todas as mordomias. Não que isso seja economicamente relevante. Mas significa a reposição de um mínimo de decoro.
Ser-lhes-á então tarde para perceber que numa situação de ruptura a própria polícia mudará de campo. Certos jornalistas descobrirão escrúpulos éticos insuspeitados. Economistas e contabilistas virão dizer que foram mal interpretados e nunca proferiram aquelas coisas. Irromperão múltiplos vira-casacas e desertores da tirania de mercado, dispostos a pisar a livralhada de Milton Friedman e a cuspir no retrato emoldurado da Senhora Thatcher.
E lá terão as pessoas de bom senso de arriscar a reputação e a pele para evitar que se maltratem umas dúzias de plutocratas amedrontados e seus serviçais de fatinho, rojados pelo chão, de folha de cálculo à mostra.

MdC
20-12-2012

07 janeiro 2013

A condição operária no Barreiro: Primeira metade do séc. XX. Um retrato social - IV parte



Bairro das Palmeiras, Barreiro. Foto Jean Gaumay, 1975

4. Poluição: os “gases da CUF”
Num contexto de transformações profundas, em que o Barreiro se tornara um dos centros mais industrializados do país, a intensificação da produção fabril representou a ruptura definitiva com a paisagem tradicional.
As actividades industriais da CUF fizeram-se sentir desde os primeiros tempos, transformando a paisagem e o ambiente por completo, num processo destrutivo que, para os padrões actuais seria completamente inaceitável.
Logo em 1910 Veiga Beirão, amigo pessoal de Alfredo da Silva, em visita às fábricas do Barreiro, dá-se conta das mudanças. Referindo-se às grandes chaminés que marcavam o perfil do Barreiro, assinalava o «odor horrível das emanações químicas que se espargem no ar…»[1], provocadas pelo pulsar do gigantesco colosso industrial, em permanente ebulição.
Na verdade, nada voltará a ser como antes, na antiga vila piscatória e nem sequer o rio, com a sua variada fauna marítima escapa à destruição, provocada pelos líquidos e lamas, resultantes dos fabricos químicos.
Se é certo que, à época de instalação da CUF no Barreiro, não existia ainda uma consciência ecológica clara, os efeitos da poluição eram contudo, particularmente visíveis e começavam a preocupar a Câmara Municipal.
Com efeito, 6 anos após a laboração da CUF, a Comissão Executiva da Câmara, solicita ao Sub-delegado de Saúde do Barreiro, um parecer «sobre o fumo das diversas chaminés da Companhia União Fabril que se julga muito prejudicial para a saúde pública.»[2].
As preocupações com a saúde e com o ambiente ressaltam, igualmente, de um ofício do Centro Socialista do Barreiro, em que se pedem enérgicas providências «sobre o mal que está causando à vegetação e às pessoas que comem hortaliças, o ácido sulfúrico da Fábrica da União Fabril.»[3]
Na continuidade destes registos, encontramos em 11 de Maio de 1916, uma reclamação dos moradores do Largo das Obras «por causa das águas dos poços deste sítio não estarem em condições de serem utilizadas para consumo, devido a infiltrações vindas da fábrica da Companhia União Fabril.»[4]
A expansão da CUF, com o consequente aumento da poluição industrial, levantava as mais sérias reservas à Comissão Executiva da Câmara que, em 24 de Maio de 1917, enviou um protesto ao Administrador do concelho, opondo-se à construção da «nova fábrica de sulfuretos da Companhia União Fabril, desta vila»[5], por considerar que seria prejudicial à população do Barreiro.
O problema da poluição vai intensificar-se e encontra repercussão na imprensa local, nomeadamente no jornal “Eco do Barreiro” que, a partir de Novembro de 1929 começa a publicar artigos, alertando para a gravidade da situação. Mas é em 1930, que o “Eco do Barreiro” enceta uma campanha de denúncia pública, a que se vai associar a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, promovendo um abaixo-assinado, convidando a população a subscrever um documento, onde pode ler-se o seguinte:
«Se por um lado a CUF muito beneficiou o Barreiro, por outro lado, nalguma coisa o tem prejudicado […]
Estragou-nos uma bela praia, cortando-a a meio e sujando-a de tal maneira, com ácidos e outros desperdícios, que hoje as suas areias estão queimadas, as águas amarelas e sujas e os banhistas, mesmo os da terra, já fogem, sem falarmos nos que vinham, do Alentejo e regiões circunvizinhas…»[6]
Durante meses sucessivos, em artigos bastante críticos, aquele semanário foca o desinteresse da CUF e da sua administração, de Alfredo da Silva em particular, para resolver o problema dos “gazes”. Argumentando contra os fumos venenosos que saem das fábricas, refere que a população que é intoxicada é a mesma que enriquece os cofres do patrão da CUF, a quem apela «quási de joelhos e mãos postas».
«Alfredo da Silva não se comove! Continua frio como gelo!
E porque não se comove esse homem, esse grande industrial deshumano?
É porque não seja de carne e osso, como qualquer de nós?
Não! Ele é de carne e osso, mas, no lugar do coração, tem um cérebro de grande calculador ultra-egoísta e no lugar da consciência, esse vasio enorme, tem os cofres colossais da sua desmedida ambição.»[7]
A poluição industrial da CUF”, infringindo até as normas legais da época, é responsável pela destruição de pequenas hortas, jardins e pomares, de gente humilde que os cultiva para ajuda do magro sustento familiar mas, também dos prédios urbanos, agredidos por aquele flagelo, tornando o Barreiro uma terra negra e fumarenta.
«Nada escapa às rajadas devoradoras dos gazes da CUF. Morrem as plantas, morrem os frutos, morrem as flores, morre a própria terra que fica calcinada debaixo de tão densas nuvens de gaz e de veneno, e ninguém se apercebe e ninguém se comove por uma situação tão desesperada que está causando a desolação e a ruína de tantos milhares de pessoas!»[8]
A fim de acompanhar os problemas ambientais, causados pelos fumos que chegavam a todo o lado e fomentavam um ambiente verdadeiramente doentio na população, a Câmara criou uma Comissão Municipal de Higiene que entrou em vigor em 1929. De tempos a tempos emitia pareceres, que pareciam cair em saco roto, nos quais se considerava o Barreiro como uma terra insalubre, devido à grande concentração industrial existente.
Um desses pareceres, datado de 1947, pedia providências contra as emanações expelidas pelas fábricas da Companhia «as quais até provocam vómitos e náuseas aos seus habitantes»[9].
Como a autarquia reconhece em 1948, não era só o centro da vila que era afectado mas até os bairros e freguesias limítrofes, pois não existiam zonas ajardinadas suficientemente defendidas da influência dos fumos da CUF «que sejam próprias para as crianças ou para os adultos.»[10].
No final da década de 50, o parecer sobre o Ante-Plano de Urbanização do Barreiro, refere que as indústrias químicas da CUF continuavam a libertar gases tóxicos que «arrastados pelos ventos do norte, tornam insalubre e tóxica toda a zona moderna da vila.»[11].


Poluição,Barreiro, anos 70(?)

Os problemas ambientais terão continuidade nas décadas seguintes e permanecem ainda hoje, como uma das heranças mais negativas do processo de industrialização que, durante perto de um século, marcou a vida e a paisagem no Barreiro, tornando-se uma das suas (piores) imagens de marca.

 Notas:
1.- MIGUEL, António Dias, citado em ALMEIDA, Ana Nunes – A Fábrica e a Família Famílias operárias no Barreiro, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 2ª ed., 1998, p. 142
2. - AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15
3. - Idem
4.- AMB, CMB/B/E/01, Livro nº 1, 1914-15, fl.31
5. - Idem. fl. 107
6. - A velha Questão dos Fumos», Eco do Barreiro, 5 de Junho, 1930, 1ª página
7. - «Gazes asfixiantes sobre a população do Barreiro – O crime de um potentado» Eco do Barreiro, 15 de Novembro, 1930, 1ª página
8. - «Bradar no Deserto Gazes da CUF» Um Olhar sobre o Barreiro, Iª Série, nº 2, 1989, p.31
9. - AMB, Comissão Municipal de Higiene, CMB/B/Q/04/, Cx. 2
10. - AMB, «O Problema Habitacional no Concelho do Barreiro – Estudo – 1948», CMB/M/A/ 04.01/Cx 02 1945-51, p. 34
11. - Arquivo do Ministério das Obras Públicas, «Parecer nº 2715 do Conselho Superior das Obras Públicas», fl. 54