24 agosto 2012

estórias do latifúndio. pias, baixo alentejo


como era difícil a vida nas aldeias do latifúndio! tudo era difícil. para as crianças ainda mais. tinhamos de crescer depressa. e crescíamos.  a aprendizagem da vida começava muito cedo. ficava-se adulto, independentemente da idade, quando se começava a trabalhar. e nunca mais se parava.

recordo-me agora,  nem sei porquê, quando ía-mos ao poço, buscar "água de beber", em cântaros de barro e enfusas, à cabeça.  como custava, e pesava! um cântaro cheio de àgua.
ao fim da tarde, no verão, pela fresquinha lá íamos, mulheres, mães e raparigas, pela linha do comboio, ao poço do estrela. ficava a mais de um quilómetro de distância, mas a água era muito azul e fresca. custava 7 tostões, o cântaro, se não estou em erro. depois era ver,  e aprender, a arte e a elegância de colocar sobre a cabeça a enfusa, de modo a não  cair e partir-se.  autênticos malabarismos e «fenezas», que é outra maneira de dizer proezas.

equilíbrios de mulheres e meninas
bailarinas
jogos e movimentos
flutuantes
balançados

as pernas elevam o corpo
nas ancas o jeito cadenciado
articulado
com a firme haste
do pescoço

na cabeça
coroada
das raparigas
bem levantadas
vão ideias difusas
em barro fresco
no vermelho das enfusas
águas e vida
vidas

direitas que nem um fuso, assim deveríamos chegar à rua do castelo, ao chiadinho, ou ao caganito, cabeças e pescoços dormentes. 
já a "água de gastar" ía-se buscar ao poço do comboio. chamava-se assim porque era junto à linha férrea, local onde os comboios a vapor paravam para tomar água. íamos às escondidas, sob a cumplicidade da velha georgina, guarda da passagem de nível. a cp não permitia. a água deste poço não prestava para beber, apesar de ser das mais frescas. servia apenas para os usos da casa. já de lá tinham tirado alguns afogados. lembro-me do caso de uma rapariga de 20 anos, "deixada" do namorado.

até parece que foi há séculos... e no entanto... isto eram os anos 60.

as estórias do latifúndio são assim, não têm fim. surgem,  sem quê nem porquê... 

2 comentários:

Kruzes Kanhoto disse...

Vivências que apenas não estarão de regresso porque já não haverá gente para as viver...

rosalina carmona disse...

vontade de voltar a fazer o mesmo, é o que não parece faltar-lhes. o que falta mesmo são as pessoas, no interior principalmente.
se o país fosse um barco já tinha adornado...