24 dezembro 2010



apesar da crise

apesar do desemprego

apesar das agências de rating

apesar da neve

apesar do frio

apesar da noite

apesar dos pesares

há a família

há a amizade

há a solidariedade

há a vontade de paz

porque a esperança também pode ser rubra
como as papoilas


para que 2011 seja um ano melhor


porque o natal pode ser um dia qualquer

18 dezembro 2010

como se uma manhã qualquer



manhã
como se uma manhã qualquer

 esta é uma manhã de frio
4 graus na verderena!

até as gaivotas
como adivinhando tempestade
todas em terra
aguardam
serenas

nesta manhã de maré cheia
de rio revoltado na muralha
lisboa brilha ainda mais
e o frio
um frio cortante
que cresta a pele
pele como pão
pão da minha terra
terra como pele
pele como terra lavrada
penso em ti
rapazinho da t-shirt vermelha
desbotada

penso em ti
e nesse olhar
triste
olhar a disfarçar a  tristeza
 que vai pelo mundo

nessa tua t-shirt vermelha
russa
aí parado
ao frio

e eu com vontade de te dar um abraço
e falta-me a coragem

e fico de longe
a olhar-te
sem te dizer
as palavras

que talvez não entendesses
porque o modo de falar
da terra onde nasceste
não é o meu

dizer-te
que és tão humano como eu
tens veias
pele
e sangue
e estás aqui
perdido

e o meu coração partiu-se
nesta manhã de gelo


22 novembro 2010

no outono








adoro no outono
a frescura das manhãs

o cheiro do lume

os primeiros casacos de lã


as neblinas nos telhados

macias

finas

como bordados

amo o outono a despir-se em folhas

douradas

vermelhas

misturadas
com as folhas desenhadas na calçada

adoro as madrugadas frias

e o cheiro da maresia

que me faz acordar

a julgar que é poesia


adoro o rio

picado

agitado
com mil cores

escuro da cor do barro

barro deste barreiro

lavado
lavrado por pescadores

adoro a fruta de outono

castanhas, marmelos e romãs


as despedidas de verão
o mercado e as bancas coloridas
frescas como as manhãs

outono

é o tempo de que mais gosto

mesmo se às vezes
a contra-gosto
os dias me são pequenos
para fazer tudo o que gosto

adoro o outono

08 novembro 2010

foi para isto que se construiu alqueva?

chocante exploração dos recursos, com vista à produção maciça de lucro
sem qualquer preocupação com o futuro



beleza e racionalidade do olival tradicional




o alentejo está a mudar
a paisagem que eu conheci está a desaparecer
rápida e dramaticamente
qualquer dia não conheço o lugar onde nasci

a planície, terra do pão, já não existe
ninguém cultiva hoje pão, no alentejo

as melhores terras da planície estão agora a ser transformadas em campos de produção de azeite
olivais de produção massiva e intensiva
olivais para produzir apenas por uma dúzia de anos
com árvores controladas para que não cresçam mais que até à altura das máquinas que vão apanhar o fruto
olivais hibridos
com oliveiras fabricadas em laboratórios
que produzem bagas redondinhas, em vez de azeitonas
bagas de oliva

bagas que são, várias vezes ao dia, regadas e pulverizadas para que cresçam e amadureçam rapidamente
é impressionante a quantidade de produtos químicos que são descarregados para os solos, todos os dias, a toda a hora para que não nasçam ervas e morram todos os insectos



entretanto o olival tradicional vai desaparecendo e a produção de cereais que lhe estava associada é quase residual e vai dando lugar a este fenómemo de produção intensissima cujo desfecho é previsível, quanto ao esgotamento dos solos

e ainda pior! é que toda a riqueza produzida não fica no país, porque os donos dos olivais não são portugueses
nem contribuem para o desenvolvimento local, porque empregam escassa mão de obra e destroem a nossa agricultura
além dos benefícios que ainda recebem, pois nem sequer a água da rega pagam durante dois anos

foi para isto que se construíu alqueva?
não creio

e os agricultores alentejanos? porque estão de braços cruzados?



aflige-me e choca-me ver aquilo em que o alentejo está a ser transformado

quando alguém acordar para este problema pode ser tarde demais

04 novembro 2010

madrugadas claras



algures

num alentejo fundo

tanto como o vale do guadiana

entre serras

a de serpa e a de mértola

as noites são mais azuis

iluminadas
apenas
pelas estrelas

o ar leve
tanto

transporta-nos
até júpiter e suas luas

alentejo tão fundo como a noite
como o céu

as palavras são poucas

e

 gastas

é preciso inventar novas

que escrevam esse céu

essa planície
quase
infinita

essas madrugadas
claras

envoltas em tules finos
 de névoas

e os dias trabalhosos
longos
ainda que o sol se esconda cedo

dias de trabalho
esforçoso

 breves

para mim

não para outros

22 outubro 2010

o relógio de santa cruz dá horas



o relógio de santa cruz dá horas

mas horas de quê

horas de dormir, horas de acordar, horas de sair de casa, apanhar o autocarro, sair do autocarro apanhar o barco, sair do barco apanhar o metro, sair do metro correr um pouco apanhar o elevador, entrar no escritório a horas de saudar os colegas e ligar o computador.

quando o relógio de santa cruz dá horas, no peito batem saudades. a certas horas tenho saudades de certos sorrisos, quando chegavas a certas horas. está quase na hora de te dar um abraço. são horas de te dizer,e mesmo que o não diga, gosto de ti a todas as horas.


batem horas no relógio de santa cruz e podem ser horas felizes, horas de sorte, horas de azar, horas mortas, horas de chegada, horas de partida. pode ter chegado a hora de alguém um pai, uma mãe, um irmão, um amigo, uma amiga.


às horas que toca o relógio de santa cruz apita a sirene das oficinas. são horas do almoço. horas de escutar o silêncio ensurdecedor quando se desligam os motores das locomotivas em afinação. horas de sair para a rua descer a escadaria, apanhar um pouco de sol, ler o comunicado do sindicato a apelar à greve geral.

o sino do relógio da torre da igreja de santa cruz diz que são horas de sair de casa, passar pelo mercado, passear pela avenida e na companhia da amiga atravessar o parque a caminho do rio, que lisboa já está à espera há horas.

antes do bater das horas no relógio de santa cruz já a fila à porta da segurança social engrossou e dobra a esquina, horas e horas de espera para ouvir a mesma resposta: não há ofertas de emprego, volte cá no dia x às tantas horas.

o relógio de santa cruz dá horas e há corvos negros a grasnar desespero, em cima dos telhados das casas, há horas. nessas horas em que o relógio de santa cruz bate no tempo escutam-se vozes, ou serão corvos a grasnar, o orçamento, a crise, a austeridade, a instabilidade.

agora o relógio de santa cruz está a dar horas, olho e parecem-me horas de esperança. vamos a ver o que isto dá.

20 outubro 2010

esta cidade


foto: josé encarnação

chego

ainda com a luz e o espanto da planície

no olhar

debruço-me sobre a cidade na outra margem

turbilhão de  luzes

cidade do meu enleio

que me desarma

sempre à espera do meu olhar


cidade de angústia

e ainda assim que eu amo


esta cidade

este país

que não adormece

nem acorda

e me entristece

03 outubro 2010

hoje não quero o silêncio




hoje não quero silêncios

de bosques imaginados

não quero o silêncio dos rios perdidos

encantados

não quero silêncios de penumbras

transparentes


hoje não quero o passado


não quero as vozes ausentes

hoje não quero o silêncio das aldeias


hoje quero o presente


hoje quero bandeiras

vermelhas

vermelhas

como o sangue

que corre nas veias

26 setembro 2010

as palavras




as palavras

como são importantes

nas nossas vidas



com elas vestimos sentimentos

pintamos esperança


ou cortamos a rosa

cerce



às vezes parecem banais



as palavras



e a necessidade

de serem

não mais

que



apenas

autênticas



18 setembro 2010

aconteceu



aqui

frente ao manto azul

líquido cetim

tejo de calmaria

espero-te


a cidade

grande

colinas e seios

corpo de sereia

agita-se


em mim

bailam

receios


a silhueta do barco

de lisboa

ao barreiro

rasga a seda

corta a perfeição


e agora

o do montijo


(não me sejas um d. sebastião!

que para sempre se perdeu…!)



a certeza

seta certeira

atingi-me

a doer

no coração


já não virás

acabou-se a paz

fico só

comigo


ligo o rádio

oiço aquele fado

da ana moura


“o que foi que aconteceu”


08 setembro 2010

ontem pela manhã





















ontem pela manhã



a chuva foi chegando

mansinha

devagar



manhã de setembro



fina como tule



foi-se agitando o rio

em tons de seda lavrada

rumorosa



e

as árvores da bento gonçalves

quando o vento as faz baloiçar

acordam em sons

como alguém a pisar

 a caruma dos pinhais



e é como se

nesses passos

alguém

encontrasse num repente

e puxasse

o fio

das memórias perdidas

escondidas

intemporais



a chuva

com agulhas fininhas

vai-me furando a pele

e ameaça acabar com o meu passeio

pelo barreiro velho



recolho-me

numa rua estreitinha

no alto do hospital

 entro por uma travessinha

sem nome
e em passo lento

 atravesso

num suave retrocesso

um local

fora do tempo



e eis maria vicente

mulher quinhentista

burguesa

do barreiro natural e vivente

à porta de seu hospital

que ali fundou

para a pobreza



num pequeno janelo

dois pares de olhos

verdes

coruscantes

em anelo

espreitam



maria vicente

e suas gatas à janela



entro

e converso com elas


penso na máquina

do tempo

se eu conseguir tirar!...

a fotografia



mas quebro a magia

fogem os gatos

e oiço uma voz

trocista



estas gatas são umas artistas

não se deixam fotografar



ontem pela manhã

a chuva correu a cortina

do verão

e declarou o fim das minhas férias

mas foi em vão

não me apetece voltar

à rotina



vou continuar no verão




30 agosto 2010

tempo de partir





manhã fresca 

fim de estiagem

tempo

de reunir

forças

preparar

a

dura

 viagem


partir


pensando em voltar

voando

voando


quem sabe

o que levam na alma 

o que as faz regressar


quantas

quando


se

voltarão


ou não


boa viagem!

24 agosto 2010

há coisas que só no barreiro...







há coisas que só no barreiro...

como esses fins de tarde

em que me debruço da janela

quando o calor já fugiu

para trás do mar

e o rio está á minha espera


no quintal os cães disputam

a minha atenção

o meu olhar


e a gatinha preta

que teve outra ninhada

perdida

(outra vez)

já anda de novo

assanhada


as árvores esperam

 sequiosas

 ansiosas

uma gota de água


é nestes fins de tarde

que amo mais o barreiro


e a poesia chega

súbita

em sons e música


é o jazz

irrompe pela tarde

salta pelas janelas

abertas

dos corticeiros

mesmo ao lado dos penicheiros

e

invade

tudo


pula os muros dos quintais

alaga-se pelas ruas da cidade

e segue

em passo ligeiro

para a esplanada


senta-se

e pede uma água gelada


e fica ali

a apreciar a vida

quase esquecida

de si

16 agosto 2010

noites de verão


a lua inunda o céu

como uma praia

o calor sobe da terra

e eleva-se no ar o cheiro a palha


 às primeiras horas da madrugada

adoçam perfumes

tocados pelo orvalho


se estivesses aqui

sentirias

a aragem

e o perfume

que solta

o canteiro dos orégãos

11 agosto 2010

oceano ascendente





sentada nos portados

apanhando o fresco ar

a noite

é bela

sem estrelas

apenas luar


o céu

um mar de prata

com sardinhas

ou meteoritos

a saltar

deito-me no chão

e está quente


numa vertigem

deixo-me levar


lentamente

no oceano ascendente


não sei

se vou regressar

03 agosto 2010











alta vai
a águia
que voa acima do castelo

uma leve aragem
ainda fresca
sopra no pasto
e faz subir pela encosta
o latir dos cães
e o cantar dos galos

na aldeia de baixo
o calor
derrete as vozes
das mulheres

o sino da torre acorda o silêncio
é meio dia

ao lado alguém pergunta
it's closed?
refere-se ao posto de turismo
yes, i think so
é a resposta

o vazio enche as ruas
no castelo de évora monte

são horas do almoço

29 julho 2010

hoje a solidão


hoje a solidão

é branca

como a cal


rasa

como campa


é uma estrada aberta

na planície deserta

sem fim à vista


infinita


amanhã

sabe-se lá

a cor que terá

22 julho 2010

ao fim da tarde



no largo da aldeia

a meio da tarde

naquela taberna

vendem-se coiratos

e fazem-se seguros


os homens sentados à porta

esperam o fim da tarde


os copos na mão

mirando a planície

seca

ondulante de calor


o pasto quase branco

o branco das casas

a cal

faiscando ao sol


e a planície distante

os homens alongando o olhar

até à lonjura


vão sorvendo pequenos goles

de solidão

com sabor a vinho


e sentem saudades

de um tempo não vivido

antigo

como sempre foi o futuro

16 julho 2010

estava mesmo bom! o caspacho...





pois o caspachinho estava mesmo bom! (caspacho não é erro é um regionalismo de pias).
o caspacho, receita simples e fresca. o pão alentejano, naturalmente, o tomate e o pepino. tudo muito migadinho. às vezes também pedacinhos de pimento verde. flor de orégãos triturados entre as mãos, por cima do tomate e umas pedrinhas de sal em cima, para tomar gosto. mas antes já os dois dentes de alho, não muito grandes para não ficar indigesto, haviam sido esmagados com sal no fundo da pelingana (quem não souber o que é procure no léxico pieiro). dá-se assim umas pisadelas no tomate e no pepino para extrair os sucos e depois despeja-se água bem fresca, azeite de moura e bastante vinagre. tem de ser. mexe-se muito bem para misturar o azeite com a água, mas é claro que não se consegue! o azeite é como a verdade e vem sempre ao de cima. verdades do povo, como o caspacho. depois de já estar toda a gente sentada à mesa juntam-se as sopas e tira-se logo para os pratos. que sabem bem é rijinhas e não moles. como certas coisas, enfim. acompanha-se com carapauzinhos fritos, ou uns niquinhos de presunto, mas havendo peixe não há necessidade. e azeitonas, não podiam faltar. e está pronto um grande banquete. e uma grande barrigada, mas barrigadas destas, venham elas...

aquela cidade II












































é estranha aquela cidade

ali correm rios de petróleo
petróleo nos táxis amarelos, aos milhares
petróleo nos camiões ruidosos, dia e noite, percorrendo a cidade
petróleo nas ruas de alcatrão
petróleo nas pastilhas elásticas pisadas nos passeios
petróleo nos plásticos dos talheres e nos pratos dos restaurantes de fast food
petróleo no ar condicionado do quarto de hotel
petróleo nas lojas para onde fugimos dos 42 graus celsius que abrasam a cidade
petróleo em milhões de luzes de janelas, nos escritórios vazios à noite

naquela cidade respira-se petróleo

aquela cidade quase sucumbe às toneladas de lixo em sacos de plástico preto
e ao fedor que deles emana aescorrer pelos passeios

aquela cidade é mesmo estranha

naquela cidade busquei a poesia
e não descobri gaivotas

os arquitectos daquela cidade esqueceram-se das praças
da arte pública
das fontes
dos jardins
e dos canteiros com flores

naquela cidade não há gaivotas

naquela cidade estranha eu não poderia viver

aquela cidade é nova york

10 julho 2010

aquela cidade























naquela cidade as casas nasceram da terra
como as árvores


e subiram no céu




aquela cidade é uma floresta
selvagem
mas sem árvores
apenas casas

casas gigantes
ferozes
hostis
ocupando a floresta antiga



aquelas casas expulsaram os homens
e agora vivem ali
como se fossem homens

casas
que na noite
parecem vazias
com milhões olhos
luzes
vigiando os homens
e o mundo

os índios
habitantes daquela cidade
foram expulsos

chegaram outros
homens
construiram um muro
naquela rua
e naquela lingua
chamaram-lhe wall street

dali
da rua do muro
daquela cidade
as casas
belas
e desumanas
governam o mundo
dos homens

como se fossem homens

aquela cidade é nova york