30 setembro 2012

o povo saiu à rua

estação dos barcos, barreiro. filas para o barco das 14h25.

a manif era às 15h!!!


nunca mais chegava a nossa vez!!!! tanto povo que saiu à rua para a manifestação

o povo saiu à rua

e foi assim


o povo tomou o terreiro


e agora

só falta tomar o paço




29 setembro 2012

bom dia! hoje é o dia



bom dia!
hoje é o dia, de fazer tremer os alicerces do poder, deste poder que nos quer deitar a perder, como povo. 
vamos todos acorrer, a correr, ao chamado, dar um grande brado NÃO. 
nós queremos a revolução, nós que já comemos o pão que o diabo amassou, não o vamos comer de novo.
 somos um povo de mulheres e homens prontos para uma revolução. 
vamos fazer o nosso tempo novo. 
com as nossas mãos!

28 setembro 2012

o futuro. amanhã é o dia



o futuro

começa cedo


o futuro

pode começar

num dia escuro


o futuro

não tem hora

o

o futuro

pode chegar

a qualquer hora


o futuro 

não tem medo

do futuro


o futuro começa agora



andam futuros no ar

nasçam asas

para os agarrar

26 setembro 2012

a jangada de pedra está em marcha



estamos à beira de transformações históricas no mundo. os povos revoltam-se contra as ditaduras do capital.
fascismos disfarçados de austeridade.
é a luta de classes! em portugal e na espanha, também.
a jangada de pedra está em marcha!
a par da luta anti-capitalista, os povos lutam ainda contra a corrupção que  minou os sistemas democráticos.
a luta é, também, pela libertação da democracia.
de todas as peias e cadeias.
os povos levantam-se e reclamam: que venha o tempo novo!
uma democracia onde nós, o povo, nos possamos sentir plenamente representados.
onde as nossas opiniões contem, verdadeiramente.
uma democracia a sério.
porque o povo é sério.
e honesto.
queremos o tempo novo. sejamos nós a inventá-lo!
nós somos o povo!

dia 29!

25 setembro 2012

auroras de um tempo novo



sim
dia 29 lá estaremos
de novo

faremos ouvir a nossa voz
que o terreiro é do povo
e o povo somos nós


levaremos as bandeiras

a rebelião
nos corações 
e a razão 
e a emoção

seremos um mar

de povo a lutar

seremos os lobos

e o luar

auroras

de um tempo novo

um povo a despertar

24 setembro 2012

romãs




já podemos comer romãs, descansados. com as chuvas dos últimos dias as romãs ficaram limpas, sadias. 
diziam os antigos, os do sul, que davam sezões, as romãs, a quem as comesse antes das primeiras chuvas de outono. 
as romãs crescem no verão e amaduram no outono.
gosto muito de romãs. de as comer. de as olhar.
oníricas romãs, lembram-me rubis. 
como posso eu lembrar-me de um rubi, se tal nunca vi. é assim o nosso cérebro, uma  fábrica  de imagens, de coisas que só depois os olhos hão de conhecer. 
é isso que faz a humanidade avançar. e recuar. recuos, se de guerras falamos. por muito avançadas, ou modernas, que sejam.
tudo isto só por causa das romãs.
nesta clara e límpida manhã apetecem-me romãs.
vou trabalhar como se comesse romãs.

ah! os antigos também diziam que se devem comer laranjas, pelo menos uma, antes do natal, para livrar de um catarral.
sabedorias de um povo, que sabia mais da terra que do seu próprio corpo.

sou mesmo do campo, eu.

23 setembro 2012

o outono chegou ao barreiro




o outono chegou
 ao barreiro
com a chuvada
desta madrugada
o meu corpo já sentia
a chuva a aproximar-se
e tinha saudades
do cheiro

da terra molhada

chegam também as aves
do outono
os primeiros rabi-ruivos

já os oiço
nos quintais
para os lados dos corticeiros

outono
esperei por ti
o ano inteiro

22 setembro 2012



tribuna pública
em defesa do pólo ferroviário do barreiro

hoje de manhã no parque catarina eufémia no barreiro

a luta vai continuar
enquanto for preciso

21 setembro 2012

as searas, as searas




as searas

as searas


searas de povo

da minha terra


minha seara de espera

agitando em espigas

trigo maduro


ó raparigas, vinde!

vinde!

colher espigas 

de futuro

19 setembro 2012

em defesa do pólo ferroviário: passeio de bicicleta



No domingo, 16 de setembro, realizou-se o "Passeio Ferroviário em Bicicleta", um evento que uniu a utilização da bicicleta em meio urbano com a descoberta do património ferroviário do Barreiro, através de um passeio guiado pelos diversos pontos de interesse patrimonial do concelho. Para levar a cabo esta iniciativa, o Movomento iBike Barreiro associou-se ao Movimento Cívico de Salvaguarda do Patriónio Ferroviário do Barreiro.


Sobre a importância da iniciativa, José Encarnação em nome do Movimento Cívico, considera que a mesma "constitui um factor essencial para a construção do futuro que se pretende para o Barreiro", contribuindo para a "preservação, classificação, valorização e divulgação" da cultura ferroviária que é, no seu entender, "um pilar nas referênciasa da memória e da história da cidade".
Já Nuno Paulino, da iBikeBarreiro, também realça a possibilidade de "dar a conhecer o património ferroviário existente na cidade", alertando para a "indefinição do seu futuro e manutenção", mas fala também em "utilizar este passeio para levar os barreirenses a experimentarem viver a cidade em bicicleta..." 


ler mais em jornal do barreiro:

18 setembro 2012

a belém!




claro, a manif de dia 29 é importante, mas até lá...
que se lixe a troika!
e o que é importante, também, é que todos paticipem
em todas as manifs
para que derrotemos esta política neo-liberal, capitalista, imperialista e fascista!
e a próxima é já dia 21, em belém!

quem não quiser vir, que fique no restelo
que nós,
embarcamos nas caravelas!

17 setembro 2012

o sonho de pedro passos coelho



por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 11 de Setembro de 2012
Crónica 36/2012
“Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar, e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos  salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventados quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.

Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar - mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazer algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto) votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portar-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à élite.” (jvmalheiros@gmail.com)

16 setembro 2012

os anos que aí vêm hão-de ver a nossa libertação




os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão

nós carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou
abriu rios de sangue no nosso dorso.

nós empunhámos nas galés de césar 
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo
na nossa pele.
a terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa
e só nós a fecundámos!

e quem abriu as artérias? quem reasgou os pés?
quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono

e quem cerrou os dentes? quem cerrou os dentes e esperou?

spartacus voltará: milhões de spartacus!

os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação


itinerário
poema de
papiniano carlos

15 setembro 2012

defender o pólo ferroviário do barreiro. passeio de bicicleta




amanhã 
já depois da manifestação contra a trioka
quem quiser apareça, mesmo que não vá pedalar (como eu)
o
 o movimento cívico de salvaguarda do património ferroviário do barreiro
em parceria com a iBike
promovem com o apoio da junta de freguesia do barreiro
um passeio de bicicleta a vários pontos da cidade
onde falaremos sobre a importância do pólo ferroviário, enquanto paradigma de desenvolvimento quer no passado, quer para o futuro, do concelho
ao mesmo tempo que se alerta para a exisência de um importante conjunto patrimonial edificado
com elevado potencial turístico que justifica e merece ser valorizado e classificado
como parte da memória  e da história da cidade ferroviária do barreiro
ver mais informações em: http://patrimoniobarreiro.blogspot.pt/

14 setembro 2012

que se lixe a troika


que se inundem as ruas
e toda a cidade
com a nossa voz
e a nossa raiva

 recusamos
este governo
esta política
este sistema 
capitalista
imperialista

chega!
basta!

13 setembro 2012

tempo de chacais




neste tempo de chacais aumentam as depressões
todos os dias
quando chego ao bairro operário, há sempre mais pessoas na associação persona
no início eram 2 ou 3
 ontem contei 14!
hoje quantos serão
quantos serão no fim do ano
quantos mais serão
no final do próximo ano

11 setembro 2012

por favor acordem dos vossos sonhos




por favor acordem dos vossos sonhos
este tempo é de chacais!
não deixem que tomem conta das nossas vidas, outra vez
uma já foi demais
lutem!
por vós, por mim, pelos demais
 por todos nós!

09 setembro 2012

07 setembro 2012

onde está a poesia




hoje a poesia 
está apenas no meu olhar

e naquele recanto do jardim
nas raízes daquela árvore exótica

nos olhos do cão vadio

naquele grupo de operários
que chegam do velho porto da cuf
para o seu café de camaradas

nos guindastes
nas altas chaminés
nos castelos de betão

castelos industriais
esses são
os verdadeiros castelos do barreiro

nos barcos dos pescadores

na névoa que envolve o rio

nas velas brancas de um veleiro

naquela velha mulher
do barreiro
que como se no alentejo
ainda
varre a rua à sua porta
todos os dias

naquele grafiti
que incita
questiona tudo

nas velhas casas
ora alegres
do bairro operário

na saudação do jardineiro

no relógio
que da sua torre
me diz
são horas do almoço

no meu olhar
e no teu olhar

afinal
a poesia 
anda no ar
livre
nas asas de uma gaivota

05 setembro 2012

"Um canhão pelo cú" por juan josé millás


o artigo que se segue foi publicado em espanha por juan josé millas em 14 de agosto no el país. é um poderoso libelo de denúncia do sistema capitalista global financeiro que governa hoje no mundo. no país de cervantes tem sido amplamente divulgado. por cá nem por isso e alguns mostraram-se incomodados e chocados com a linguagem do mesmo. a mim o que me choca não são as palavras, mas as verdades que ele diz. aqui fica uma tradução que corre na internet:



Um canhão pelo cu
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millás



03 setembro 2012

crónica de uma manhã



de saída para o trabalho. hoje vai estar mais um dia de grande calor. lá terei de levar o meu chapéu branco...
antes passo pela avenida da praia.
que belo dia! que bela, a vida. e este rio que não me cansa, hoje um tudo nada agitado, em cintilações de aragem fresca, que me arrepiam os braços. a serra de sintra, no seu azul de lonjura. não há mariscadores hoje. ainda há dias eram às dezenas, na apanha da amêijoa que, ressurge com fartura. cópia de mariscos e toda a sorte de peixe, como escreviam no século xvi, a propósito da grande riqueza deste este rio.  parece que teima em recuperar a sua saúde, este rio milenar. a natureza faz tudo por nós. e veja-se como lhe retribuímos…
nesta alameda, belíssima alameda! que recorda bento gonçalves, líder comunista a quem foi tirada a vida no campo de concentração do tarrafal, admiro eu lisboa e a vida. que privilégio poder aqui estar, viva!



sobre lisboa levantam e aterram aviões, num constante vai-e-vem. lá vai a easy jet, é a que passa mais vezes, consigo vislumbrar-lhe as cores e logo o pensamento voa,  à velocidade da luz, um dia destes lá vamos, outra vez. a caminho de lausanne.
pela alameda  caminheiros matinais,   homens e mulheres. tudo malta de meia idade, já. desfrutando, enquanto podem. 
um bando de gaivotas mais à frente, em disputa. e eu tenho de me desviar, ou apertar o nariz. porra! porque é que a estação de tratamento, já construída! nunca mais entra em funcionamento?! porque é que continua a despejar a merda todos os dias, em dois sítios! da muralha!? quando isto acabar acho que merece fogo de artifício. isso sim é um benefício. isso é que será qualidade de vida. lá tinha que vir esta referência comezinha, estragar esta minha crónica tão bonita, do quotidiano. mas já deixei a merda pra trás e aqui vou, fazendo mais umas fotos do rio, já lhe perdi a conta. eu devia era ter sido fotógrafa. 
pela avenida encontro muitos jovens, de exótica beleza! estes rapazes e raparigas angolanos, na frescura da mocidade com que enchem as ruas do barreiro de algazarra alegre
(ó pá tu toma cuidado com elas. elas são gatunas di homens! dizia um deles).



já conquistaram todo o bairro operário e continuam a tomar as tantas casas vazias que aí estão, por esse barreiro. muitos dos seus filhos têm de o deixar, por força da desgraça em que este país se vai afundando.
e chego ao bairro. e aqui está, à minha espera josé antónio marques e os seus mil caderninhos, manuscritos. hei-de me reformar e não acabo a leitura de tudo o que este homem escreveu. escrevia em todos os pedacinhos de papel que apanhava à mão. impressionante! e ainda os passava a limpo. ele queria mesmo que alguém lesse, tomasse conhecimento do que ele deixou, viveu. que grande cronista, ignorado que foi este operário, homem ferroviário, poeta do quotidiano, escritor, jornalista. que riqueza de informação nos deixou. não me cansarei de o divulgar em todos os forúns científicos.
cheguei ao arquivo. talvez à hora de almoço passe tudo para o computador, se não me esquecer de metade...