26 março 2010

mulheres meninas do alentejo



quando eu era menina e vivia no alentejo, as raparigas tornavam-se mulheres muito cedo. a mudança era quase repentina e começava com a puberdade. a partir da primeira menstruação mudava tudo. acabavam-se as brincas na rua, o sentar descuidado nos portados. era preciso preservar a todo o custo a virgindade. a mudança de estatuto de menina para mulhar era tão repentina que não dava tempo a que nos habituássemos e então era só descomposturas «fecha essas pernas», «puxa essa saia para baixo». umas boas nalgadas ajudavam a não esquecer o recado. mas o corpo crescia mais depressa que o cérebro e por vezes tinham de se realizar casamentos à pressa. antes que o vestido branco, símbolo de pureza imaculada, levantasse muito, à frente. outras fugiam com os namorados. no dia seguinte ouvia-se «fulana fugiu com sicrano», que era o mesmo que terem-se (a)juntado. fugiam sempre para casa do namorado, claro! o pai da rapariga não consentiria tais poucas vergonhas em casa. e depois a mãe é que ouvia, do pai e da vizinhança. o namoro começava cedo, quase desde a escola. rapariga que namorasse mais do que um já não era boa. algumas «nunca mais ninguém lhe pegava». como se tivessem lepra. se engravidavam e não casavam era uma desgraça. para elas e para a família. quando o namoro prosseguia sem sobressaltos, o rapaz ia para a guerra do ultramar. muitos voltaram na caixa de pinho. e elas nunca casaram. conheci algumas. enquanto eles estavam na guerra, quase três anos de tropa, elas vestiam uma roupa escura, cinzenta. não saíam a passear. não podiam falar com os rapazes da idade delas. ficariam muito mal vistas. a família do namorado encarregava-se da vigilância. casacos, aventais e saias de chita, tudo escuro e cinzento. lenço na cabeça, em rebuço e «caluda», não dês muito nas vistas. era um país mesmo cinzento, esse da minha meninice. felizmente apanhei o 25 de abril. a revolução devolveu a cor e o sorriso a portugal. a partir daí foi um tempo de furta-cores, ou arco-íris. as pessoas tornaram-se mais felizes. não podemos deixar agora que uns troca cores estraguem tudo.

5 comentários:

Anónimo disse...

Olá Rosalina
A rapariga de calças de ganga parece a Laurinda.
Parabens pelos textos que escreves, são muito belos.
bj Joana

Marília Gonçalves disse...

continuar o caminho do progresso
esse tempo impedia-nos de ser quem éramos e é verdade que mesmo nos arredores de Lisboa uma menina saltar à corda logo que as mais leves formas se começavam a desenhar. Tanta proibição, tanta falsa moral nos amordaçava e impedia de ser crianças.
E esse olhar sobre nós além do mais sujava-nos!



Nessa era
A mulher excluída
Confinou-se
Na sua confinação
Todo o passado que trouxe
De quando não tinha não
Se avolumava crescia
Dentro duma opinião
Que no íntimo envolvia
O pensar e o coração
Mas a mulher não sabia
Que ia parir novo não
E o dia que nascia
Crescia: era sua mão.
Mãe mão na fome de tantos
Mão que semeou o pão
Amassado por seus prantos
Orvalho seco no chão
Desde a voz duma ceifeira
Levando um filho pela mão
E que bala traiçoeira
Amandou inerte ao chão
Um murmúrio longo e lento
Percorreu a planura
Como arrepio que despisse
A sombra da noite escura
Esse murmúrio sentido
Atravessava milênios
Com a força dum gemido
Ou voz calada de gênios
Do sangue duma ceifeira
Um sangue internacional
Nascia a nova bandeira
Opondo o bem contra o mal
O bem, sim, porque não dói
Não mata nem faz sofrer
Enquanto o que é mau corrói
E não nos deixa viver
Usemos pois a palavra
Com o sentido que tem
Sobre terra que se lavra
Só porque nos sabe bem.
Quando o gosto é sem desgosto
E nunca provoca dor
Radioso sol d Agosto
Ou gargalhada de amor
Que ser mulher é mais forte
Que malévola intenção
Que vence a sombra da morte
Ao gesto de sua mão


Marília Gonçalves

azinheira sou eu disse...

joana
a rapariga das calças de ganga é esta tua amiga. com 19!
bjs
marília
era assim, cinzento em todo o lado. obrigado pelo poema.
bj

Anónimo disse...

Peço desculpa Rosalina.Beijinhos

azinheira sou eu disse...

anónimo
pessoalmente não há nada a desculpar mas se as desculpas se destinam às mulheres meninas do alentejo aceito as desculpas por elas
beijinhos