19 agosto 2012

estórias do latifúndio. torre vã



por alentejos ignorados e desconhecidos chega-se à aldeia de torre vã, concelho de ourique. que nome  estranho. como se pode erguer uma torre vã!? será o vento que a sustenta? será o esforço humano que a suporta? esta herdade/aldeia, quem sabe com origem medieval, dado o topónimo torre (defesa), parece ter tido origem numa grande propriedade senhorial mas, o que lê o nosso olhar é, que esta aldeia do latifúndio foi criada para servir, a uma grande casa agrária que vivia alcandorada no seu trabalho e  na exploração de gerações e gerações de famílias rurais.


um grande palácio, domina tudo em redor, e apesar do abandono em que parece estar, e várias dependências, sugere que naquela propriedade viviam os senhores do privilégio. junto a uma ribeira, de que não consegui saber o nome, havia uma casa de fresco, de azul pintada, por dentro e por fora anilada, rodeada de arvoredo. nas margens dessa ribeira crescem, faias e freixos. dentro da casa, adivinha-se, viviam os senhores como altos seres marinhos, claros e arrogantes.




nas cercanias do palácio, em pequenos casebres habitavam homens e mulheres, de pele escura, negros de tanto trabalho. como formigas em carreiro, regavam com gotas do próprio rosto, os canteiros do jardim, a horta, o pomar, as searas, o olival. trabalhavam no sol a sol, de dia. de noite a aldeia velava. assim, que nada faltava aos senhores do privilégio. a aldeia trabalhava, trabalhava, mas o trabalho nunca chegava. a aldeia vivia aprisionada nos muros do latifúndio. 


até que um dia rebentou a revolução. e os homens e as mulheres e as crianças e os jovens da aldeia vestiram-se dos sentimentos mais puros, rasgaram os muros e a servidão e ergueram a bandeira da coragem e firmes, e rijos, mudaram o mundo e criaram futuros. e os senhores do privilégio rastejaram, para o brasil e para a suiça e outros esconderijos. por uns tempos acabou o mal e reinou a festa universal, a fraternidade e a liberdade. mas o sonho na aldeia durou pouco - duram pouco os sonhos dos pobres - foi breve, deu em nada. e pouco a pouco os senhores do privilégio voltaram. e lá estão de novo, no palácio. hoje a aldeia voltou a ser murada.

rc

8 comentários:

Anónimo disse...

Olá Rosalina. Gostei das suas fotos apesar de que o seu arrazoado politico me dar vómitos. O senhor José Nobre foi uma grande e generosa pessoa e não fugiu para o Brasil. Morreu de desgosto por ver como pessoas, que nada tinham a ver com a Torre Vã, roubaram tudo o que havia. Informe-se, antes de dizer estas baboseiras.
Bem haja
Antonio Pereira.

Anónimo disse...

Ah! e a ribeira é o rio Sado. Que mesmo aí ao lado tem uma maravilhosa colónia de lontras, que pensavam alguns, estavam extintas. É, afortunadamente, o velho Alentej que regressa...

rosalina carmona disse...

josé pereira
o que escrevi sobre torre vã é apenas uma "estória", um exercício literário.
não sei quem era josé nobre, ignorava até o seu apelido. o que tenho a a certeza,pelo que conheço do alentejo, é que esta história pode ser generalizada a muitas povoações/populações alentejanas e que o processo da reforma agrária foi justo e que o país necessita hoje de uma nova reforma agrária.
se ficou mal disposto com o que leu, lamento. tome um chá que faz bem.

quanto ao velho alentejo que vá de retro... e a ribeira não tenho a certeza que seja o sado, porque não vem assinalado nos mapas nem existe placa que a identifique.

Anónimo disse...

D. Rosalina

O velho alentejo tem muito que se lhe diga... Gente boa essa da Torre Vã.
Porque não diz também vá de retro aos caciqueiros da reforma agrária que ficou por fazer?
E saberá V. Senhoria que a veraddeira reforma agrária deveria começar pela análise da capacidade agrícola dos solos que os trabalhadores das UCPs rejeitaram nos idos de 75 e 76?
Falar é fácil,minha senhora. E mesmos que os propósitos senham literários há que saber o que se diz.

rosalina carmona disse...

caro josé pereira

digo vá de retro a todos os caciqueiros, quaisquer que sejam. nunca gostei de caciques.

quando abordo certos temas, especialmente "alentejo", faço-o sempre sob uma perspectiva de classe, a classe dos explorados, dos que apenas possuem a sua força de trabalho, a qual vendem para obter os meios para a sua sobrevivência. é desse ponto de vista que recuso o "velho alentejo".
considero a reforma agrária uma necessidade histórica e de justiça social.
parece que sob esse ponto nunca estaremos de cordo.









Anónimo disse...

Agradeço o ter fotografado algumas coisas da torre- va.Aconselho a sra a ouvir mesmo quem sabe. Quem deu cabo da torre-Va, do seu saudoso proprietario e mais pessoas, foi a maldita reforma agraria. Nao e rio sado, mas sim um afluente do sado.
Maria

rosalina carmona disse...

maria
"quem sabe"?!
a maria sabe?

a reforma agrária só pode ser maldita para quem nunca a entendeu.

porque é que as pessoas que comentam aqui, não sabem o nome da ribeira?

não são de lá, está visto...nesse caso não podem falar com conhecimento de causa. dizem mal só por dizer...

Anónimo disse...

boa tarde.Chamo-me Mónica Lopes de torre-vã,sou uma das habitantes desse monte que gosto de viver,apesar de ter poucas pessoas,e, tenho orgulho em viver neste monte. Era uma herdade grande onde trabalhavam muitas pessoas de muito trabalho e de sol a sol.Mas pessoas honestas.Vivo agora num monte onde agora não se vem ninguém,apesar de estarmos longe de tudo.Ate concordo com algumas coisas que você diz.Mas Torre-vã não é uma aldeia mas sim um monte isolado com poucas pessoas