10 fevereiro 2010

memória do Alentejo quando menino

poema inédito de filipe chinita
.
na cidade grande
o homem
é muito mais bicho
que o habitante
da planície
longa

além
Tejo
.
os homens
enrolam mortalhas
passam-lhes
a língua
lábios
saliva
na modorra
em que o sol
queima
e o tempo
é igual
.
são
por vezes
lentos
os
desafios
quase
o homem esquece
ser ele
o
centro
.
a
difícil
sabedoria
da
espera
.
o
silêncio
o
grito
grande
que é
o
da planície
.
canto

apenas
o
das cigarras
na
toalha
de
calmeira
que
desembainha
sombra
no
beiral
das casas
brancas
.
fresquidão
interior

cântaros
de
barro
húmido
cocho
frescas
águas
de
fonte
.
a
sede
sequiosa
de
um
mundo
outro
.
o cocho d’água
sobrante
sobre
a
tijoleira
porosa
(que
tudo
absorve)
cor
de sangue
ou
bandeira
.
os homens
do Alentejo
costumam
um canto
uníssono
não
monótono
consonância
vária
desdobrada
que
das vozes
saí
.
da
bolota
pão

da
foice
objecto
de
espinha

cerviz

o
gesto
curvo
da
libertação
.
quem
não é
não pode
saber
da rua
quase única
que atravessa
a
aldeia

do
cair lento
das
noites

onde
as
gentes
sentam
o
verão

o
passeio
que
corre

o
vozear
.
cigarreio
de
ardores
luminescências

mancha
que diria
uma pincelada
de
igual

não
soubera
os
contratados

nome
a
nome

cara
a
cara

máscaras

pano
e
barro

ruivo
e
negro
.
é
no passeio
da rua
principal
quase única
que
sentam

no
diante
das
tascas

as
mulheres
(em)
cadeiras
de
buinho
amuradas
entre
portais

esperam
nocturnamente
.
a
branda
aragem
 o
negro véu
quieto
estrelado
que
esquece
a
calorada
e
profetiza
o
amanhã
.
a tal fonte

chafariz
das
quatro
bicas
centro
da
aldeia

é
o
largo
da
igreja

vaga

2 comentários:

andrade da silva disse...

Filipe Chinita é um amigo de longa data, que fez um poema extraordinário a dar notícia da morte de Caravela e Casquinha " Cantata Pranto e Louvor". Nesta obra Filipe não deixa a pele de militante do PCP, mas ultrapassa em muito essa dimensão particular, para retratar como homem das letras e do amor um momento trágico da nossa história.

A morte de um pai e de um jovemd e 17 anos filho de gente laboriosa. Estas mortes representam o crime, mas também a morte da reevolução do 25 de Abril, mas os executantes e os mandantes estão entre nós, e muita gente de esquerda traindo a memória destes mártires abraçam os que cobardemente abriram o caminho a estas mortes, e, aqui, tmbém reside a razão maior,porque se querem caladas algumas vozes, porque conhecem a verdade que o povo viveu no terreno.

abraço para todos e para o Filipe

asilva

azinheira sou eu disse...

cometário da minha amiga manuela fonseca que, por dificuldades com estas coisas dos blogs não consegue colocar os comentários. aqui fica manuela. obrigado.

«Olá, Rosalina, boa Amiga

Mto bonito o texto que indica do Chinita. Mas, p/ modéstia, como é s/ costume, ñ referiu o seu que li, avida/, s/ saber que me citava; mto obrigada. O Inverno tem-me incomodado bastante e a sua citação foi 1 lenitivo para as chatices.
Bem haja.
Peço-lhe k tb mande para o Manel qdo nos informa do blogue que a gente ñ percebe nada disso cá em casa.
Este Chinita é alguma coisa ao senhor, do tempo do s/ sogro, k morava em Alhos Vedros e tb foi fogueiro do m/ pai?

Deixei os parabéns no Livro da Exposição. Atenção: 1 folha está solta (disse isso à Assistente).
Na próxima, eu ofereço o livro para ñ onerar nem a CMB nem vocês. Com mto gosto; um livro simples, claro.»